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Desemprego e auxílio menor fazem com que autônomos não vivenciem retomada

Incertezas econômicas fizeram com que a atividade econômica das microempresas e dos profissionais autônomos não acompanhasse o mesmo ritmo que parte da economia está experimentando

A insegurança que assombrava grande parte dos trabalhadores autônomos no início da pandemia talvez não tenha acabado. Com a quarentena em diferentes patamares, a depender da localização e da situação da saúde pública, a atividade econômica das microempresas e dos profissionais autônomos parece não traçar o mesmo caminho que parte da economia  já está experimentando.

Mesmo com a retomada da atividade comercial em grande parte das cidades brasileiras, a atividade econômica das microempresas e dos trabalhadores autônomos piorou no mês de maio deste ano, como mostra o Índice SumUp do Microempreendedor (ISM), obtido com exclusividade pela EXAME. O valor representa uma queda de 9,69% em relação ao mesmo período do ano passado.

O índice, desenvolvido pela fintech de soluções financeiras para microempreendedores e profissionais autônomos, mede a atividade econômica baseando-se em dados de negócios de empreendedores informais, além de micro e pequenas empresas de todos os estados brasileiros e de mais de 30 ramos de atividades distintos.

Para Renan Pieri, professor da Fundação Getúlio Vargas e responsável pelo Índice SumUp, a recuperação que está sendo vista em uma parte da economia é mais lenta e diferente entre os profissionais informais. “Ela está alinhada com a dinâmica da taxa de desemprego e a queda da renda média. Mesmo que a economia esteja circulando, as pessoas acabam recebendo menos dinheiro.”

Segundo dados do Ipea, os informais registraram a maior queda de rendimento em 2020. No segundo trimestre do ano passado, os trabalhadores por conta própria receberam 24% a menos do que a renda habitual. Mesmo com uma leve melhora no último trimestre de 2020, o indicador continuou inferior aos níveis registrados antes do início da pandemia, com recuo de 10%.

Empreender na pandemia

Para Rosineide Piva, 38 anos e mãe de quatro filhos, um deles com síndrome de Down, conciliar um emprego e a vida pessoal sempre foi um desafio. Sem opções no mercado de trabalho formal, Rosineide resolveu trabalhar para si mesma antes da pandemia, em 2019. Com o apoio da filha, investiu na venda de cosméticos à pronta-entrega, trabalhando com as marcas Natura e Eudora, oferecendo os produtos de porta em porta.

Com o crescimento das vendas, decidiu montar um perfil no Instagram e no Facebook e começou a vender online. Também investiu em um canal no YouTube, onde falava sobre seus produtos e dicas de venda. O que era um estoque dentro de seu apartamento passou a ser uma loja física na rua de sua casa no início de 2021.

Rosineide Piva: empreendedora conquistou seu espaço físico em 2021, durante a pandemia.

Rosineide Piva: empreendedora conquistou seu espaço físico em 2021, durante a pandemia. (Arquivo pessoal/Reprodução)

Mas o negócio que começava a prosperar sentiu o impacto do encolhimento da renda em 2021. Rosineide viu suas vendas caírem mais de 30% entre maio e junho deste ano. "Não sou só eu, mas todo o comércio local da minha cidade. Além disso, pessoas que interagem nos meus vídeos também relataram a mesma queda. A segunda rodada do auxílio emergencial, muito menor do que o ano passado, também afetou. Principalmente para os profissionais autônomos."

Renda menor

Com a queda de 11,3% na renda média do trabalhador, o custo para atender a demandas básicas de alimentação, higiene pessoal e limpeza de uma família tornou-se insuficiente. Segundo dados do Dieese, o custo da cesta básica na capital paulista para uma família de quatro pessoas ficou em R$ 1.014,63 em fevereiro.

