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Na volta ao Brasil, Bolsonaro terá que organizar um grupo político, algo que nunca fez, diz analista

Bolsonaro volta ao Brasil com capacidade de se colocar como figura da oposição, mas efeitos práticos ainda são uma incógnita

Bolsonaro em debate no ano passado: retorno ao Brasil após três meses (Globo/ João Miguel Júnior/Divulgação)

Bolsonaro em debate no ano passado: retorno ao Brasil após três meses (Globo/ João Miguel Júnior/Divulgação)

Carolina Riveira
Carolina Riveira

Repórter de Economia e Mundo

Publicado em 29 de março de 2023 às 21h29.

Última atualização em 29 de março de 2023 às 21h29.

Após três meses nos Estados Unidos desde que perdeu a eleição presidencial, o ex-presidente Jair Bolsonaro tem volta prevista ao Brasil para as primeiras horas desta quinta-feira, 30. O retorno do ex-mandatário será observado com atenção pela capacidade de reorganizar parte da oposição ao atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, nas ruas e no Congresso.

Apesar disso, sair do plano das ideias e se materializar como voz ativa de liderança exigirá de Bolsonaro uma capacidade de articulação política ampla, diz o cientista político Creomar de Souza, fundador da consultoria política Dharma Politics, em Brasília.

O desafio, para Bolsonaro, será fazer isso agora sem a máquina do governo, algo que não é trivial para a oposição no Brasil historicamente. "E é uma articulação que Bolsonaro nunca fez até então", diz Souza, que analisou em entrevista à EXAME os principais aspectos que podem alterar o jogo político com o retorno do ex-presidente. Veja os destaques da entrevista abaixo.

Volta de Bolsonaro deve ser simbólica, mas e depois?

Bolsonaro, de largada, precisará aglutinar um grupo heterogêneo de apoiadores no mundo político e nos eleitores mais fiéis (nas ruas e redes sociais), muitos dos quais podem ter ficado decepcionados com sua ausência nos últimos meses, diz Souza. Ao anunciar sua volta ao Brasil em entrevista à Jovem Pan, Bolsonaro disse que discutirá "estratégia" com o Partido Liberal (PL) do presidente Valdemar da Costa Neto, ao qual está atualmente filiado.

"O que o Valdemar da Costa Neto pretende fazer é colocar Bolsonaro numa espécie de púlpito, como única alternativa possível no mundo à existência de Lula. Possivelmente, veremos amanhã um esforço de transformar a chegada em uma simbologia, de alguém que perdeu a eleição mas está celebrando algum tipo de vitória", diz Souza.

"Isso deve reacender, pelo menos em cerca de 20% do Congresso Nacional, aqueles que apoiaram os que estiveram no 8 de janeiro, algum movimento no sentido de que 'dá para fazer barulho', para criar constrangimentos que compliquem a vida do governo Lula. Bolsonaro, simbolicamente, espera ter o dia de amanhã como um marcador desse novo momento da oposição", diz.

A dúvida é como esse grupo deve se organizar a partir desse ponto, diz o analista. "O dia 2 é sempre mais difícil", afirma. "E envolverá Bolsonaro fazer o que nunca fez, que é organizar um grupo político. Ele se utilizou da presidência para fazer política, mas nunca foi um político de organizar grupos. Um dado empírico disso é a incapacidade de construir um partido [quando tentou fundar o Aliança Pelo Brasil], mesmo com todos os recursos na mão."

Disputa de atenção com Lula

Um dos ganhos imediatos da oposição com uma volta de Bolsonaro é a capacidade de disputar a atenção com o governo Lula, que hoje tem monopolizado o debate — como é tradicional para o presidente no poder. Bolsonaro tem a vantagem de ter conseguido, quando estava no mandato, resultados expressivos no debate em redes sociais, por exemplo.

Nos bastidores, sabe-se que um dos objetivos na escolha da data para a volta de Bolsonaro era chegar ao Brasil enquanto Lula estivesse fora, em visita à China. A viagem foi cancelada em virtude de um quadro de pneumonia do presidente.

Agora na oposição, não está claro que Bolsonaro conseguirá pautar o debate público na mesma dimensão de antes. "A oposição sempre tem dificuldade de ocupar os espaços no Brasil", diz Souza. "E ainda não sabemos o quanto haverá uma tolerância para falas que Bolsonaro fazia no contexto em que era presidente, se haverá tolerância para isso agora."

"Construir uma oposição no Brasil é muito complicado, você não tem os recursos do poder, não tem a posse da máquina", diz.

Uma alternativa, diz Souza, seria se utilizar dos governos estaduais onde aliados bolsonaristas venceram. "A melhor alternativa talvez seja Tarcísio de Freitas em São Paulo. Mas, agora, Tarcísio — e Kassab — vão dar esse espaço para Bolsonaro usar o governo como plataforma? Vão dar cargos?", questiona o analista.

"Garoto propaganda"

Para Souza, dadas as muitas dúvidas sobre se Bolsonaro conseguirá se articular politicamente, a tendência é que o ex-mandatário atue como um "garoto propaganda" do PL nas eleições municipais de 2024, o que é um desejo de Costa Neto. A preparação para a corrida eleitoral nas cidades costuma a aparecer nos corredores de Brasília já no segundo semestre do ano.

Nas eleições de outubro passado, Bolsonaro teve 58,2 milhões de votos (49,1% dos votos válidos), contra 60,3 milhões de Lula. Parte da votação do presidente explica também a bancada recorde do PL, que elegeu 99 deputados. O próprio Costa Neto já afirmou que seu desejo é que Bolsonaro faça "caravanas" pelo Brasil.

