(Montagem feita com IA)
Colunista
Publicado em 19 de setembro de 2026 às 09h17.
Direto da China - Perdi a conta de quantas vezes ouvi a mesma pergunta desde que cheguei aqui.
Alguém está montando uma missão executiva para a China e quer saber o que vale visitar. A lista está pronta antes mesmo de eu responder. Café de 9,9 yuans, live commerce com os grandes apresentadores, as redes de chá que abriram dez mil lojas.
É uma boa lista. O problema é que ela descreve 2023.
Passei as últimas semanas estudando esses três casos de dentro, com balanço na mão, e cheguei a uma conclusão que me incomodou mais do que eu esperava: os três estão em reversão declarada, executada pelas próprias empresas que inventaram o modelo.
E ninguém avisou o Brasil.
Um modelo chinês cresce, vira notícia, entra em relatório de consultoria, vira roteiro de missão e chega ao Brasil como tendência. Faça a soma de tudo e você terá algo entre 18 e 24 meses.
Só que 18 meses, nesse mercado, não é o intervalo entre duas fotos. É o ciclo de vida completo de uma estratégia. Tempo de subir, saturar, comprimir a margem e começar a ser desmontada.
Daí a conclusão que virou minha régua para olhar qualquer coisa daqui: um modelo só produz cobertura suficiente para atravessar o oceano quando já está operando no limite. E operar no limite, num mercado dessa densidade, é exatamente o ponto em que a margem some e o concorrente já copiou.
O pico de visibilidade e o ponto de virada são o mesmo trimestre.
Isso não é culpa de quem viaja. É uma propriedade da velocidade do que está sendo observado, mas muda tudo sobre o que perguntar quando se está aqui.
Existe um termo que organiza a China de 2026 e que quase não circula no Brasil: 内卷, involução.
É a competição de preço baixo, qualidade baixa e nível baixo, aquela em que todo mundo trabalha mais, cobra menos e ninguém ganha nada. Qualquer empreendedor brasileiro reconhece a sensação.
A diferença é que aqui isso virou pauta de governo.
Segundo a Rádio Nacional da China, a Conferência Central de Trabalho Econômico colocou o tratamento aprofundado da competição involutiva entre as prioridades econômicas de 2026.
O Relatório de Trabalho do Governo de 2025 falava em tratamento abrangente, e o de 2026 passou a falar em tratamento aprofundado, conforme registrou o Jornal dos Trabalhadores.
E saiu do discurso. Análise do escritório Shengfeng, de Pequim, sobre a notificação da Administração Estatal de Regulação de Mercado de 30 de março deste ano, mostra que o órgão nomeou quatro setores prioritários: economia de plataforma, solar, baterias de lítio e veículos elétricos. E que a nova Lei Anticoncorrência Desleal, em vigor desde outubro de 2025, passou a tratar regras de plataforma, algoritmos e dados como instrumentos de concorrência sujeitos a regulação.
Dezesseis ações especiais, trinta e nove resultados esperados e revisão em curso da Lei de Preços para tipificar melhor a venda abaixo do custo.
Em janeiro, ainda segundo a Rádio Nacional da China, o comitê antimonopólio do Conselho de Estado abriu investigação sobre a concorrência nas plataformas de entrega.
Traduzindo para o nosso vocabulário: o Estado chinês decidiu que preço baixo demais é problema de política pública.
Pare um segundo nisso, porque é contraintuitivo para quem foi formado no debate econômico brasileiro. Aqui, guerra de preço não está sendo tratada como benefício ao consumidor. Está sendo tratada como destruição de capacidade produtiva.
Comecemos pelo caso que virou símbolo.
A Luckin Coffee é o queridinho das viagens executivas.
Está em toda esquina, o aplicativo é impecável, a loja varia de tamanho e a fila anda. Quase toda imersão tem uma parada numa unidade para as lideranças entenderem o tal "café tech".
Eu entendo o fascínio, também entrei e também achei impressionante. O que me incomoda é o que fica de fora do roteiro.
Fica de fora que essa empresa quase morreu de fraude.
A Luckin abriu capital na Nasdaq em maio de 2019 e treze meses depois estava fora da bolsa. Segundo a denúncia da Securities and Exchange Commission, entre abril de 2019 e janeiro de 2020 a companhia fabricou intencionalmente mais de US$ 300 milhões em vendas, inflou despesas em mais de US$ 190 milhões e criou uma base de dados operacional falsa para sustentar transações que nunca existiram.
Pagou US$ 180 milhões à SEC, foi deslistada, entrou em Chapter 15 e perdeu cerca de US$ 11 bilhões em valor de mercado. Reparem na ironia que ninguém nota durante a visita guiada: a mesma infraestrutura digital que as delegações vão admirar foi o instrumento da fraude.
Fica de fora, também, que o modelo de preço já está sendo desmontado.
A Luckin reduziu no início deste ano a participação dos cupons de 9,9 yuans para menos de 10% dos pedidos e subiu a faixa principal para entre 12 e 15 yuans. O Caixin registra que a concorrente Cotti encerrou em fevereiro sua promoção de preço único, e que a loja de número trinta mil, aberta em Shenzhen, é uma unidade de alto padrão com laboratório de origens.