Nos primeiros três meses de 2020, o valor médio per capita alcançou R$ 1.122, o maior da série. No entanto, com a crise por causa da pandemia, caiu para R$ 995 em 2021. Com isso, a renda média no Brasil caiu ao menor patamar da série histórica, iniciada em 2012, segundo uma pesquisa do centro de estudos FGV Social, fazendo com que o país atingisse um nível recorde de desigualdade.

Somado à diminuição da renda média, a taxa de desemprego também bateu recorde no trimestre encerrado em abril. De fevereiro a abril, o Brasil tinha 14,8 milhões de desempregados, maior taxa  de toda a série histórica do IBGE, iniciada em 2012. Além do desemprego, mais de 6 milhões de beneficiados foram removidos após os novos critérios adotados pelo governo para a nova rodada do auxílio emergencial, além dos valores muito inferiores aos 600 reais iniciais que o programa oferecia.

Digitalização

Durante a pandemia, o comércio eletrônico foi a forma que empresas de diferentes portes e setores usaram para enfrentar a queda no faturamento e no número de vendas. Em muitos casos, pelo menos parte do processo de venda pode ser realizado por acesso remoto, como por exemplo o WhatsApp, Facebook ou Instagram, aliado também ao uso do sistema de entregas (delivery).

Essas ferramentas também foram adotadas por micro e pequenos empreendedores. Uma pesquisa do Sebrae, “Os impactos da pandemia nos pequenos negócios – 10ª edição”, mostra que o número de pequenos negócios que utilizam canais digitais para vender aumentou de 59% (maio/2020) para 69% (fevereiro/2021).

De acordo com a pesquisa, as micro e pequenas empresas usam a digitalização de forma mais profissional do que os microempreendedores individuais (MEI), pois acabam utilizando mais as ferramentas que são voltadas para a gestão dos negócios.

Entre as micro e pequenas empresas, 55% usam as ferramentas de gestão, contra 25% dos MEIs. A diferença também é observada em relação às ferramentas para gestão de clientes (CRM), que são utilizadas por 25% dos donos de micro e pequenas empresas, mas por apenas 12% dos microempreendedores individuais.

Além de usar as plataformas digitais, Rosineide passou a apostar nas lives de vendas de produtos. O modelo é simples: fazer uma transmissão ao vivo nas redes sociais, com destaque para o Instagram, para mostrar produtos, anunciar ofertas e fechar vendas em tempo real. A empreendedora também aposta em pesquisas de satisfação dos clientes, que ela afirma ser fundamental para melhorar as estratégias do seu negócio e mostrar que você realmente se importa com a experiência de cada um.

A saída pela formalização

Desde outubro, Rosineide é registrada como Microeemprendedor Individual (MEI), ou seja, uma profissional autônoma. “Quando você passa a ser revendedora, muitas marcas não reforçam a importância de você ser registrada como autônomo. O ideal é que todos se cadastrassem para poder se aposentar no futuro. No começo eu não entendia muito bem, mas me vi nessa situação de trabalhar anos e anos sem fidelidade trabalhista alguma.”

Segundo outra pesquisa do Sebrae, 71% dos MEIs relataram aumento nas vendas após a formalização. Da mesma forma, 71% dos MEIs informaram melhora nas condições de compra com a formalização -- que possibilita a emissão de nota fiscal e participação em licitações, ampliando a possibilidade de vendas e compras das empresas.

Outro vilão considerável para os custos do profissional autônomo foram as matérias-primas. Durante a pandemia, muitos recursos ficaram escassos no mercado ou ainda viram o preço disparar, encarecendo assim o produto final. Com o aumento dos custos, os profissionais se viram obrigados a repassar o aumento para os clientes, colocando em risco o volume de vendas em um momento de grande incerteza.

Rosineide conta que em 2020, além dos cosméticos, vendia cestas de presentes que custavam até 300 reais. Já neste ano, a cesta mais cara que vendeu foi de 100 reais. “A pessoa compra, mas compra uma coisa menor e mais barata. A falta de dinheiro afetou as escolhas dos consumidores, que passaram a ser mais minimalistas, consumindo com comedimento.”

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