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A nova cara do trainee: como a diversidade mudou os programas de Bayer e Magalu

A trajetória de vida e o que pensam quatro dos 38 jovens profissionais negros que viraram trainees nos primeiros programas voltados para inclusão racial na Bayer e no Magazine Luiza, abertos no fim do ano passado

Os trainees da Bayer e do Magalu Luthuli Paixão, Marina Maia, Renata Cruz e Juliana Gomes, quatro dos 38 selecionados pelos programas de trainee para negros de Bayer e Magalu: histórias de pioneirismo na inclusão racial nas empresas

Luthuli Paixão, Marina Maia, Renata Cruz e Juliana Gomes, quatro dos 38 selecionados pelos programas de trainee para negros de Bayer e Magalu: histórias de pioneirismo na inclusão racial nas empresas (Montagem/Exame/Divulgação)

“Eu tenho um perfil de trainee, eu vejo isso agora. Não achava que era pra mim...”. Essa foi uma das frases que mais marcou Patrícia Pugas, diretora-executiva de gestão de pessoas no Magazine Luiza, enquanto conduzia as entrevistas com finalistas do programa de trainee que causou alvoroço em 2020.

Afinal, o que é esse perfil de trainee? É a pessoa recém-formada na faculdade, que demonstra um potencial para assumir desafios dentro das empresas e ser treinada para um dia assumir um cargo de liderança. Historicamente, os selecionados fazem faculdades e cursos específicos, falam duas línguas, fazem intercâmbio, têm contatos dentro do mercado para guiá-los... e eles também são brancos.

Uma pesquisa interna da consultoria 99Jobs com 300 programas de trainee em 2019 contatou que 99,2% dos contratados eram brancos.

Essa é a estatística que o Magalu tentava mudar há cinco anos, segundo Pugas, e sem ter sucesso.

“Fomos mudando o processo ano após ano, sempre querendo buscar mais diversidade, inclusive a racial. E não conseguíamos. O que você perguntar, a gente fez. Seleção às cegas? Não funcionou. Mudar critérios, como faculdade ou inglês? Sim, fizemos, e não funcionou. No final, nada trazia resultado”, fala ela.

A conclusão é que eles precisavam se comunicar melhor e passar uma mensagem diretamente ao público que queriam trazer para o programa.

E assim nasceu o programa de trainee com vagas apenas para profissionais pretos e pardos do Brasil. E já não nasceu sozinho. No mesmo dia 18 de setembro, a Bayer também abria as inscrições para um programa com a mesma premissa e vontade de mudar. E não, não foi combinado, como confirma a diretora do Magalu e o vice-presidente de Finanças da Bayer Crop Science, Maurício Rodrigues.

“Nós não somos salvadores, o programa é uma evolução do que vemos em discussão dentro e fora da empresa. Tivemos a ideia assim como outros. E essa ideia provocou algo na sociedade, dentro da empresa e em outras empresas. Eu, particularmente, tenho contato com cinco ou seis empresas que querem entender como fizemos”.

Segundo o grupo Cia de Talentos, empresa de processos de seleção que administrou o programa da Bayer, os programas de estágio e trainee de 2020 tiveram um aumento de 118% de contratações de jovens negros em relação a 2019.

Juntando as empresas Basf, Bayer, Bunge, Itaú, Nestlé, Pepsico, PWC, Suzano, Telefônica Vivo, Unilever e Yara, os percentuais de contratação no ano passado superaram 42% do total.

Para o executivo da Bayer, se a polêmica do ano anterior tem um lado bom, foi que trouxe maior debate. De alguma forma, as reações negativas sobre os programas, com ameaças de processo e questionamentos sobre uma discriminação contra outros candidatos, ajudaram a alavancar a visibilidade para o público que as empresas queriam realmente conversar.

“Eu vi um post excelente, a pessoa dizia: ‘poxa, estão discutindo tanta coisa que não faz sentido, mas valeu, não sabia do programa e agora me inscrevi’. Então, tá valendo. A gente chegou aonde não chegaria de outra forma”, conta Pugas.

No trainee do Magalu, o número de inscrições foi superior a 22 mil e teve 19 aprovados. Em 15 anos do programa, com cerca de 250 trainees formados, antes apenas 10 eram negros. Na Bayer, foram 25 mil inscritos e também 19 selecionados.