Em abril, a Nestlé confirmou a venda da Blue Bottle Coffee para a Centurium Capital, controladora da Luckin. A empresa do café de 9,9 yuans passou a controlar a marca símbolo da terceira onda americana.
E fica de fora o que aconteceu recentemente, que é o ponto que eu quero deixar.
A Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, fechou investimento minoritário na Luckin em transação conjunta com a Centurium que soma cerca de US$ 1 bilhão, segundo documento arquivado na SEC. As duas passam a reportar propriedade efetiva de aproximadamente 22,1% da companhia, e o veículo da Mubadala ganha o direito de indicar um conselheiro enquanto detiver ao menos 5%.
Um fundo soberano não entra numa empresa com a ficha da Luckin por causa do aplicativo. Entra porque a reconstrução de governança virou crível, e a primeira coisa que negocia não é preço de café e sim cadeira no conselho.
É aqui que o caso deixa de ser sobre café e passa a ser a nossa régua. Crescer é fácil de mostrar: número de lojas cabe em slide, GMV cabe em manchete. Governança não cabe em nada disso, é invisível enquanto funciona e é a única coisa que importa quando para.
A Luckin cresceu mais rápido que qualquer rede de café do mundo e ainda assim quebrou, por perder confiança institucional. O consumidor chinês perdoou em cerca de três anos. O mercado de capitais, seis anos depois, ainda não perdoou por completo: a ação segue no mercado de balcão americano, sob o código LKNCY, e não na bolsa principal. Crescimento é métrica e governança é licença para operar. Uma você mostra em apresentação e a outra você só percebe que não tinha no dia em que precisa dela.
Este é o caso que mais me impressiona, porque é o que mais aparece em apresentação brasileira: live commerce.
O tamanho continua absurdo. Levantamento reproduzido pelo Tonghuashun Finance aponta 5,2 trilhões de yuans em GMV em 2025, perto de um terço de todo o varejo online chinês, com 660 milhões de usuários.
Mas o poder mudou de lugar. Análise publicada pelo Tencent News em maio mostra que a fatia dos superapresentadores no GMV caiu de cerca de 30% no auge para perto de 10,66%. E que, em 2026, a transmissão feita pela própria marca ultrapassou pela primeira vez metade do GMV do setor. Em beleza, há marcas com mais de 70% do volume saindo do próprio estúdio.
A conta que as marcas fizeram é a mesma que eu faria. Por que pagar comissão, taxa de posição e ainda aceitar imposição de menor preço da internet, se o dinheiro pode construir estrutura própria e o dado fica em casa?
E veio a fiscalização. Segundo análise publicada pelo Tencent News em maio, o apresentador conhecido como Lao Ge de Taiyuan, com quase cem milhões de seguidores, levou multa de 5,6 milhões de yuans nesta primavera por linguagem publicitária exagerada e comparação de preço fabricada. Na mesma matéria, o braço de comércio eletrônico da Kuaishou aparece multado em cerca de 26,7 milhões de yuans por descumprimento de obrigações de publicidade de informações, entre outras irregularidades.
O executivo que vem aprender a contratar o grande nome está copiando um arranjo que perdeu dois terços da sua participação e virou alvo do regulador.
Terceiro caso, mesma curva.
O setor de chá pronto fechou 2025 com quase 30 mil lojas a menos em termos líquidos e crescimento de escala desacelerando para 5,7%.
Os dados mais recentes são de 8 de setembro, em reportagem da agência China News Service: no primeiro semestre, a Mixue abriu 5.455 franquias, quase 30% menos que um ano antes, com 1.289 fechamentos. A Chagee terminou o semestre com 7.639 lojas globais e crescimento desacelerando para 8,5%. As marcas passaram a frear abertura e a fechar ativamente unidades de baixa eficiência.
O Sina Finance comparou em abril as cinco empresas de chá listadas em Hong Kong: o grupo Mixue fez 33,56 bilhões de yuans de receita em 2025, alta de 35,2%, com lucro líquido de 5,887 bilhões. A Nayuki, que foi a primeira do setor a abrir capital, terminou o ano com prejuízo, receita em queda, 152 lojas a menos e ação 96% abaixo do preço de emissão.
O portal Hongcan registrou em fevereiro que a Heytea suspendeu a entrada de novos franqueados e refez seu espaço físico.
Ou seja: a corrida por número de lojas, que virou métrica de sucesso em toda apresentação sobre China, é precisamente o que as marcas líderes pararam de fazer.
Nada disso é inédito, e é por isso que eu trato como mecanismo e não como má sorte.
Lá por 2020 e 2021, a compra coletiva de bairro foi vendida ao mundo como o futuro do varejo alimentar. Gigantes de tecnologia queimaram bilhões em subsídio para capturar o consumidor de cidade pequena. O modelo desabou pouco depois. Hoje não aparece em apresentação nenhuma.
O ciclo se repete. E quando algo se repete, deixa de ser acidente e passa a ser regra.
Não escrevi isso para dizer que missão executiva não serve. Serve, e muito. Se puderem, façam.
Mas mudei as perguntas, e recomendo as quatro.
O que se aprende aqui continua valendo muito. Só não é o que está no slide. O material que presta não é o modelo no auge e sim a transição. Por que está sendo abandonado, quanto custou descobrir isso, e o que estão montando no lugar.
Copiar o auge é chegar atrasado, mas estudar a transição é chegar na hora.