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Conheça Heidelberg, a cidade alemã que não gosta de carros

Heidelberg está na vanguarda de um movimento que provavelmente é mais forte na Europa, mas que está presente em muitas comunidades ao redor do mundo

As bikes para compartilhamento  (Felix Schmitt/The New York Times)

As bikes para compartilhamento (Felix Schmitt/The New York Times)

DS

Daniel Salles

Publicado em 17 de março de 2021 às 12h56.

Última atualização em 17 de março de 2021 às 13h54.

O prefeito Eckart Würzner, que está em uma missão para livrar sua cidade das emissões de carbono, não ficou muito impressionado com o fato de a General Motors, a Ford e outras grandes montadoras terem prometido abandonar os combustíveis fósseis.

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Não que Würzner, o prefeito de Heidelberg, seja contra os carros elétricos. Essa cidade pitoresca, no sul da Alemanha, oferece um bônus de até 1.000 euros aos habitantes que comprarem um veículo movido a bateria, além de outros 1.000 euros se instalarem uma estação de recarga em casa.

Mas os carros elétricos não estão na lista de estratégias adotadas por Würzner para tentar reduzir o impacto climático de Heidelberg, iniciativa que deu à cidade, que abriga a universidade mais antiga da Alemanha e as ruínas de um castelo de 800 anos, a reputação de pioneira no planejamento urbano com consciência ambiental.

O objetivo de Würzner é reduzir a dependência dos carros, não importa qual seja sua fonte de energia. Heidelberg está comprando uma frota de ônibus movidos a hidrogênio, construindo uma rede de "superestradas" para bicicletas na região metropolitana e projetando bairros que desencorajam o uso de veículos e incentivam a caminhada. Quem desiste de ter carro pode usar o transporte público gratuitamente por um ano.

"Se você precisa de automóvel, use um carro compartilhado. Se não pode lançar mão do compartilhamento de carros porque você mora muito longe e não há transporte coletivo, vá de carro apenas até a estação de trem, e não até o centro", recomendou Würzner em uma entrevista na prefeitura em estilo barroco de Heidelberg, quase deserta por causa da pandemia.

Ônibus elétricos no centro histórico (Felix Schmitt/The New York Times)

Heidelberg está na vanguarda de um movimento que provavelmente é mais forte na Europa, mas que está presente em muitas comunidades ao redor do mundo, incluindo cidades dos Estados Unidos como Austin, no Texas, e Portland, no Oregon. A pandemia deu a muitos cidadãos uma amostra de como áreas urbanas densamente povoadas seriam sem tanto trânsito, e todo mundo gostou disso.

Os recentes votos de abstinência de combustível fóssil feitos por muitas montadoras, incluindo a GM, a Ford Motor e a Jaguar Land Rover, são uma admissão tácita de que os carros não serão mais bem-vindos nas cidades, a menos que resolvam seus problemas. Porém, mesmo que se tornem mais limpos, a maré da história pode ter se voltado contra os automóveis, à medida que os planejadores urbanos tentam liberar o espaço atualmente ocupado por eles.

Ao longo da próxima década, dezenas de cidades na Europa, incluindo Roma, Londres e Paris, planejam permitir apenas o trânsito de veículos livres de emissões de carbono nas regiões centrais. Algumas, como Estocolmo e Stuttgart, lar da Mercedes-Benz na Alemanha, já proíbem o trânsito de veículos a diesel mais antigos.

Os governos nacionais estão aumentando a pressão. A Irlanda, os Países Baixos, a Suécia e a Eslovênia dizem que vão proibir a venda de carros de combustão interna depois de 2030. O Reino Unido e a Dinamarca afirmam que farão isso em 2035, permitindo apenas carros híbridos depois de 2030. A Espanha e a França farão o mesmo em 2040.

"Essas declarações de intenção certamente pressionam as montadoras de veículos", comentou Sandra Wappelhorst, pesquisadora sênior do Conselho Internacional de Transporte Limpo, em Berlim, que acompanha os planos de empresas e governos para eliminar os carros movidos a combustão interna.

O prefeito da cidade, Eckart Würzner (Felix Schmitt/The New York Times)

Heidelberg, cidade de 160.000 habitantes às margens do Rio Neckar, oferece um vislumbre de como poderá ser uma cidade do futuro, com poucos automóveis.

Heidelberg é uma das seis cidades europeias consideradas "inovadoras" pela C40 Cities, organização que promove políticas urbanas favoráveis ao clima, cujo presidente é Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York. (As outras são Oslo, na Noruega; Copenhague, na Dinamarca; Veneza, na Itália; e Amsterdã e Rotterdam, na Holanda.)

Entre as medidas tomadas pela cidade para tornar os carros irrelevantes está a construção de pontes que permitiriam aos ciclistas contornar áreas congestionadas ou cruzar o Neckar sem ter de competir por espaço viário com veículos automotores.