O vice-presidente destaca uma vitória a mais nesse dado: foram 16 mulheres contratadas. “Se ao final do processo, tivéssemos 19 homens negros, seria um mal dia para mim. Você ataca um assunto e não foca em outro. Temos sempre que pensar na inclusão como um todo. Não foi algo forçado, essas 16 mulheres se destacaram e conquistaram a vaga”, fala ele.

Nos dois programas, é possível ver que mais aspectos de diversidade foram levados em conta. No Magalu, a proporção foi de 11 homens e 8 mulheres. E, em média, os aprovados têm 26,5 anos.

Novos critérios, outras habilidades

Um ponto importante que os programas provaram é que a retirada de requisitos específicos, como a fluência de inglês, não significada que os selecionados serão menos qualificados. Na verdade, o VP da Bayer relata um problema diferente: “Recebemos muita gente boa e talentosa. Infelizmente, não vamos conseguir absorver todo mundo".

Dos selecionados, alguns falam inglês ou espanhol, e outros não. O diferencial deles está em sua mentalidade, suas conquistas até então e habilidades comportamentais, como resiliência e curiosidade em aprender, contam os recrutadores de Bayer e Magalu. E, na visão de quem foi aprovado nas primeiras turmas de trainees para negros, as demais habilidades estão aí para serem desenvolvidas.

A rotina nas empresas que abriram programas voltados a candidatos negros têm sido marcada por aprendizados de todos os tipos. Na Bayer, os funcionários com mais tempo de casa estão passando por treinamentos sobre os desafios da inclusão racial no país. No radar da empresa estão ainda programas de capacitação dos jovens negros às habilidades exigidas por uma empresa multinacional, como o domínio de idiomas.

Na visão de Renata Cruz, trainee da Bayer, o cuidado da empresa na recepção dela e dos demais trainees negros fez a diferença. "Meu dia a dia está preenchido por treinamentos e contatos com pessoas diferentes", diz Renata. "Ouvi um sotaque diferente e descobri que uma menina era do Quênia, imagina isso?"

Ao que tudo indica, a primeira leva de trainees negros trouxe em si também o espírito de colaboração com os concorrentes. “Foi impressionante o processo em si. Não só pelo nível das pessoas, mas pelo nível de cooperação. Mesmo competindo, tinha um apoio mútuo entre as pessoas. Todos estavam ansiosos para conseguir a vaga, mas todo mundo sabia que íamos estar bem representados”, comenta Marina Maia, trainee do Magalu.

Por trás dessa colaboração está o fato de que esses profissionais têm sido pioneiros desde o momento que colocaram os pés na universidade. O perfil dos profissionais brasileiros com ensino superior começou a se transformar a partir de 2012, quando as políticas de cotas raciais nas universidades, que haviam começado de maneira tímida na década anterior, foram expandidas para a maioria das instituições de ensino superior públicas do país.

Em quase dez anos as instituições aprimoraram suas políticas de inclusão racial e formarem turmas mais diversas de alunos. Mas a entrada desses profissionais no mercado de trabalho não foi tão efetiva. Em um levantamento do ano passado do Vagas.com com 200 mil pessoas em sua base de dados, 47,6% dos negros disseram que ocupavam um cargo no nível operacional ou de auxiliar. Os diretores eram apenas 0,7%. Apesar disso, entre esses profissionais, 47,8% declaram ter formação no ensino superior -- o que, em tese, os habilitaria para ocupar cargos de liderança.

Enquanto os negros representam 55,9% de toda a população brasileira, uma pesquisa do Instituto Ethos divulgada em 2016 mostrou que somente 4,7% dos cargos executivos das 500 maiores empresas brasileiras são ocupados por eles. E mulheres negras estão em apenas 0,4% desses cargos.

“Os negros não estão nas empresas por conta de limitações colocadas inconscientemente. A gente vive um reflexo do modelo de escravidão, onde foi dada a alforria, mas não a possibilidade de emprego", diz Luthuli Akanni Paixão, trainee do Magazine Luiza.

Os talentos estão no mercado, porém as empresas ainda precisam se adequar para identicar sua diversidade interna e promovê-la em toda sua estrutura. Para a Bayer e o Magazine Luiza, os programas lançados em 2020 foram aceleradores para reverter o processo, mas não são o único caminho.

