(Imagem gerada por IA)
Redação Exame
Publicado em 5 de junho de 2026 às 12h12.
Fabio Veras*
Na semana passada, uma notícia aparentemente técnica passou quase despercebida fora dos círculos especializados. O grupo japonês SoftBank anunciou um investimento inicial de €45 bilhões na França para a construção de uma gigantesca rede de data centers voltados à inteligência artificial. O projeto poderá alcançar €75 bilhões e até 5 gigawatts de capacidade computacional, tornando-se uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital já concebidas na Europa.
Mas o valor do anúncio não está apenas nos números. Ele revela uma mudança silenciosa na forma como as nações disputam prosperidade.
Durante décadas, governos competiram para atrair refinarias, siderúrgicas, montadoras e fábricas. Hoje, a nova corrida acontece em torno de data centers, inteligência artificial, computação em nuvem e capacidade de processamento.
A infraestrutura estratégica do século XXI não é apenas física. Ela é digital.
A França compreendeu isso. Ao lado da SoftBank, participam empresas como a Schneider Electric, multinacional francesa presente no Brasil há décadas e reconhecida mundialmente por sua atuação em automação industrial, eficiência energética e sistemas críticos para infraestrutura tecnológica.
A pergunta inevitável é: o que o Brasil pretende fazer diante dessa transformação?
Talvez a resposta devesse entrar desde já na agenda dos candidatos à Presidência da República. Não como uma pauta de tecnologia, mas como uma política nacional de desenvolvimento econômico.
O Brasil possui atributos raros. Conta com uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, grande disponibilidade territorial, mercado consumidor de escala continental, abundância de fontes renováveis e posição geográfica privilegiada para atender toda a América do Sul. Poucos países reúnem simultaneamente essas características.
Mais importante ainda: poucos países possuem a capacidade diplomática e econômica para dialogar com praticamente todos os grandes polos globais da nova economia digital.
A França pode contribuir com sua experiência em infraestrutura energética, automação industrial e engenharia aplicada.
Os Estados Unidos concentram os maiores operadores globais de nuvem, inteligência artificial e semicondutores. Empresas como Microsoft, Google, Amazon e Nvidia lideram a transformação tecnológica em curso e já possuem operações relevantes no Brasil.
O Japão reúne tradição industrial, capital paciente e empresas que há décadas mantêm relações produtivas com a economia brasileira.
A China tornou-se uma potência mundial em infraestrutura digital, telecomunicações e equipamentos tecnológicos, além de já ocupar posição central em diversos segmentos da infraestrutura nacional.
Os Emirados Árabes Unidos administram alguns dos maiores fundos soberanos do planeta. Apenas o Mubadala possui ativos superiores a US$ 300 bilhões. Na mesma direção, a Arábia Saudita opera um fundo soberano que supera US$ 900 bilhões e busca oportunidades globais em tecnologia, inteligência artificial e infraestrutura.
O Canadá, por sua vez, abriga alguns dos mais sofisticados investidores institucionais do mundo em infraestrutura, energia e ativos digitais.
O ponto central é que o Brasil não precisa escolher apenas um parceiro. Sua vantagem estratégica está justamente em ser capaz de construir uma plataforma de convergência. Enquanto outras regiões do mundo se fragmentam em blocos geopolíticos cada vez mais rígidos, o Brasil pode apresentar uma proposta simples ao mercado global:
Aqui existe energia limpa. Existe escala. Existe estabilidade institucional. Existe mercado. Existe espaço para crescer.
Uma política pública nacional poderia estabelecer metas objetivas para a próxima década, atraindo investimentos privados para infraestrutura digital, data centers, inteligência artificial, computação em nuvem e formação de mão de obra especializada.
O objetivo não seria competir com os Estados Unidos, a China ou a Europa. Seria ocupar um espaço ainda disponível: tornar-se o principal hub digital da América do Sul.
No século XIX, as ferrovias definiram quais cidades prosperariam. No século XX, foram as hidrelétricas, as rodovias e as telecomunicações. No século XXI, serão os corredores de inteligência artificial.
O anúncio da SoftBank na França é mais do que um investimento. É um aviso sobre a direção do mundo. A questão para o Brasil não é se essa transformação acontecerá.
A questão é se teremos a visão estratégica para construir, desde já, as bases da próxima grande onda de desenvolvimento econômico nacional.
A inspiração do Corredor Atlântico de Inteligência Artificial dialoga com experiências internacionais nas quais grandes infraestruturas tecnológicas funcionam como polos de transbordamento de desenvolvimento econômico, atraindo empresas de software, pesquisa, computação, serviços digitais e inovação.
Exemplo recente é a estratégia francesa de consolidação de um corredor de infraestrutura de IA entre Paris, Saclay e o norte industrial do país, reforçada pelos investimentos bilionários da SoftBank em Hauts-de-France, associando energia, data centers, universidades, manufatura avançada e ecossistemas de tecnologia.
A proposta inspira-se em experiências internacionais nas quais a concentração geográfica de infraestrutura, pesquisa, empresas e capital acelera a inovação e a atração de investimentos, como ocorre no corredor tecnológico BosWash, que integra Boston, Nova York e Washington.
No caso brasileiro, a denominação “Corredor Atlântico de Inteligência Artificial” não limita a estratégia à faixa costeira, mas cria uma identidade capaz de projetar internacionalmente o país como destino de investimentos em inteligência artificial, data centers e economia digital.
A lógica poderá, posteriormente, se expandir para outros eixos geográficos nacionais, conectando diferentes regiões vocacionadas à inovação.
Entretanto, a adoção de uma marca clara, memorável e de alcance global fortalece a narrativa estratégica do país, amplia sua visibilidade junto a investidores internacionais e facilita a mobilização coordenada de empresas, universidades, centros de pesquisa e governos em torno de uma mesma visão de futuro.
*Empresário, é membro do Conselho Nacional de Proteção de Dados, foi titular do Conselho Superior da Anatel, participou do Berkeley University Entrepreneurship Bootcamp na California e do Programa de Inovação da Universidade de Stanford no Vale do Silício, Empresario, PhD pela UFMG.