OPINIÃO: 2022 pior e um leque aberto para o futuro

Em artigo, o economista Celso Toledo diz que o cenário para o Brasil já era ruim antes da guerra e agora tende a piorar, sobretudo no tocante à inflação. Mas há atenuantes para o país e para a América Latina
Plataforma de petróleo da Petrobras: no atual cenário, a competividade de nosso petróleo tende a aumentar (Germano Luders/Exame)
Plataforma de petróleo da Petrobras: no atual cenário, a competividade de nosso petróleo tende a aumentar (Germano Luders/Exame)
Por Celso ToledoPublicado em 14/03/2022 11:01 | Última atualização em 14/03/2022 11:08Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Antever os efeitos econômicos da guerra na Ucrânia é um exercício de futurologia fadado ao fracasso, além de frívolo diante da monstruosidade e do sofrimento que podem ser acompanhados em tempo real. Até agora, cenários e preços de mercado sugerem que o conflito deve reduzir um pouco as taxas de crescimento e aumentar um tanto a inflação. Se de fato for só isso, será ruim, é claro, mas os danos para a economia global serão amenos diante do tamanho da rachadura. Afinal, trata-se de uma crise que muda profundamente o xadrez global daqui para frente.

O desejo por estorinhas coerentes e assertivas, com números e probabilidades, é irresistível e não faltam gurus dispostos a preencher a lacuna. Queiramos ou não, entretanto, crises como essa só acabam quando terminam e nunca terminam como se espera. E enquanto não terminam, os danos tendem a se tornar menos reversíveis. A técnica de elaborar cenários imaginando um retorno à normalidade faz menos sentido quando o que era normal provavelmente deixa de ser. Qualquer “narrativa” deve ser apreciada com muito desconto. Hoje, todos somos experts.

Enquanto a crise perdurar, estará sobre a mesa o risco de migração súbita para cenários catastróficos. A esperança de um desfecho rápido foi frustrada logo de início. A resistência feroz dos ucranianos e a magnitude das sanções pegou o mundo de surpresa. Atualmente, nenhum dos lados parece possuir uma bala de prata. O fato de Putin ter colocado na pedra um preço para acabar com as hostilidades alimenta esperanças, mas agora são os russos que precisam combinar com o outro lado. Enquanto isso o massacre vai continuar. Ou seja, há chance razoável de um conflito duradouro e perigoso.

Risco de recessão global

Rússia e Ucrânia são produtores relevantes de commodities. Diante disso, o impacto econômico óbvio e imediato aparece sob a forma de pressões de alta sobre cotações de mercadorias básicas, num quadro de volatilidade elevada. A inflação que deriva desses movimentos abruptos agrava uma situação que já estava bem complicada antes da guerra – lembre-se que os economistas vêm subestimando projeções de inflação há mais de um ano. Cenários em que o petróleo ultrapassa 200 dólares passaram a ser considerados seriamente por quem acompanha de perto o mercado. Se isso se materializar, além da inflação, aumenta muito o risco de nova recessão mundial.

O trabalho dos Bancos Centrais, que não era fácil, pois as economias estão operando desequilibradas, com ociosidade em serviços e gargalos na produção de bens, ficou ainda mais complicado. Os três preços mais relevantes do mundo, petróleo, dólar e juro americano, estão sujeitos a mudanças fortes e imprevisíveis. Por exemplo, quem hoje é capaz de aconselhar com segurança o FED? Como calibrar a política monetária para minimizar os efeitos colaterais do estrago? O custo de errar para mais ou para menos, maior do que o normal por conta da pandemia, aumentou.

A tendência é sempre imaginar que a poeira baixará após um período de stress agudo. Nesse caso, o imbróglio parece tão irracional que a resposta espontânea é supor que as partes acharão em pouco tempo uma saída, pois a alternativa é muito ruim – há notícias nessa direção. Se for assim, o resultado econômico será mesmo um pouco mais de inflação e um pouco menos de crescimento, além da tragédia ucraniana e o colapso econômico da Rússia. Pode ser, mas o nó verdadeiro é a assimetria gigantesca da situação: o melhor não é muito bom e o pior é assustadoramente ruim.

Para começo de conversa, a “irracionalidade” é um ingrediente importante. Usando taxas de câmbio de mercado do período anterior ao início das hostilidades, a Rússia tinha uma economia do tamanho da brasileira, ou seja, relevante, mas mais de dez vezes menor que a americana ou a chinesa. É considerada uma “superpotência” porque possui um arsenal capaz de destruir o planeta várias vezes. Usar essas armas significa, no entanto, assegurar a própria destruição. Racionalmente, portanto, as armas não serão usadas, certo? Errado. No instante em que se exclui a possibilidade de jogar tudo no ventilador, a Rússia deixa evidentemente de ser uma “superpotência”, sendo rebaixada a uma liga inferior – creio que acima da ocupada pelo Brasil, cujos gênios estratégicos se empenham em transformar o país em um pigmeu geopolítico.    

