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Quando subiu a rampa do Planalto ao lado de um grupo que foi do menino Francisco de Itaquera ao cacique Raoni, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu, como diz o vocabulário das redes sociais, "quebrar a internet". Foram 1,7 milhão de menções diretas ao presidente no Twitter em 1º de janeiro e, no Instagram, só os seis maiores posts do perfil oficial de Lula sobre a posse somaram quase 14 milhões de interações.

De lá para cá, o terceiro governo Lula completa 100 dias nesta segunda-feira, 10 de abril, com aqueles primeiros momentos do mandato sendo ainda seu grande destaque nas redes sociais. Levantamento feito a pedido da EXAME pela consultoria de análise de redes sociais Bites mostra que, passados os picos iniciais, Lula vai bem nas redes ao explorar sua imagem pessoal e encontros internacionais. Ao mesmo tempo, tem alguma dificuldade de pautar o debate em torno de políticas do governo — e vive com a onipresença digital do ex-presidente Jair Bolsonaro, cujos posts frequentemente rivalizam com os dos perfis oficiais de Lula.

Ao todo, Lula teve mais de 28 milhões de menções no Twitter desde que assumiu o cargo, mostram os dados da Bites, embora nunca mais tenha chegado ao estardalhaço da posse e dos ataques a Brasília em 8 de janeiro, outro pico de repercussão do presidente. Na média, se excluídos os primeiros dias, o presidente tem pouco menos de 250 mil menções diárias no Twitter entre 10 de janeiro e 6 de abril.

Diplomacia é destaque de Lula nas redes

É natural que a posse seja o grande destaque do período inicial do governo, assim como a repercussão positiva pela resposta aos ataques de 8 de janeiro, afirma André Eler, diretor adjunto da Bites. "Foram dois momentos em que o governo se saiu bem nas redes", diz. Tende a ser difícil "repetir o clima positivo dos primeiros dias".

"Lula conseguiu ali se fortalecer com uma imagem de união, de reconstrução, e com isso teve também uma cobertura positiva e grande apoio nas redes", diz Eler.

A combinação entre a posse e o 8 de janeiro deu impulso inicial a um presidente que só havia governado em um tempo em que as métricas da internet eram muito menos importantes, e que, durante a campanha, muitas vezes perdia na disputa online com as pautas do então governo Bolsonaro.

Fora isso, a repercussão de Lula no dia a dia tem seus melhores momentos quando explora a imagem do presidente e os encontros com líderes internacionais, mostram os dados da Bites:

  • Nos posts com maior engajamento de Lula, que estão concentrados no Instagram, há momentos como o encontro com o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, (935 mil interações, entre curtidas e comentários) e com o presidente americano, Joe Biden, (913 mil interações) além de outros líderes;
  • O encontro com Chris Martin, vocalista da banda Coldplay que fazia turnê pelo Brasil, foi outro momento que teve auge de repercussão (1,3 milhão de interações);
  • O uso da imagem pessoal do presidente e da família, como uma foto com os pets Resistência e Paris em virtude do Dia dos Animais (1,3 milhão), também estão entre as campeãs de interações;
  • A resposta à situação humanitária dos Yanomami em Roraima também gerou atenção para o governo (912 mil interações em uma das postagens).

Nesse quesito, Eler avalia que a viagem à China, que acontece logo após o aniversário de 100 dias do governo, em 11 de abril, tende a ser outra oportunidade de bom resultado nos perfis oficiais.

"Lula provavelmente vai ter uma chance boa de aumentar esses destaques na viagem para a China. É justamente nesses momentos em que ele consegue repercussões mais positivas, um pouco também na comparação com Bolsonaro, que tinha um pouco de dificuldade nesse cenário externo", diz.

Apesar do sucesso imagético das viagens internacionais, no top10 de engajamento de Lula, os únicos posts de outros assuntos que não a posse e o 8 de janeiro são a imagem no velório de Pelé (2,1 milhões), a foto oficial do terceiro mandato (1,7 milhão de interações no Instagram - veja abaixo) e um vídeo do presidente retomando uma escultura de Jesus Cristo que ficava em seu gabinete (1,5 milhão).

Programas do governo engajam menos

O principal problema, para o governo, é que pouco figuram nessa lista os programas tocados pelo Planalto — um reflexo de um mandato que ainda começa a engrenar, situação que o próprio Lula reconheceu ao pedir ao gabinete que divulguem melhor as medidas e pensem em novos projetos. "Na próxima segunda-feira, ao fazer avaliação dos cem dias, vamos ter que anunciar o que a gente vai fazer para frente, porque os 100 dias vão fazer parte do passado", disse Lula em uma reunião com ministros no início de abril.

Há barulho nas redes para ações do governo em resposta a crises emergenciais, como o caso dos indígenas ou a visita de Lula a regiões afetadas por chuvas, mas não para temas que o próprio governo pautou.

Dentre os posts com maior engajamento de Lula nas redes nos primeiros 100 dias, o único que se tratava de um projeto do governo foi a publicação sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), aponta a Bites. O PAA, criado em 2003, foi relançado no fim de março. "Recriamos o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mais um compromisso que havia assumido com o povo brasileiro. É a garantia de comida de qualidade na mesa de todas e todos e do fortalecimento da agricultura familiar", diz o post no perfil de Lula na ocasião, que teve 920 mil interações.