Os edifícios também são importantes. A cidade cortou o consumo de energia das escolas e de outros prédios públicos em 50% na última década — uma enorme conquista, considerando-se que muitas dessas estruturas têm centenas de anos.

Os veículos movidos a bateria não poluem o ar, mas ocupam tanto espaço quanto os modelos a gasolina. Würzner reclama que Heidelberg ainda sofre congestionamentos na hora do rush, embora apenas cerca de 20% dos habitantes circulem de carro. O restante caminha, anda de bicicleta ou nos ônibus elétricos que percorrem as vielas de paralelepípedos do centro histórico da cidade. "As pessoas que usam o carro para ir ao trabalho são o principal problema que ainda não resolvemos", disse Würzner.

Ciclista passeia pela cidade (Felix Schmitt/The New York Times)

A zona de pedestres de Heidelberg, geralmente repleta de turistas, mas quase vazia recentemente por causa da pandemia, é considerada a mais longa da Alemanha. Mas a melhor vitrine para o desejo da cidade de se livrar das emissões de carbono fica em um antigo pátio de carga ferroviária nos arredores da cidade.

Em 2009, teve início a construção da Bahnstadt, ou Cidade da Ferrovia. O terreno, de onde foi preciso remover três bombas não detonadas da Segunda Guerra Mundial, oferecia aos planejadores uma folha em branco para criar um bairro sem impacto ambiental.

Os modernos prédios de apartamentos, completamente diferentes dos encontrados no centro barroco de Heidelberg, têm um isolamento térmico tão eficaz que quase não precisam de energia para ser aquecidos. O calor vem de uma usina nos arredores, que queima restos de madeira.

Os carros não foram proibidos na Bahnstadt, mas quase não há trânsito. A maioria das ruas são becos sem saída. Os prédios de apartamentos estão dispostos em torno de grandes pátios com playgrounds e são conectados por passarelas. A única rua que corta o bairro triangular tem um limite de velocidade de 30 quilômetros por hora. As bicicletas têm prioridade.

A Bahnstadt, com 5.600 habitantes e ainda em crescimento, conta com um jardim de infância e uma escola primária, um centro comunitário, dois supermercados, várias padarias e cafés, duas lojas de bicicletas e seis estações de compartilhamento de carros, cada uma com dois veículos elétricos. Com poucos minutos de caminhada se chega à estação ferroviária central de Heidelberg e a uma parada de bonde. Além disso, uma ciclovia segue a rota da antiga linha ferroviária que levava ao centro da cidade.

Também existe trabalho no local. A Bahnstadt conta com grandes prédios de escritórios cujos inquilinos incluem a subsidiária alemã da Reckitt Benckiser, fabricante de produtos de limpeza e de saúde.

"A ideia é voltar à clássica cidade antiga, em que moradia e trabalho estão intimamente ligados", comentou Ralf Bermich, chefe do Escritório de Proteção Ambiental de Heidelberg.

Algumas pessoas reclamam que Heidelberg não é tão ecológica ou amigável para bicicletas como sua reputação indica. Paul Baur, americano que mora na cidade desde 2007 e vai de bicicleta ao trabalho fora da cidade, contou que seu trajeto o obriga a pedalar entre carros estacionados e uma linha de bonde. "Você pode decidir se quer morrer atropelado por um bonde ou pela porta de um carro. Estes dominam o espaço. É verdade que a cidade está progredindo, mas acho que é muito pouco e quase tarde demais", escreveu Baur em um e-mail.

Würzner, o prefeito, disse que sua meta era tornar Heidelberg climaticamente neutra até 2030, meta ambiciosa. A cidade planeja gerar energia eólica e solar próprias e está instalando um posto de abastecimento para uma frota de 42 ônibus movidos a hidrogênio. A cidade queria encomendar centenas de ônibus, mas Würzner se queixou de que os fabricantes de ônibus tinham demorado a reagir à demanda por transporte livre de emissões. "Não conseguimos comprar o suficiente."

Würzner, que dirige uma Mercedes experimental movida a hidrogênio, reconheceu que nem todas as cidades podem se dar ao luxo de fazer todas as coisas que fizeram de Heidelberg uma vitrine para um planejamento ambientalmente correto. A Universidade de Heidelberg, uma das mais prestigiadas da Alemanha, conta com vários institutos de pesquisa que fornecem uma base tributária sólida. Os habitantes da cidade tendem a ter boa formação acadêmica e são mais ricos. "É verdade que a cidade está em uma situação financeira muito boa", admitiu Würzner.

Mas ele contou que muitos prefeitos da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia têm comentado que gostariam de imitar a estratégia de Heidelberg. "Todo mundo sabe que esse é o caminho que devemos seguir. É só uma questão de quando chegaremos lá", concluiu.

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