CPI da Pandemia e sua primeira disputa: mais Brasília ou mais Brasil

Um grupo quer mexer a coisa em Brasília, outro quer espalhar a coisa pelo país trazendo governadores para o palco da comissão

Os requerimentos apresentados numa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) são os primeiros indícios oficiais de por onde a investigação caminhará ou onde a apuração quer chegar — se as forças internas permitirem ao trabalho parlamentar chegar a algum lugar. A CPI da Pandemia já tem mais de 300 ofícios dos senadores requerendo informações, documentos e depoimentos. 

Esses pedidos permitirão formar a base documental para construir o relatório para eventuais responsabilidades. Lembrando que nesta quinta-feira o país registrou oficialmente mais 400.000 vítimas da pandemia. Um país com menos de 2,8% da população mundial ser detentor até agora de mais de 13% das mortes mundiais é realmente algo que merece estudos e análise, até para não se repetir a tragédia no futuro. Mas a CPI não tem função didática. É política.

E é por isso que todos os pedidos da oposição apontam para uma mesma direção: o governo do presidente Jair Bolsonaro. Convocam seus ministros, solicitam oficialmente vídeos ao Facebook, pedem documentos da Anvisa e do Ministério da Saúde, notas fiscais, contratos, relatórios de órgãos de fiscalização, além de tudo relacionados à pandemia no Amazonas, até agora o maior descalabro desde a chegada da variante mais letal do coronavírus em terras tupiniquins, a cepa P1 do Sars-CoV-2. 

Os aliados do Palácio do Planalto centram fogo em convocar governadores, buscam notas fiscais de compras para enfrentar a pandemia com o dinheiro federal enviado pelo Tesouro Nacional aos estados, pedem testemunhos de secretários estaduais e da subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, classificada como aliada do governo Bolsonaro. 

É a tática de misturar para confundir, ou do abraço do afogado. Quem estava imaginando assistir de camarote e batendo um sambinha na caixa de fósforos pode acabar sob o holofote, mesmo que não tivesse intenção de pegar fogo junto com o circo. É o gasto refrão do começo conhecido, mas final de suspense, que nem Ulysses Guimarães aguenta mais.

Ou seja, um grupo quer mexer a coisa em Brasília, onde governa Jair Bolsonaro. Outro quer espalhar a coisa pelo país, trazendo governadores como João Doria (SP), Helder Barbalho (PA), ex-secretários estaduais do Amazonas, Distrito Federal e Ceará. Volta-se à frase de campanha: mais Brasil, menos Brasília. Com o sinal podendo ser invertido, dependendo da posição política em relação ao governo e de qual alvo está mirando o integrante da comissão.

É fogo cruzado, com as tropas já acomodadas nas trincheiras por pelo menos 90 dias. De um lado e de outro. As duras discussões das sessões iniciais da CPI já apontam o clima pesado que está por vir. E as convocações atraem para a cena de guerra até o Ooder Judiciário, com convite para o decano do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio de Mello. Claro, há tiros de festim e de aviso. Muita gente apontando para o alto. É do rito político. E quem dança de um lado, hoje, pode sambar do outro amanhã… Tudo a seu tempo.

No entanto, sob o papelório de requerimentos não há solidariedade às vítimas. Há disputa pelo poder. Em estado bruto. São profissionais que exercem esse jogo, com conhecimento do terreno em que pisam… E que desejam ocupar. Há a disputa pelo castelo maior, o Palácio do Planalto. Atingir Bolsonaro é objetivo de uma maioria de integrantes da CPI. E não há muita dissimulação nisso.

Mas há também briga pela hegemonia no próprio Senado, casa onde Bolsonaro colheu duas vitórias ao apoiar nomes que controlam a Casa durante seu governo. Em 2019, o eleito para a presidência do Senado foi Davi Alcolumbre (DEM-AP). Ele manteve-se fiel ao governo, apesar de não ter enfrentado uma crise como a atual. E fez seu sucessor, o mineiro Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que segurou a CPI sob críticas e ataques oposicionistas até que o Supremo Tribunal Federal determinasse a instalação.

Acontece que esses dois venceram o MDB, de Renan Calheiros (AL) e Eduardo Braga (AM). Sequer o partido do movimento conseguiu se unir para lançar um candidato nas duas disputas, isso depois de controlar a casa desde a década de 1990, com José Sarney (MA) e o próprio Renan Calheiros dando as cartas no Senado. Foram varridos para os cantos do Congresso nos primeiros anos de Bolsonaro.

Política é virtude, e fortuna. Renan Calheiros teve a sorte de se fazer relator, num momento em que pode ajudar o projeto eleitoral de 2022 do qual parece se aproximar, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Será preciso que o governo de Bolsonaro tenha virtudes suficientes para evitar que esse movimento tenha sucesso. É esse jogo maquiavélico que assistiremos nos próximos meses.

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