Vagas afirmativas para negros têm apoio de 74% dos brasileiros, diz estudo

Estudo mostra que quase 60% das empresas no Brasil não possuem um time com 50% dos funcionários negros
Liderança: 54,3% afirmam que não observam a presença de pessoas negras em espaços decisórios (courtneyk/Getty Images)
Liderança: 54,3% afirmam que não observam a presença de pessoas negras em espaços decisórios (courtneyk/Getty Images)
Por Luísa GranatoPublicado em 16/05/2022 12:00 | Última atualização em 23/05/2022 11:02Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Os programas com vagas afirmativas para pessoas negras ganharam destaque nos últimos anos e nova pesquisa da Mindsight com a consultoria Indique mostra que a política de diversidade ganhou o apoio da população: no estudo, 74,6% dos respondentes são favor de vagas exclusivas para pessoas negras.

No entanto, a pesquisa, divulgada com exclusividade para a EXAME, mostra o outro lado dessa história em construção: quase 60% das empresas não possuem um time com 50% dos funcionários negros.

Verônica Dudiman, cofundadora do Indique uma Preta, e Thaylan Toth, CEO da Mindsight, contam que consideram que houve avanços nos últimos anos.

“A gente visualiza de forma acelerada as empresas se movimentando. A Magalu não foi a primeira, mas deram a cara a bater. E uma das maiores empresas do Brasil tomando essa pauta inspira desde empresas no mesmo nível a empresas com 10 ou 100 colaboradores a fazer algo”, diz Dudiman.

Sua consultoria foi uma das parceiras no programa de trainee exclusivo para negros da varejista em 2020. Antes dessa iniciativa, em 15 anos do programa, com cerca de 250 trainees formados, apenas 10 eram negros.

E o programa incomodou parte do público, fazendo surgir questionamentos sobre a legalidade de um programa exclusivo para parte da população. A dúvida foi posta de lado pelo Ministério Público do Trabalho, que determinou que uma ação de reparação histórica para a inserção de negros no mercado de trabalho não poderia ser considerada discriminatória.

E a Magalu não ficou sozinha nessa onda de ações intencionais de contratação. A Bayer, que lançou o seu próprio programa com vagas exclusivas na mesma semana, contratou 19 trainees – a maioria mulheres.

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Em 2020, o grupo Cia de Talentos mediu um aumento de 118% de contratações de jovens negros em relação a 2019 dentro de seus programas de estágio e trainee. Em 2021, o número de contratados quase dobrou.

“É bem relevante para o candidato estar em ambiente que valorize a gente e que você percebe que tem possibilidade de avançar. Uma das coisas que mais faz diferença é ter um exemplo. Se você vê poucos negros na liderança, as próprias pessoas diminuem as aspirações”, diz o CEO da Mindisight.

Na Cia de Talentos, os programas afirmativos e o investimento na comunicação mais inclusiva elevaram os números de candidatos negros na plataforma e eles chegaram a 300 mil jovens cadastrados e ativos.

Dudiman conta que essa busca mais intencional também acontece com a consultoria, com as empresas indo atrás do público que elas têm acesso.

Falta acolhimento

Agora, a pesquisa das duas entidades mostra mais um capítulo dessa história. O estudo foi lançado nesta segunda-feira, dia 16, por sua proximidade com a data do 13 de maio, dia que marca a abolição da escravatura em 1888.

“E a pergunta que trazemos é: que abolição foi essa?”, diz a fundadora.

No estudo, nomeado “Raça & o Mercado de Trabalho: uma conta que (ainda) não fecha”, 2.520 pessoas foram entrevistadas (57,3% mulheres, 41,9% homens e 0,5% não-binário). A maioria dos respondentes se identificou como pessoas negras (59,5%).

A Mindsight, plataforma de tecnologia de RH, chamou a Indique para ajudar a organizar as perguntas e ter um olhar especializado sobre os dados obtidos.

“Acho que um dado importante é que todos se interessam pelo tema. Isso independe de raça, região ou gênero”, diz o CEO. “E o mais preocupante é vermos que ainda existe um viés e poucas pessoas negras em processos de decisão”.

O estudo mostra um apoio quase total dos entrevistados sobre os efeitos positivos da diversidade nas empresas. Para 84,5%, a diversidade racial ajuda nos resultados.

Por outro lado, 54,3% afirmam que não observaram a presença de pessoas negras em espaços decisórios no seu último emprego. E 37% dos respondentes negros afirmaram ter sofrido racismo no ambiente de trabalho.

A especialista acredita que ainda falta um “banho de loja” dentro das empresas para receber os talentos negros.

“Quando a empresa de fato se estrutura, muda tudo. É preciso preparar as lideranças e preparar aliados e mentores dentro da empresa para serem contatos e acompanhar os talentos negros”, diz a especialista.

A pesquisa mostrou um despreparo das companhias para lidar com o racismo, com 57% delas não possuindo um espaço de acolhimento ou denúncia. Mais de 80% das pessoas nunca receberam um treinamento de proteção dos funcionários negros.

Entre os respondentes negros, 20,3% já sofreram racismo de líderes, 14,5% de colegas no mesmo nível profissional e 2,4% de subordinados.

E cerca de três em cada dez entrevistados conhecem pessoas que não denunciaram um ato racista por medo de retaliação. Entre os negros, o resultado foi superior, de 42,9%.

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