Carreira

É a hora de mudar de carreira? Os sinais, os riscos e como planejar a transição

Em meio ao avanço dos transtornos mentais no trabalho, especialista explica quando a mudança profissional é um alerta e como fazer isso sem decisões impulsivas

Thaisa Ludwig, coach de carreira e liderança: “A gente passa a vida se qualificando tecnicamente, mas não aprende a lidar com insegurança, pressão, medo de errar ou de mudar” (Thaisa Ludwig/Divulgação)

Thaisa Ludwig, coach de carreira e liderança: “A gente passa a vida se qualificando tecnicamente, mas não aprende a lidar com insegurança, pressão, medo de errar ou de mudar” (Thaisa Ludwig/Divulgação)

Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 16h39.

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Chorar antes de sair de casa, sentir o corpo e a mente “desconectados” e carregar a sensação constante de que não rende mais no atual trabalho não é falta de resiliência — é um sinal de alerta, segundo Thaisa Ludwig, coach de carreira e liderança.

Depois de 16 anos trabalhando na mesma empresa, Ludwig viveu esse processo na prática, antes de se tornar couch. “Eu não atribuía meu esgotamento ao volume de trabalho, mas ao ambiente e à forma como tudo aquilo estava organizado. Eu já não me reconhecia mais ali”, afirma.

No final de 2024 Ludwig, que é formada em Farmácia, decidiu sair do trabalho após quase duas décadas, e recomeçar no mercado. Em 2025 a sua transição de carreira a levou a atuar como coach de liderança, o que exigiu ela aprender sobre saúde com um novo olhar.

“Por muito tempo, mudar de carreira foi visto como fracasso ou instabilidade. Hoje, o movimento ganhou outro significado. Com o avanço dos afastamentos por transtornos mentais, a mudança profissional passou a ser encarada como uma estratégia de sobrevivência — emocional e, em alguns casos, física”, afirma.

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Transição não é fuga — é estratégia

A mudança profissional nem sempre envolve abandonar completamente uma carreira. Em muitos casos, trata-se de um reposicionamento: mudança de função, de empresa, de setor ou até de país. Há também quem busque um novo ciclo após a aposentadoria ou opte por trabalhos operacionais no exterior em troca de mais qualidade de vida.

“O erro é achar que transição é jogar fora tudo o que foi construído. Na prática, muitas pessoas reaproveitam competências, experiências e repertórios, mas em contextos mais alinhados com quem são hoje”, diz Ludwig.

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Quando a vontade de mudar deixa de ser passageira

Nem toda insatisfação profissional indica que é hora de trocar de carreira. Mas, segundo especialistas, alguns sinais merecem atenção quando se tornam persistentes.

Entre os principais alertas estão:

  • a sensação recorrente de estar rendendo menos do que poderia;
  • perda de sentido no trabalho, mesmo com bom desempenho;
  • sintomas físicos e emocionais contínuos, como ansiedade, irritabilidade e insônia;
  • conflitos entre valores pessoais e a cultura da empresa;
  • desejo constante de abandonar a rotina profissional, não apenas de trocar de cargo.

“Muitas vezes a mudança não é mudar de carreira, às vezes pode ser a necessidade de mudar de empresa, cidade ou função”, diz Ludwig.

Não decida no auge do esgotamento e conheça seus valores  

Um erro comum é associar a transição de carreira a uma ruptura imediata.

“Muita gente quer sair no pico do cansaço, mas a transição exige planejamento. Nem sempre é possível ou saudável largar tudo de uma vez”, afirma.

Para a coach, o primeiro passo não é pedir demissão, mas ganhar clareza.

“Autoconhecimento vem antes de ação. Entender valores, perfil comportamental, limites e expectativas evita arrependimentos.”

Entre os valores que mais aparecem em processos de transição estão qualidade de vida, flexibilidade, reconhecimento, autonomia e alinhamento com propósito pessoal.

“Às vezes, a pessoa busca um cargo maior, mas não percebe que a rotina daquele cargo vai aprofundar o sofrimento. Em outros casos a pessoa valoriza muito a qualidade de vida, mas a empresa onde trabalha exige muito hora extra. Cada caso precisa ser avaliado de forma individual,” diz.

Soft skills: o que ninguém ensinou, mas todo mundo precisa

Grande parte do sofrimento no trabalho, segundo a especialista, não vem da falta de competência técnica, mas da ausência de preparo emocional.

“A gente passa a vida se qualificando tecnicamente, mas não aprende a lidar com insegurança, pressão, medo de errar ou de mudar”, afirma a coach.

Esse déficit ajuda a explicar por que temas como inteligência emocional, produtividade sustentável e saúde mental ganharam centralidade no mundo corporativo.

“Ser produtivo não pode significar entrar em colapso. Inteligência emocional é o que permite continuar entregando sem se perder no processo”, diz a coach.

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5 dicas para planejar uma transição de carreira com menos risco

  1. Diferencie cansaço de desalinhamento
    Nem todo desconforto exige mudança radical. “Observe se o incômodo é pontual ou estrutural - e se persiste mesmo após férias ou pausas”, diz a coach.
  2. Comece pelo autoconhecimento
    Antes de pensar no próximo cargo ou profissão, identifique valores, limites, interesses e perfil comportamental. “Isso evita trocar um problema por outro”, diz Ludwig.
  3. Faça um plano — mesmo que flexível
    Mapeie o que você já tem (experiência, rede, competências) e o que precisa desenvolver (formação, soft skills, reserva financeira). “Transição sem plano tende a aumentar a ansiedade”, afirma.
  4. Avalie se a mudança pode ser gradual
    Em muitos casos, Ludwig afirma que é possível testar o novo caminho em paralelo ao trabalho atual, até ganhar segurança emocional e financeira.
  5. Prepare o emocional, não só o currículo
    Medo, insegurança e julgamento externo fazem parte do processo. “Desenvolver inteligência emocional é tão importante quanto adquirir novas habilidades técnicas”, diz Ludwig.

No cenário global, a Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão provoquem a perda de cerca de 12 bilhões de dias úteis por ano, gerando um impacto econômico de aproximadamente US$ 1 trilhão. No Brasil, os números também chamam atenção: só em 2024, o INSS concedeu cerca de 470 mil licenças médicas por transtornos mentais — o maior volume registrado na última década.

O custo do adoecimento, que por muito tempo ficou invisível, passou a pesar diretamente no bolso das empresas. Um estudo da Robert Half mostrou um avanço expressivo no uso de medicamentos para lidar com estresse, ansiedade e burnout no trabalho. Entre líderes, o consumo de fármacos saltou de 18% em 2024 para 52% em 2025. Entre os profissionais liderados, o índice subiu de 21% para 59% no mesmo período.

Para melhorar esse cenário, a partir de maio deste ano passará a valer a nova NR-1, do Ministério do Trabalho e Emprego, que exigirá das empresas a avaliação dos chamados riscos psicossociais na gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST).

“Transição de carreira não é jogar fora tudo o que foi construído. É reposicionar a própria história em um contexto que faça sentido hoje”, diz a especialista.

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