"Me parece uma suposição factível que veremos o Bolsonaro rodando o Brasil com a bandeira do PL, tentando medir a temperatura e antecipando as eleições municipais do ano que vem", avalia Souza.

A janela partidária também deve ser uma preocupação do mandatário do PL. "No Congresso, Valdemar gostaria de utilizar Bolsonaro como uma cola que amalgamasse esses 99 deputados do PL, até para, quando surgir a janela partidária, o partido não se desidrate."

Oposição prática no Congresso

Ter Bolsonaro como uma "cola" que aglutine o partido em torno de algumas pautas seria útil ao PL, também, para organizar a oposição no dia-dia. Se o PT hoje não tem uma base clara no Congresso, também a oposição não tem uma organização completa desde que Bolsonaro perdeu a eleição.

"Essa movimentação em torno de Bolsonaro serviria para que de fato se tivesse a possibilidade desse partido, em articulação com outros, criar uma lógica de embarreiramento das pautas importantes do governo", avalia Souza.

Desde a votação da PEC de Transição no fim do ano passado, o PL tenta se colocar como liderança dessa oposição, sendo um dos poucos partidos a orientarem votação de bancada contra, ao lado do Republicanos e do Novo. "O PL e nomes como Ciro Nogueira [do PP] estão aprendendo a fazer oposição", diz Souza, uma vez que tais grupos, historicamente, estiveram com todos os governos ao lado do Centrão.

A estimativa é que Bolsonaro tenha hoje, de sua base fiel, cerca de 20% do Congresso (nas duas casas), graças a uma eleição em peso de nomes "bolsonaristas" em partidos como o PL e o Republicanos. Estão aí parlamentares como Nikolas Ferreira, Carla Zambelli, Damares Alves, os filhos do presidente, Flávio e Eduardo Bolsonaro, entre outros.

Para além desse grupo, há ainda nomes do Centrão cuja lealdade é mais ambígua, mas que podem se posicionar ao lado do PL de Bolsonaro e Costa Neto em um primeiro momento como frente de oposição a Lula ou, ao menos, de pressão ao governo em suas pautas.

"Eu não espero muito critério na construção dessa oposição. É ser contrário a tudo, criar confusão; é a dinâmica daquela parte mais barulhenta. E temos de ver como o governo vai reagir."

Os desafios ao governo Lula

A volta de Bolsonaro ocorre em um momento em que o governo Lula terá seus primeiros testes de fogo no Congresso. As duas grandes votações do ano para o Planalto devem ser o arcabouço fiscal (que está sendo apresentado nestes dias a lideranças) e a reforma tributária, cruciais para o legado que o mandato espera deixar.

Até agora, ter Bolsonaro fora do Brasil foi uma faca de dois gumes ao governo Lula. Garantiu relativa calmaria na discussão dos projetos no Planalto e alguma unidade após o 8 de janeiro.

Parte dos bolsonaristas mais radicais também se encontra "assustada" depois do 8 de janeiro, avalia Souza, e é preciso aguardar para entender como se comportarão após a volta de Bolsonaro. "Com exceção de Nikolas Ferreira, não vimos a Carla Zambelli, Bia Kicis, falando muito na CCJ ontem", apontou o analista, sobre a audiência acerca dos ataques de 8 de janeiro, da qual participou o ministro da Justiça, Flávio Dino. "Talvez ali, no núcleo duro, haja uma preocupação acerca das consequências de uma verborragia sem a capacidade de controlar quem vai cumprir a ordem de prisão agora."

Ter Bolsonaro de volta ao Brasil, portanto, pode trazer efeitos diversos ao governo, a depender de como as ações se desenrolem.

"Tentando olhar um certo 'copo meio cheio' para o PT e o governo Lula, é possível que isso [a volta de Bolsonaro] pode ser o que o governo precisa para ter uma base de fato", diz Souza.

Desse ângulo, o governo pode consolidar seu papel na negociação legislativa, principalmente à medida em que as negociações para aprovação do arcabouço e do Orçamento começam na prática nas próximas semanas. "Até agora o governo não tem base, é hiper dependente de Arthur Lira. O retorno de Bolsonaro vai se dar em um momento em que Lira tem perdido batalhas, e pode passar a ideia de que o Executivo é referência na negociação legislativa", diz Souza.

Já o risco político no radar de Souza e dos agentes em Brasília é que a chegada física de Bolsonaro, por si só, pode trazer obstáculos adicionais aos projetos do governo. Com o Brasil devendo ter baixo crescimento em 2023 e um mercado de trabalho menos aquecido, um cenário em que o governo não consiga entregar medidas claras ao eleitorado neste começo de mandato e perca popularidade pode dar mais munição à oposição.

"A presença do Bolsonaro e a capacidade de congregar e reacender a militância pode aumentar variáveis de risco, tornando o ambiente mais difícil para o avanço de discussões importantes como a âncora fiscal e a reforma tributária. Pode criar algum tumulto, em que talvez Lira veja elementos de barganha com o governo", diz Souza.

O analista faz, porém, uma ressalva: os movimentos a partir de agora estão abertos e são difíceis de calcular, uma vez que o cenário político que o Brasil viverá a partir do desembarque de Bolsonaro — a volta de um presidente que terminou o mandato no exterior, não passou a faixa ao sucessor e não reconheceu totalmente a derrota — é sem precedentes. "O cenário político no Brasil tem tido a capacidade de surpreender de diversas formas."

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