“Não fazemos o trainee todos os anos. Primeiro, vamos focar na formação de quem entrou. E temos outras iniciativas. O BayAfro faz mentorias e letramento racial (discussões sobre inclusão racial), temos nossos estagiários e um time trabalhando pra trazer mais gente”, conta Rodrigues.

No Magalu, ainda não há previsão para um novo processo de trainee só para negros. A diretora fala que esse é momento de pegar os aprendizados do ano anterior e aplicar em outras frentes do desenvolvimento e recrutamento interno.

Ainda está cedo para dizer o rumo que a primeira leva de trainees de programas com critérios de diversidade terá dentro de Bayer e Magalu, afirmam os gestores de recursos humanos das duas empresas. Mas uma coisa é certa: a presença deles nos corredores das empresas é, por si só, uma vitória.

Conheça os novos trainees

Juliana Gomes, trainee da Bayer Juliana Gomes, trainee da Bayer

Juliana Gomes, trainee da Bayer (Reinaldo Canato/Bayer/Divulgação)

Juliana Gomes, 22 anos, trainee da Bayer

Em seu último semestre de Ciências Econômicas da PUC, Juliana Gomes conta que sua carreira até agora não foi muito tradicional. Ela foi jovem aprendiz em duas empresas diferentes, uma no ramo do agronegócio e outra na área de tecnologia da informação. “Eu estava pulando de galho em galho, estava buscando uma empresa com o mesmo propósito que o meu e que me desse oportunidades”. Na faculdade, ela chegou até a Bayer por já estar conectada com iniciativas e debates sobre inclusão de profissionais negros na universidade e no cursinho onde se voluntaria. "Conheci mais das iniciativas de inclusão deles durante uma excursão e me encontrei, sabia que precisar estagiar aqui”. E ela tentou duas vezes até entrar no estágio na Bayer em 2018. No final do programa, a oportunidade do programa de trainee mostrou para Juliana que ali ela poderia construir o resto da sua carreira.

Que conselho dá para outros jovens negros?

"Pode ser outro clichê, mas: acredite em você mesmo. Faz muita diferença. Por mais que esteja com medo, você precisa acreditar no seu potencial e acreditar que a posição é para você. Não tenha medo de arriscar. A chamada do programa dizia “tenha coragem de inspirar os outros”. Antes dos outros, a gente precisa inspirar a nós mesmos. É a mensagem que deixo. Foi algo essencial para mim, por mais que já fosse estagiária, eu tinha medo e muitas inseguranças. Acreditar em mim mesma e ter coragem para arriscar me ajudou em processos como esse e em outros âmbitos da vida", diz Juliana.

Luthuli Akanni Paixão, trainee do Magazine Luiza Luthuli Akanni Paixão, trainee do Magazine Luiza

Luthuli Akanni Paixão, trainee do Magazine Luiza (Arquivo pessoal/Divulgação)

Luthuli Akanni Paixão, 27 anos

Luthuli Akanni Paixão brinca que, apesar do nome ser de origem africana, ele é de Minas Gerais. Formado em engenharia elétrica, ele conta que passou por várias etapas na vida para chegar até aqui: sua mãe era professora e o pai, motorista; para buscar mais oportunidades de trabalho, eles saíram de Ituiutaba para Uberlândia. Lá, ele cresceu e fez ensino médio técnico. Depois, entrou na Universidade Federal de Uberlândia. “Eu não me via trabalhando com engenharia e me encontrei na empresa júnior. Me apaixonei por aquilo ao ter contato com os processos de gestão”. Depois de três anos de formado e de experiência no mercado, ele viu processos de trainee com desconfiança após uma experiência ruim. “Na última etapa do programa, vi que pessoas que não participaram das etapas anteriores sendo aprovadas. A sensação que ficou é que aquilo poderia ser normal. Quando vi o trainee do Magalu, estava dentro do período da minha graduação, não pedia língua e mostrou que queria me conhecer”.

Que conselho dá para outros jovens negros?

"Eu sempre aprendi que tinha que fazer a minha parte, mesmo que fosse difícil cumprir o que era minha responsabilidade. Trabalhar e estudar é difícil. Trabalhar a noite toda e depois ter que fazer uma prova então... As limitações vão acontecer, mas é muito importante que eu fizesse minha parte, de ser o melhor dentro daquilo que tenho. E saber aproveitar oportunidades, apesar de serem as mais simples. Eu sempre fui representante de sala, fiz parte da manifestação de estudantes contra o aumento de ônibus. Quem sou hoje foi pelas oportunidades que aproveitei. Perdi várias, mas fiz o melhor dentro do que tenho", diz.