Ou seja, interessa à Rússia alimentar o pernilongo da insanidade que zumbe nos ouvidos do ocidente. Importa menos se Putin tem ou não um parafuso a menos. Para atingir o objetivo, basta fazer bem o mis-en-scène e, nisso, ele é bom. Na hora de desenhar um “cenário base”, o lógico é supor o predomínio da racionalidade. No entanto, basta atribuir uma chance pequena às possibilidades inimagináveis para o angu ficar muito indigesto. Uma empresa de consultoria internacional respeitada chutou que o botão pode ser pressionado com 10% (!) de chance. Esse número não quer dizer nada. Poderia ser 5%, 12% ou 0,5% e daria no mesmo. O fato é que a ameaça é real e tem que ser levada a sério.    

Essa assimetria tende a tornar os cenários econômicos enviesados para o lado otimista. Sem falar que, mesmo excluindo a possibilidade nuclear, é muito difícil, para não dizer impossível, estimar os impactos econômicos secundários de um “choque” que envolve o isolamento da noite para o dia de um país do G20. É verdade que o mundo tem uma capacidade extraordinária de adaptação, mas alienar a Rússia é um animal distinto de excluir a Venezuela ou o Irã. Creio que não haja cenário base que suponha a segregação definitiva da Rússia simplesmente porque é impossível fazer as contas. Mas o perigo é real.

As vantagens da irrelevância

Por aqui, o cenário já era ruim antes e agora tende a piorar, sobretudo no tocante à inflação. Dito isso, por incrível que possa parecer, há atenuantes para o Brasil e para a América Latina. Quem diria que o terceiro-mundismo serviria para algo, mas nosso continente é tão surreal que tanto “progressistas” quanto “conservadores” têm dificuldade de tomar partido numa baralhada que separa as democracias (com todas as falhas) de regimes autoritários (com as mesmas falhas e mais algumas). Essa espécie de “realismo” pode ajudar a região nesse momento delicado. São as vantagens da irrelevância.

Além disso, produzimos muitas commodities que de repente ficaram escassas para o ocidente por conta das sanções draconianas. Em um cenário de preços estressados por período prolongado, por exemplo, a competividade de nosso petróleo, que é caro, tende a aumentar. Parece brincadeira, mas o Brasil, que anda como caranguejo há mais de dez anos e, coletivamente, não consegue encontrar um meio termo minimamente razoável para sair da lama, pode ter se transformado em um dos “países emergentes” da moda. Um Forrest Gump global.

É verdade que o cenário de mais quatro anos de ramerrame é quase consensual. Porém, as expectativas com relação ao país andam tão deprimidas que a turma tem se contentado com pouco. Não se antevê grande progresso a partir de 2023, mas a crença de que qualquer desfecho eleitoral não será seguido de mudança para pior da política econômica tem ganhado adeptos de peso. Mantenho as barbas de molho, mas não dá para remar contra a maré. Como diz um colega, foguete não tem ré.

Essa visão um tanto benigna turbinada por taxa de juro que inibe apostas contra o real transformou a nossa moeda em uma das campeãs de 2022. É verdade que o real parecia barato e, a depender do critério, ainda está. A queda do preço do dólar, que pode ganhar força com a alta dos preços das commodities, retira um pouco da pressão sobre o nosso Banco Central. Mas isso não muda o fato de que o cenário segue sendo muito desafiador, mesmo que as coisas se acalmem no mundo.

Nossas perspectivas de crescimento são limitadas por um potencial medíocre, de 2%, talvez menos. Isso não muda agora e não vai mudar tão cedo. O populismo curtoprazista, que deixou de ser exclusividade dos anos eleitorais, está comendo solto. Diante das inconsistências, resta ao Banco Central a tarefa de segurar sozinho a inflação, que está roncando. Ou seja, com potencial de crescimento baixo e uma das políticas monetárias mais duras do planeta, é difícil haver dinamismo. Há heterogeneidade entre os setores, como sempre. Agricultura e mineração, por exemplo, tendem a ir bem, mas o “milagre do crescimento” segue sendo coisa para um futuro bem distante.

Para terminar, um leque de incerteza amplo significa que há desdobramentos de conotação favorável. Rússia e Ucrânia perdem muito, mas de repente pode sair um acordo que traga mais estabilidade. A crise ajudou a unir a Europa e o ocidente. A Alemanha decidiu gastar mais, finalmente. Forças de mercado devem empurrar a transição energética, mesmo que seja preciso dar um passo atrás de início – isso pode ser bom para o Brasil. Podemos surfar novamente uma onda de preços favorável que, ao contrário da última, poderá ser bem aproveitada, vai saber. É difícil ser otimista diante de tanta brutalidade, mas crises profundas também podem produzir coisas boas.

Celso Toledo é economista e diretor da consultoria LCA