Já o post de Lula com mais engajamento a citar o Bolsa Família, por exemplo, tem menos de 400 mil interações no Instagram — um número importante, mas perdendo na corrida para Biden, Mujica, Coldplay e a cachorrinha Resistência. O governo oficializou em março novo formato do programa em R$ 600 e adicional de R$ 150 por criança, uma promessa de campanha.

Publicações sobre o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida ficaram em patamar parecido: a mais popular tem perto de 520 mil interações no Instagram, um vídeo em que Lula entrega a chave a uma moradora em Santo Amaro, na Bahia. "Moradia é direito fundamental. Com esse propósito, o Minha Casa Minha Vida voltou", diz o texto na postagem.

Citação a Moro gerou críticas, e Bolsonaro ainda é "sombra"

Um destaque negativo foram as falas de Lula sobre Sergio Moro quando foi descoberta uma suspeita de que a organização criminosa PCC estaria planejando um ataque contra o senador e ex-juiz. Foi exemplo de um momento em que, embora com muitas menções no Twitter e fazendo a atenção à Lula disparar, as falas foram "muito atacadas pela imprensa e por adversários", aponta a Bites. "Foi a semana em que o tom negativo mais superou o tom de defesa do governo", diz Eler.

Além disso, o governo, embora hoje com a máquina na mão, ainda vive com a presença digital ampla do ex-presidente Jair Bolsonaro, que por vezes rivaliza com Lula em atenção nas redes.

Se contabilizados os perfis de Lula e Bolsonaro no Instagram, Facebook e Twitter até 6 de abril, o post com mais engajamento nos quase 100 dias de governo veio não de Lula, mas de Bolsonaro.

Uma postagem em que o ex-presidente diz que foi submetido a "cinco cirurgias" em virtude da facada sofrida em Juiz de Fora (MG) teve sozinha quase 3,7 milhões de interações, enquanto a postagem individual mais popular de Lula, recebendo a faixa, gerou pouco mais de 3,4 milhões.

Em "Tração", um indicador criado pela Bites que compara a capacidade de atores "moverem as redes" com seus posts em perfis oficiais, Bolsonaro e Lula disputam praticamente de igual para igual nesses primeiros 100 dias, com vitórias ora para um, ora para outro.

Lula também tem, até hoje, menos seguidores do que Bolsonaro: são quase 13 milhões no Instagram, contra pouco mais de 25 milhões de Bolsonaro; no Twitter, Lula tem 7,5 milhões, contra pouco mais de 11 milhões de Bolsonaro.

Nas redes, Bolsonaro tem feito posts sobretudo relembrando programas e números de seu antigo mandato. Agora de volta ao Brasil, a expectativa de aliados é que o ex-mandatário faça uma caravana pelo país, ao passo que terá desafios para organizar um grupo político estando fora do governo, afirmam analistas.

Lula (PT) e Bolsonaro (PL) no debate da Band 16/10

Bolsonaro e Lula em debate no ano passado: ex-presidente tem número alto de seguidores e espera usar presença digital para fazer oposição ao governo

O levantamento sobre as métricas de Lula não inclui perfis de ministros e citações a medidas do governo que não mencionem o presidente diretamente, mas, na análise de redes sociais, a figura individual do presidente costuma ser uma boa forma de medir como o mandato tem pautado o debate.

Em outra frente, como a EXAME mostrou na semana passada, o anúncio do arcabouço fiscal no dia 30 de março conseguiu ofuscar, no Twitter, a volta de Bolsonaro ao país na mesma manhã, uma vitória para o governo, ainda que protagonizada pelo ministro Fernando Haddad. É um reflexo de como a mera agenda institucional do governo no poder tem capacidade de propor discussões online, mesmo no caso de um assunto técnico como o arcabouço.

Mas o governo precisará de mais vitórias digitais desse tipo, o que tem sido difícil de conseguir, diz Eler.

"Lula tem uma dificuldade de controlar a pauta. Isso dá para ver, por exemplo, quando Bolsonaro posta e ainda faz um sucesso muito grande. Há uma dificuldade forte de Lula em acabar com Bolsonaro, tirar Bolsonaro do mapa. O ex-presidente se mantém ali como uma sombra, mesmo estando a maior parte desse tempo fora do Brasil", explica o diretor da Bites.

    Quando Lula deixou a Presidência em 2010, redes sociais eram muito menos importantes. Nomes como Barack Obama nos EUA somente ensaiavam um início do que viria a ser a era de atualizações de governo via Twitter, hoje quase mandatórias em todo o mundo. Lula, que não publica sozinho em suas redes (os perfis ficam com a primeira-dama Janja, o fotógrafo Ricardo Stuckert e o ministro Paulo Pimenta), tem tido de aprender a governar nesse novo universo e usá-lo a favor do mandato.

    Ainda assim, os últimos meses também mostram que ter a máquina do Estado na mão é uma outra história. Por anos, um dos principais debates na estratégia digital do círculo próximo a Lula e de campos progressistas como um todo era o desafio de pautar o debate tendo uma bem organizada direita liderada por Bolsonaro do outro lado. Esse desafio continua, mas, na posição de governo, Lula terá uma capacidade muito maior de levar pautas para o topo do "trending topics", como alguns dos posts bem-sucedidos já deixam claro.

    Caberá ao governo encontrar mais estratégias para isso — sobretudo quando precisar ir além do ar de novidade do qual usufruiu nesses primeiros 100 dias.

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