Lula e Alckmin: dupla terá desafio de negociar com um congresso opositor (Ricardo Stuckert/Flickr)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 1 de novembro de 2026 às 08h00.
O presidente Lula (PT), reeleito para um quarto mandato, terá de negociar com um Congresso de maioria de direita e centro-direita a partir de 2027. Segundo estudo da ARX Investimentos, esses campos reunirão 56,9% dos deputados e 63% dos senadores. Para o economista-chefe Gabriel Barros, as divergências na agenda econômica poderão dificultar a relação entre o governo e o Legislativo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito para um quarto mandato, terá pela frente um Congresso Nacional de maioria de direita e centro-direita a partir de 2027, cenário que poderá dificultar a aprovação de propostas do governo e ampliar a necessidade de negociações políticas.
Segundo levantamento da ARX Investimentos, esses dois campos ideológicos terão 292 dos 513 deputados federais, o equivalente a 56,9% da Câmara, e 51 dos 81 senadores, ou 63% do Senado.O estudo mostra que o PL, partido de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno, terá a maior bancada nas duas Casas, com 121 deputados e 29 senadores. O PT elegeu 70 deputados e deverá contar com dez senadores, segundo atualização divulgada pelo Senado.
Na Câmara, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, somará 88 cadeiras, ou 17,2% do total.
Para Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, a nova composição parlamentar tende a tornar mais complexa a relação entre o governo e o Legislativo, especialmente nas discussões econômicas.
“Com a composição mais orientada para partidos de centro e centro-direita, a relação com o governo promete ser tensa pela já conhecida incongruência de pauta econômica, pelo menos”, afirma.
A análise integra o estudo “Presidencialismo de Coalizão: o novo Congresso e a formação de maiorias”, elaborado por Barros, Cléo Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes.
O levantamento considera a distribuição partidária após as eleições, a composição ideológica das bancadas e os votos necessários para aprovar propostas no Congresso.
A distribuição ideológica apresentada pela ARX mostra que a esquerda terá 95 deputados, o equivalente a 18,5% da Câmara, enquanto a centro-esquerda contará com 31 parlamentares, ou 6%. O centro reunirá outros 95 deputados, e a centro-direita e a direita terão, respectivamente, 155 e 137 representantes.
Mesmo que esquerda, centro-esquerda e centro votassem juntos, alcançariam 221 deputados, número inferior aos 257 necessários para formar maioria absoluta na Câmara.No Senado, a diferença também é significativa. Esquerda e centro-esquerda somarão 15 parlamentares, enquanto o centro terá outros 15. Juntos, os três campos alcançariam 30 votos, abaixo dos 41 exigidos para a maioria absoluta.
Os dados indicam a necessidade de acordos com legendas classificadas como de centro-direita ou direita para alcançar determinados quóruns, mas não significam que esses partidos atuarão automaticamente como oposição ao governo.
Na Câmara, os 292 deputados de direita e centro-direita também não serão suficientes, isoladamente, para aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que exige 308 votos em dois turnos. No Senado, os 51 parlamentares desses campos superariam o quórum de 49 votos.
A composição ideológica é uma classificação adotada pelos autores do estudo e não representa necessariamente o comportamento dos parlamentares em cada votação.
O resultado das eleições de 2026 consolidou o PL como a maior legenda individual do Congresso. Na Câmara, seus 121 deputados representarão 23,6% das cadeiras, seguidos pelo PT, com 70 (13,6%), União Brasil, com 46 (9%), PSD, com 43 (8,4%), e Republicanos e PP, ambos com 41 (8%).
No Senado, o PL concentrará 29 das 81 cadeiras, o equivalente a 35,8% do total. O resultado amplia o peso da legenda nas negociações e votações parlamentares.
O estudo também aponta uma redução da fragmentação partidária, indicador que considera a distribuição proporcional de cadeiras entre partidos e federações.
Na Câmara, o número efetivo de bancadas e federações passou de 7,78, em 2022, para 7,25, após as eleições de 2026. No Senado, o indicador caiu de 8,21 para 5,74.A participação da maior bancada no Senado aumentou de 19,8% para 35,8%, enquanto o peso das três maiores passou de 48,1% para 56,8%.
