Nova geração de campanhas da Hollister, com estética mais próxima do cotidiano e menos apelo sexual do que nos anos 2000 (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 26 de agosto de 2026 às 10h46.
Marcas que pareciam condenadas ao esquecimento no fim dos anos 2010 voltaram a puxar filas em shoppings americanos, agora vestindo adolescentes que mal tinham nascido quando o boné com a logo grande ainda era "regra", ou pelo menos símbolo de status, nos corredores das escolas.
Nos últimos meses, os millennials estão assistindo a adolescentes disputarem no Vinted e no Depop os moletons, jaquetas e camisetas da Abercrombie & Fitch e da Hollister que antes lotavam os seus armários do ensino médio. O movimento aparece também no resultado financeiro das etiquetas.
A Abercrombie & Fitch Co, dona das duas marcas, fechou o segundo trimestre fiscal de 2026 com vendas líquidas recordes de US$ 1,27 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 6,5 bilhões na cotação atual, alta de 5% em relação ao mesmo período do ano anterior e décimo quinto trimestre consecutivo de crescimento. A marca Abercrombie cresceu 8% no período, a Hollister avançou 2%, e a companhia projeta expansão de vendas em torno de 5% para o ano fiscal inteiro.
Campanha dos anos 2000 da Abercrombie & Fitch, com o estilo despojado e sensual que virou marca registrada da empresa naquela época (Divulgação)
Para entender o tamanho do fenômeno é preciso lembrar o que Abercrombie e Hollister representaram nos anos 2000. As lojas vendiam menos roupas e mais um estilo de vida, com jeans desbotados, polos justas, moletons com logos enormes, minissaias, cargos, chinelos e jaquetas com capuz forrado de pelo sintético, vestidos por adolescentes bronzeados que pareciam viver entre um campus universitário na costa leste e uma praia da Califórnia. As lojas escuras, a música alta, o perfume espalhado no ar e vendedores escolhidos também pelo visual transformavam uma compra comum em um ritual entre colegas de escola.
Essa mesma construção de exclusividade ajudou a derrubar as marcas mais tarde. Ao longo dos anos 2010, o modelo estético promovido pelo grupo passou a soar incompatível com discussões sobre padrões de beleza, discriminação e exclusão, entre elas acusações envolvendo tráfico sexual que atingiram a companhia, enquanto logos gigantes, polos sobrepostas e jeans lavados viraram símbolo de um estilo considerado ultrapassado. Nos anos seguintes o grupo abandonou aos poucos essa identidade e transformou principalmente a Abercrombie em uma marca mais adulta e com apelo mais amplo.
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Peças vintage de moletons, camisetas justas, jeans e principalmente as jaquetas com capuz de pelo sintético viraram objeto de desejo entre consumidores que muitas vezes nem tinham idade para usá-las quando foram lançadas. Levantamentos recentes sobre comportamento de consumo já apontam um recorte parecido em relação a 2016, ano em que a Abercrombie ainda carregava o prestígio de marca de shopping reconhecida, o que indica que essa nostalgia mira recortes cada vez mais recentes do passado.
O retorno das duas marcas acompanha também uma mudança na forma como o consumidor encara peças básicas, influenciada pela nostalgia do fim dos anos 2000 e início dos 2010, período de filmes como Crepúsculo, do auge do Tumblr, dos jeans skinny e das botas Ugg. São roupas que já carregam alguma história, simples o bastante para serem usadas hoje e datadas o suficiente para soarem novidade para quem era jovem demais para querê-las quando foram lançadas.
Nos brechós online, peças da Abercrombie e da Hollister com anos de uso já chegam a ser vendidas por valores próximos aos das coleções atuais das duas marcas, movimento que ajuda a explicar parte do desempenho recente das lojas físicas e do comércio eletrônico do grupo.