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Os sinais trocados do governo nas últimas duas semanas, especialmente em anúncios de novos programas, como a redução da taxa de juros do consignado para aposentados e um projeto para passagens aéreas a R$ 200, levantaram dúvidas sobre a organização interna do Executivo. Afinal, que governo é esse?

Aos 80 dias, a gestão do petista busca entregar projetos – e acusa o governo anterior de não deixar um “backlog” de propostas viáveis. A preocupação se espraiou pela Esplanada, levando a movimentos descoordenados. A bronca pública do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi uma tentativa de repactuação dessa organização interna.

Em conversas com membros do governo, de diversos ministérios, alguns pontos ficam claros:

  • O PT não é o governo

Uma coisa é importante: mercado e analistas políticos terão de se acostumar com embates públicos entre integrantes do governo. Essas disputas fazem parte da natureza do PT. “Isso é o PT, é normal. PT é uma coisa, o governo, outra coisa”, diz um membro do governo a EXAME.

Esse entendimento será extremamente valioso para selecionar o que importa para a agenda econômica. Nesse raciocínio, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, atua de maneira partidária – e seguirá mobilizando as bases do partido. O objetivo é manter o engajamento entre os filiados. O fato de ela não estar entre os ministros da Esplanada é simbólico. Embora tenha acesso a Lula, não formula programas. Exerce mais um ponto de pressão dentro do governo, bem como o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

Some-se a isso o fato de que, dentro do PT, credita-se em alguma medida a Hoffmann o mérito de manter o partido unido desde 2016, nos piores momentos vividos pela sigla.

Essas fontes avaliam que vale prestar atenção ao entrosamento entre Casa Civil e os ministérios da Fazenda, Planejamento e Gestão. Nesse grupo, dizem, não há estresse. “Nenhuma dessas manifestações [de integrantes do PT] atrapalharam a manufatura do arcabouço fiscal. Quem estava envolvido, continuou fazendo isso do mesmo jeito, independentemente de um tuíte aqui e acolá”, diz um técnico envolvido na confecção das regras.

Assim, espere-se mais investidas ao Banco Central. No seio petista, o presidente da entidade é visto como um emissário do bolsonarismo e cuja política monetária simplesmente desmonta a capacidade de crescimento do país. Essas críticas virão também do presidente, que precisa acenar ao partido – e criticar Campos Neto é a saída mais fácil para essa sinalização.

  • Foco no novo arcabouço fiscal - e a bronca pública

Talvez o fato que mais tenha incomodado o presidente Lula, segundo interlocutores, foi o anúncio de novos programas – ainda incompletos – no momento em que o governo se prepara para anunciar o novo arcabouço fiscal. Nas palavras de um integrante do Palácio do Planalto, os anúncios, que ainda não haviam sido escrutinados pela Casa Civil, “atravessaram o samba”.

A leitura é de que, sem o arcabouço fiscal, não é possível governar. E propostas como as recentes, em matéria econômica, geram ruídos com o Congresso e com o mercado. Fontes alegam que a estratégia do presidente é conversar com todas as áreas envolvidas e alinhavar para chegar a um texto final que tenha apoio coeso. Com a proposta gestada, Lula enviou Haddad para conversar com os presidentes da Câmara e do Senado.

Já na manhã desta terça-feira, 21, em entrevista ao site Brasil 247, Lula adiou a apresentação do novo marco fiscal. Segundo ele, a projeto está “maduro”, mas não há condições de apresentá-lo e viajar para a visita oficial à China, no final da semana. Para bom entendedor, sinal de que a interlocução com o Congresso ainda precisa de ajustes.

Para os integrantes da Esplanada, o grande desafio será no parlamento – e a atenção deveria ser colocada nessa etapa do processo. Em algum momento, o texto gestado por Haddad e trabalhado na Presidência da República será uma proposta no Congresso. Então virão os ruídos. Eles avaliam também que os parlamentares podem ter de olhar para o novo arcabouço em conjunto com a reforma tributária, dividindo a articulação entre duas frentes custosas politicamente.

  • Qual o modus operandi?

Para um membro do Palácio do Planalto, a fala de Lula sintetiza a necessidade de fazer os projetos passarem pela Casa Civil antes de divulgação. No entanto, a pressa para entregar resultado -- desleal, pois está tudo desmontado, em sua opinião -- complica a articulação.

Alguns ministros, no afã de mostrar serviço, acabaram atropelando procedimentos técnicos, como estudos de viabilidade. Tome-se como exemplo uma obra parada. Se precisar de relicitação, por exemplo, o edital não ficaria pronto antes do segundo semestre. Nessa visão, os ministros acabam se "empolgando" e buscando protagonismo, algo que integrantes do governo tentam classificar como comum.

“É um governo em construção”, diz um integrante de um ministério da área econômica. Ainda falta entrosamento, e a definição de um modus operandi claro.

Nos últimos 45 dias o governo intensificou anúncios de medidas -- especialmente promessas de campanha. Foram divulgados: o aumento do salário mínimo em maio, reajuste de bolsas da Capes e dos servidores federais, o primeiro pagamento do novo bolsa família (turbinado), a retomada do Minha Casa Minha Vida, entre outros.

Nas próximas semanas, a gestão Lula corre para promover novos programas, como o "Água para Todos" e um plano de investimentos na área de infraestrutura, entre outros. Segundo um técnico do Planalto, o governo terá um portfólio de "entregas diversificadas que poderão ser visibilizadas" nos 100 dias.

Apesar de membros da tecnocracia federal minimizarem os ruídos gerados nas últimas semanas, o tempo urge. Em 20 dias, o governo será manchete de todos os jornais, que destrincharão as entregas feitas nos 100 primeiros dias. Uma coisa é certa: antes de enfrentar o enorme desafio de composição no Congresso, o governo precisa se organizar internamente e agir em bloco.

A pressão não diminuirá.

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