Renata Cruz, trainee da Bayer Renata Cruz, trainee da Bayer

Renata Cruz, trainee da Bayer (Arquivo pessoal/Divulgação)

Renata Cruz, 25 anos, trainee da Bayer

A Renata gosta de marcar sua vida com um antes e depois. “A Renata antes do esporte e depois do esporte”, fala ela. Ela começou a jogar handebol com 10 anos, por estímulo da sua mãe, e a prática abriu várias portas em sua vida: ela pode estudar em uma escola particular com bolsa integral, depois entrar na faculdade com a bolsa de esporte e ainda teve a chance de jogar por um tempo na Espanha. “As coisas começaram a desandar ali. Eu acho que o que mais de representa são as minhas derrotas. Fui para a Espanha e não deu certo, até parei de jogar, meio sem querer, mas pelo menos aprendi a língua”. De volta ao Brasil para terminar seu curso e fazer estágio, Renata ficou incomodada ao perceber que ela e os poucos colegas negros do curso eram os únicos que não foram efetivados e estavam desempregados na turma. “Eu tentei vários processos de trainee. Ia até o final e reprovava. Quando vi o trainee do Magalu e da Bayer, sabia que era a chance que estava precisando”.

Que conselho dá para outros jovens negros?

"Não desista. Eu quero falar que, além do match com a empresa, eu tive um tanto de sorte também. O processo de trainee é difícil, eu fiz seleções com o mesmo teste de lógica e que passei em um e no outro não. Entenda o que você quer, o que você procura. Procure saber mais da empresa e checar se o que ela está oferecendo é o que você está procurando. Ouvi de pessoas aqui que tentaram por anos e só conseguiram agora. Tem hora pra tudo. Na hora que for a sua, vai dar certo. Corre atrás, estude muito e não desista", diz.

Marina Maia, trainee do Magazine Luiza Marina Maia, trainee do Magazine Luiza

Marina Maia, trainee do Magazine Luiza (Arquivo pessoal/Divulgação)

Marina Santos Maia, 30 anos, trainee do Magazine Luiza

Marina sempre pensou que seu destino era ser professora. Apesar de ser conhecida como a Marina de Aracaju (ou Maju, para os amigos), ela nasceu em Serrinha, na Bahia, e foi criada numa casa de professoras, profissão da mãe e das tias. Seu padrasto, mais tarde, iria dar uma referência do mercado de trabalho: ele era engenheiro na Vale. “Na época, a Vale pagava a escola pra gente. Eu sempre estudei em boas escolas, isso minha mãe fazia questão. Ela tinha feito uma poupança, caso eu não passasse em uma universidade pública, para minha faculdade”. Do destino pré-traçado, a Maju se tornou uma pessoa inquieta: quando entrou na faculdade privada de Direito, ela viu que não era pra ela, trancou o curso (“sem minha mãe saber”), encontrou um emprego para pagar o cursinho e em seis meses passou em Relações Internacionais na Universidade Federal de Sergipe. E quando viu que a vida de pesquisadora também não era a sua praia, ela buscou a empresa de tecnologia mais próxima para entrar com tudo no mercado. “Eu entrei na central de atendimento da Uber, não passei de primeira. Depois, fui para a James Delivery, virei líder de operações lá. Quando o Magalu abriu o programa, minha mãe mandou a vaga”.

Que conselho dá para outros jovens negros?

"Eu estou lendo a biografia da Michelle Obama e tem uma passagem emblemática. Ela fala que na sala de aula muitos homens brancos sempre estão falando, mas nem sempre falam coisas inteligentes, mas são incentivados a falar. Isso deu uma volta na minha cabeça. No livro, ela fala de paixão e cuidado amoroso. Se fosse dar um conselho, seria: não tenha medo de usar sua voz. Se acredita em algo e tem verdade naquilo, se não fere ninguém e pode mudar positivamente o seu entorno, então fale e faça. Só falar também não adianta, tem que falar a verdade, o que acredita, e agir. Quando mudei essa postura, comecei a vender meu peixe e normalizar não saber algo. Se alguém me ensinar, eu aprendo" diz.

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