Na Câmara, a concentração das três maiores bancadas ou federações subiu de 55,4% para 57,7%.
Embora o número de grupos partidários representados tenha aumentado nas duas Casas, os indicadores mostram uma concentração maior de cadeiras nas principais forças políticas.
A distribuição regional das bancadas pode ser um fator favorável ao presidente Lula nas negociações com o novo Congresso. Segundo o estudo da ARX, o Nordeste concentra parte expressiva dos deputados de partidos de centro e centro-direita, incluindo legendas que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial.
Na Câmara, a região reúne 41,9% dos deputados do PSD, 36,6% dos representantes do PP, 36,1% da bancada do MDB e 34,8% dos parlamentares do União Brasil. No PSB, a concentração chega a 66,7%.
O peso regional dessas bancadas pode abrir espaço para acordos com parlamentares de partidos que não integram formalmente a base governista. Durante a campanha presidencial, as divisões internas dessas legendas mostraram que os alinhamentos políticos nacionais nem sempre se repetem nos estados.
O exemplo mais evidente foi o MDB. Embora 17 diretórios estaduais tenham apoiado Flávio Bolsonaro no segundo turno, outros dez, localizados no Norte e no Nordeste, declararam apoio à reeleição de Lula. Entre eles estavam os diretórios da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, de Alagoas e do Maranhão.
A divisão do MDB mostra que o apoio de uma legenda à oposição na disputa presidencial não significa necessariamente alinhamento de todos os seus parlamentares contra o governo no Congresso.A capacidade de transformar essas relações regionais em votos dependerá, porém, das negociações com as lideranças partidárias e da posição dos parlamentares em cada proposta. O apoio eleitoral de um diretório estadual não garante adesão automática à agenda do Executivo.
Para Gabriel Barros, a nova composição do Congresso representa um desafio para a condução da agenda econômica e para a articulação política do governo Lula.
O economista também associa esse cenário às tensões institucionais observadas nos últimos anos e durante o período eleitoral.
“É preciso restaurar as instituições e a harmonia econômica, mas a expectativa de que isso seja feito é baixa”, afirma.
Barros avalia que a composição parlamentar, por si só, não garante uma atuação coordenada dos partidos que ampliaram sua representação.
“O que me parece que pode impactar a diretriz da agenda dos partidos vencedores no Congresso Nacional é a falta de clareza, estratégia e erros de execução”, diz.
O economista também menciona o risco de fisiologismo, prática caracterizada pela troca de apoio político por cargos, recursos ou benefícios, em detrimento de compromissos programáticos.
Sobre a eventual ausência do país do candidato derrotado na eleição presidencial, Barros avalia que essa circunstância não impediria a articulação da oposição, embora pudesse tornar as negociações menos fluidas.
A nova composição parlamentar evidencia o desafio do chamado presidencialismo de coalizão, modelo em que o presidente precisa negociar com diferentes partidos para formar maiorias legislativas.
Para Lula, a aprovação de propostas no quarto mandato dependerá não apenas do apoio das legendas de esquerda e centro-esquerda, mas também da construção de acordos com partidos de centro e de outros campos políticos.
Segundo estudo da ARX Investimentos, direita e centro-direita terão 292 deputados (56,9% da Câmara) e 51 senadores (63% do Senado). Essa composição poderá exigir do governo Lula negociações mais amplas para aprovar propostas, especialmente na agenda econômica.
O PL terá a maior bancada individual nas duas Casas, com 121 deputados federais, equivalentes a 23,6% da Câmara, e 29 senadores, ou 35,8% do Senado.
O PT elegeu 70 deputados federais. Somados aos 11 do PCdoB e aos sete do PV, partidos que integram a Federação Brasil da Esperança, serão 88 parlamentares, equivalentes a 17,2% da Câmara.
Na Câmara, os dois campos somam 292 deputados, 16 a menos que os 308 necessários para aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC). No Senado, os 51 parlamentares superam o quórum de 49 votos. Esses cálculos pressupõem que todos votem de maneira alinhada.
É a dinâmica política em que o presidente da República precisa negociar alianças com diferentes partidos para formar maiorias no Congresso e aprovar propostas. No Brasil, essas negociações envolvem partidos que nem sempre compartilham as mesmas posições políticas e econômicas.