ESG: entenda e aja de acordo, ou ficará pelo caminho

O mundo não vai suportar se seguirmos produzindo da forma como fazemos hoje, e o futuro das empresas depende de como vão responder a essa emergência

Por Guilherme Cavalcanti*

Tornou-se inescapável. Ao nosso redor, em todos os debates, reportagens e análises, a sigla ESG (Environment, Social and Governance) virou dominante. Nós, profissionais do setor financeiro, estamos sentindo na pele esse forte e, a meu ver, positivo impacto desses critérios de análise de sustentabilidade em nossas rotinas. Tanto do ponto de vista empresarial como do mercado financeiro, ESG agora é um dos pontos centrais das decisões de investimento, realocação de capitais, precificação de títulos e muito mais. Não podemos tratar essa questão de maneira leviana nem cometer o equívoco de achar que é passageira. É preciso se aprofundar nas implicações desse movimento ou existe o risco de ficar pelo caminho, tanto como profissionais, quanto como empresas. Pior, o planeta não vai suportar se não agirmos com responsabilidade neste momento.

Para ter uma ideia do peso crescente da sustentabilidade no mundo financeiro, segundo dados da Global Sustainable Investment Alliance, os investimentos calcados na sustentabilidade já representam mais de US$ 31 trilhões, o que equivale a 36% de todos os ativos sob gestão no mundo. O Bank of America estima que, só no primeiro trimestre de 2021, o mercado de títulos verdes alcançou um recorde de US$ 235 bilhões. Ao longo deste ano, a projeção é de que os green bonds somem US$ 1,2 trilhão em termos globais, conforme projeção do banco sueco Skandinaviska Enskilda Banken. O Brasil tem uma posição relevante nesse cenário, tendo emitido 79% de tudo que foi captado na América Latina no primeiro trimestre em Green Bonds e Sustainability-Linked Bonds (SLB).

A concessão de crédito das instituições financeiras brasileiras também segue a mesma linha. Um quinto da carteira de crédito dos bancos foi destinado para financiar o desenvolvimento de uma economia de baixo carbono. Esse tema, por sinal, é justamente o que mais temos discutido aqui na JBS: a urgência da transição para uma economia neutra em carbono até 2050, ou seja, aquela em que não se emite mais dióxido de carbono do que remova da atmosfera. Como diz o CEO Global da JBS, Gilberto Tomazoni, esse é talvez um dos maiores desafios da humanidade e enfrentá-lo não é apenas a coisa certa a se fazer, mas também nossa única opção enquanto sociedade. O mundo não vai suportar se seguirmos produzindo da forma como fazemos hoje. Temos de tomar as medidas necessárias para realizar essa transição.

Do ponto de vista financeiro, a emergência climática tornou-se também um dos principais riscos de investimento. Cada vez mais, a análise sob critérios ESG vai focar essa questão climática. E como o mercado de capitais projeta riscos futuros, a alocação de recursos deve se modificar em uma velocidade muito maior que as temperaturas do planeta. Quem não entender isso e achar que 2050 está longe pode ficar pelo caminho. Empresas sem metas muito claras de curto, médio e longo prazos na busca pela sustentabilidade enfrentarão o desinvestimento e verão sua competitividade diluir, além de afugentar seus consumidores.

Ao longo da minha carreira, vivenciei cenários de volatilidade, mudanças sociais e, consequentemente, na forma de investir. Mas a que estamos vivendo redesenha o cenário como um todo. É um caminho sem volta, porque, sem essa alteração de paradigma, o aquecimento global se tornará também um caminho sem volta. É preciso trabalhar para garantir o alinhamento dos negócios aos pilares ESG, com atenção especial à transição para uma economia de baixo carbono.

É o que estamos fazendo aqui na JBS. A etapa mais audaciosa e urgente de nosso engajamento histórico com a sustentabilidade se deu no último mês de março, quando assumimos o compromisso global de nos tornarmos Net Zero até 2040, ou seja, de zerarmos o balanço líquido de emissões de gases causadores do efeito estufa, reduzindo nossas emissões diretas e indiretas e compensando toda a emissão residual.

Trata-se de uma decisão que envolve os CEOs da JBS em todos os cantos do planeta e que exige o envolvimento da área financeira também. A companhia investirá US$ 1 bilhão até 2030 para avançar nesse compromisso. Vamos atrelar os bônus dos altos executivos às metas Net Zero. E cada decisão estratégica de negócio que tomamos agora se pauta por esse compromisso.

Recentemente, realizamos a primeira emissão de Sustainability-Linked Bonds do setor de proteína animal no Brasil. A oferta foi muito bem recebida pelo mercado e resultou em uma captação de US$1 bilhão, um resultado que superou as expectativas. Mais do que isso, comprovou a confiança dos investidores no compromisso Net Zero 2040 da JBS, já que os títulos ofertados estão atrelados ao compromisso de redução das emissões.

Por tudo isso, insisto em que temos de compreender a importância e a urgência do que estamos vivendo. Temos de garantir que nossos relatórios e planilhas respondam aos critérios ESG, mas, principalmente, devemos entender o que tudo isso representa na prática. Será nossa capacidade de responder a essa crise climática que vai definir o futuro dos negócios e do nosso modo de vida.

*Guilherme Cavalcanti é CFO Global da JBS

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