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Vozes: perder não é ser menor na vida

Associar automaticamente autoconfiança com competência promove piores líderes — e isso tem tudo a ver com igualdade de gênero

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Mostrar-se vulnerável é uma habilidade que deveria ser buscada em líderes (foto/Thinkstock)

Mostrar-se vulnerável é uma habilidade que deveria ser buscada em líderes (foto/Thinkstock)

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Por Fernanda Wolski*

Publicado em 6 de setembro de 2022 às, 14h14.

Última atualização em 6 de setembro de 2022 às, 14h20.

Falar sobre vencer é falar sobre características associadas e estimuladas em homens. Competitividade, assertividade, frieza e, especialmente, autoconfiança. Observamos subirem aos cargos de liderança aqueles que parecem saber, ao invés daqueles que demonstram saber. Nessa cultura, mulheres despendem grande esforço para transpor o estímulo contraditório que desincentiva nelas a autoafirmação, mas utiliza a autoconfiança como viés de confirmação da competência em ambientes de poder.

Até então, nada de muito novo para quem entende o conceito de construção dos papéis de gênero nas teorias feministas. O ponto é que ao invés de mandar mulheres para cursos de liderança assertiva, devemos fazer os homens aprenderem sobre humildade e coerência. Em seu livro The Authority Gap, Mary Ann Sieghart, dedica um capítulo especialmente intrigante para o assunto e conclui: “Devemos parar de confundir confiança com competência. São duas coisas totalmente diferentes”.

Nessa toada, ela cita o livro de Tomas Chamurro-Premuzic, Why do so many incompetent men become leaders? ("Por que tantos homens incompetentes se tornam líderes?"). Na opinião dele, pior do que as barreiras invisíveis que mulheres competentes enfrentam para serem consideradas boas lideranças é o fato de que impomos poucas barreiras para homens inaptos assumirem espaços de poder. Ao igualarmos automaticamente boa liderança com fatores de personalidade masculinas, estamos promovendo lideranças desqualificadas.

Diversos estudos mostram que desde a infância, pais e professores tratam meninos e meninas de maneira diferente. Pais e mães tendem a ser mais protetores com suas filhas e incentivar o lado aventureiro dos filhos. Assim, homens relacionam-se ainda cedo por atividades que estimulam a competitividade (“eu consigo correr mais rápido”; “o carro do meu pai é maior que o seu”).

Em contrapartida, meninas são constantemente ensinadas a serem mais modestas, criando laços através de atitudes autodepreciativas (“Meu cabelo está horrível”; “Eu sou péssima em matemática”). Enquanto a socialização feminina envolve demonstrar vulnerabilidade umas às outras, a criação masculina demanda provação contínua.

Esse modus operandi é levado para a vida adulta, quando, muitas vezes, homens e mulheres seguem reproduzindo esse viés cognitivo. O problema é que pessoas de baixo desempenho não adquirem a habilidade de distinguir entre bom e mau desempenho e tendem a sobrestimar-se porque não veem a diferença entre seus desempenhos e os de outras pessoas — é o efeito Dunning-Kruger.

Impossível não lembrar da recente pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Ideia, em que metade dos homens consultados se consideram bonitos e apenas 3% se acham feios. Além disso, quase 30% se consideravam mais inteligentes do que a média das pessoas. Aparentemente, esses quase 63 milhões de brasileiros que se idolatram não têm problema de autoestima, mas o estudo também revela que a maioria dos consultados estão endividados e infelizes nas respectivas carreiras profissionais.

São quase 60% os que afirmam estar profissionalmente abaixo da expectativa profissional, 83% sofreram algum tipo de estresse, 74% de ansiedade, 34% de depressão e 26% de pânico. Aparentemente, ser criado para vencer tampouco está dando certo para os homens. É claro que, nas próximas gerações, temos de encorajar meninas a valorizar suas habilidades e premiar suas ambições e conquistas. Os meninos devem ser ensinados a ter uma compreensão realista de si mesmos.

Porém, devemos também valorizar todo o espectro de comportamento: escutar quem contribui silenciosamente, tanto quanto os que bradam nas reuniões. Só porque alguém fala alto, não quer dizer que ele sabe o que está falando. Só porque alguém tem mais facilidade em pedir aumento de salário, não quer dizer que ele merece mais do que aquele que não pede.

Mostrar-se vulnerável é uma habilidade que deveria ser buscada em líderes. Ela cria ambientes onde há confiança mútua, onde é permitido arriscar e, possivelmente, errar. Quando mulheres competentes são injustamente subestimadas, todos sofremos as consequências. O resultado é um sistema que premia a arrogância e escuta gritos no lugar de sabedoria.

*Fernanda Wolski é diretora de Articulação Política da Elas no Poder

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