Vinhedo na Califórnia: em Napa, a colheita de 2026 pode ficar quase 50% abaixo da registrada no ano passado (Reprodução/Napa Valley)
Jonalista colaborador
Publicado em 19 de outubro de 2026 às 06h19.
Na Honig Vineyard & Winery, em Napa Valley, a colheita de 2026 rendeu bem menos uvas do que o esperado, e o presidente da vinícola, Michael Honig, recebeu o resultado com alívio. "É uma dádiva", afirmou ao Wall Street Journal, ao comentar o volume reduzido. Segundo ele, a safra curta está ajudando a empresa a atravessar o momento atual.
A avaliação de Honig reflete o que acontece em boa parte da Califórnia, estado que concentra cerca de 80% da produção de vinho dos Estados Unidos. Com as vendas em queda há alguns anos e os armazéns ainda ocupados pelas safras volumosas de 2023 e 2024, colher e vinificar menos fruta reduz gastos com mão de obra, tanques e barricas, além de evitar que novos volumes se somem aos estoques parados.
O tamanho da colheita começou a ser definido ainda na primavera. Uma onda de calor recorde em março antecipou a brotação das videiras em todo o estado, e o tempo chuvoso e com ventos que veio em seguida prejudicou a polinização, provocando a queda de flores e de frutos em formação. Em Sonoma, a vindima começou tão cedo que Karissa Kruse, CEO da Sonoma County Winegrowers, a classificou como a mais precoce dos últimos 30 a 40 anos. A associação estima um volume entre 35% e 40% abaixo da média histórica.
Em Napa, a redução pode chegar a quase 50% em relação a 2025. Os boletins publicados pelo Napa Valley Register mostram o efeito em cada propriedade. Em Atlas Peak, a Antinori registrou rendimento pelo menos 50% menor, enquanto o Chateau Montelena viu a produção de Sauvignon Blanc cair até a metade da média. Na Vindicta Estate, o peso total colhido ficou em 36% do obtido no ano anterior. Mesmo com o volume baixo, os produtores relatam frutas de boa qualidade, e Ashley Egelhoff, enóloga da Honig, se diz entusiasmada com a safra.
A quebra chega depois de um 2025 em que o setor já havia encolhido por conta própria. Dados da California Association of Winegrape Growers indicam que cerca de 15,4 mil hectares de videiras foram arrancados no estado no ano passado, o equivalente a 7% da área plantada, e aproximadamente 450 mil toneladas de uvas ficaram sem colher. Alguns produtores chegaram a queimar as plantas, segundo o New York Times, num período em que as vendas de vinho atingiram o menor patamar em mais de 20 anos.
Em Napa, o relatório agrícola do condado registrou a perda de 1.226 hectares de vinhedos em produção e uma queda de US$ 62,3 milhões no valor das uvas, com o Cabernet Sauvignon respondendo por quase três quartos desse recuo. A retração também alcançou o mercado de terras. A McManis Family Vineyards colocou à venda uma propriedade de aproximadamente 1.416 hectares por US$ 22,5 milhões e dividiu outros vinhedos da família em lotes menores.
O comércio exterior agrava a situação. Segundo o Wine Institute, a retirada dos vinhos americanos das prateleiras canadenses custou US$ 357 milhões ao setor em 2025, valor que continuou crescendo ao longo deste ano.
Dentro do país, o consumo também diminuiu. Os americanos mais jovens bebem menos que as gerações anteriores, por razões que vão da preocupação com a saúde ao preço, e costumam preferir destilados e cerveja quando optam por álcool. Um levantamento da Sovos ShipCompliant aponta que 2025 teve a maior queda anual de volume já registrada nos envios diretos ao consumidor, e a Califórnia sozinha perdeu US$ 142 milhões nesse canal, o que representa 62% de todo o recuo em valor do setor.
O movimento nas salas de degustação, canal de vendas importante para as vinícolas de Napa e Sonoma, vem caindo há alguns anos. No relatório anual do Silicon Valley Bank sobre a indústria do vinho nos Estados Unidos, um produtor afirmou que contar com a visita do público às salas de degustação já não funciona como antes.