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Fuga de Flávio impacta apoio ao bolsonarismo até mesmo em Santa Catarina

Mesmo no maior reduto eleitoral dos Bolsonaro, derrota presidencial e saída de Flávio para os EUA revelam primeiros sinais de descolamento entre lideranças conservadoras

 (Evaristo Sa/AFP/Arthur Menescal/Getty Images)

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Rafael Martini
Rafael Martini

Editor da Região Sul

Publicado em 30 de outubro de 2026 às 06h01.

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Quatro dias depois de receber quase 60 milhões de votos, o capital político de Flávio Bolsonaro parece ter entrado em modo aquecimento global: um derretimento mais acelerado do que analistas poderiam imaginar.

Ungido à vaga de herdeiro político do pai na liderança da direita, o senador viu sua fuga para os Estados Unidos provocar uma onda de críticas entre aliados e apoiadores.

Mesmo em Santa Catarina, um dos principais redutos do bolsonarismo no país, com média de 70% dos votos nas três últimas eleições presidenciais, já surgem sinais, ainda que subjetivos, de um possível descolamento político da família Bolsonaro, sem que isso represente afastamento das pautas conservadoras. E isso ocorre justamente no estado que acaba de eleger Carlos Bolsonaro para o Senado e Jair Renan para a Câmara dos Deputados.

Reeleito com mais de 68% dos votos, o governador Jorginho Mello (PL) publicou um vídeo nas redes sociais em que destacou a expressiva votação de Flávio no estado, mas adotou um tom mais conciliador, em defesa da pacificação nacional e do respeito ao processo democrático. “Não é hora de aprofundar feridas, mas sim curá-las”, afirmou, reiterando seu compromisso com as instituições e o resultado final das urnas.

 

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O que Jorginho não disse também tem significado político. Embora tenha reafirmado que Santa Catarina tem lado, não endossou a declaração de Flávio de que seria o verdadeiro presidente eleito, tampouco aderiu às acusações de fraude sem provas. Defendeu, porém, que eventuais questionamentos sejam esclarecidos.

Nas entrelinhas, o governador sinaliza uma atuação mais institucional, sem acompanhar a contestação eleitoral apresentada por Flávio. Não anunciou qualquer rompimento com a família Bolsonaro, mas a diferença de tom, mesmo sutil, está posta.

Outro sinal veio da deputada estadual Ana Campagnolo (PL), reeleita com 387.523 votos, a maior votação da história da Assembleia Legislativa catarinense. Em vídeo publicado nas redes sociais, cobrou uma autocrítica da direita, questionou a concentração de esforços nas eleições presidenciais e defendeu o fortalecimento de lideranças nos municípios.

A parlamentar também criticou a dependência de discursos de indignação nas redes sociais e defendeu maior organização política e resultados concretos. A manifestação ganha significado adicional porque Ana já havia entrado em atrito com integrantes da família Bolsonaro durante a disputa pelas vagas ao Senado em Santa Catarina.

Movimentação no tabuleiro

Entre os filhos eleitos por Santa Catarina, Carlos Bolsonaro se manifestou após a derrota. Na quarta-feira, 28, visitou o pai, que cumpre prisão domiciliar, e relatou um momento de emoção. “Desculpa, pai, a gente falhou”, contou ter dito. Segundo Carlos, Jair Bolsonaro respondeu: “Negativo, levanta a cabeça, vamos embora”, acrescentando que ainda havia muito a fazer pelo Brasil. O senador eleito, entretanto, não comentou diretamente a fuga de Flávio.

Já sobre Jair Renan Bolsonaro, eleito deputado federal, não havia sido identificada, até o fechamento desta reportagem, manifestação pública a respeito da saída do irmão para os Estados Unidos ou da carta em que contestou a derrota presidencial.

Na política, porém, não existe vácuo de poder. E os primeiros movimentos depois da derrota presidencial sugerem que a reorganização da direita poderá abrir espaço para outras lideranças.

As urnas catarinenses oferecem um exemplo dessa realidade. A deputada federal Júlia Zanatta (PL) foi reeleita com 560.223 votos, equivalentes a 13,15% dos válidos, registrando a maior votação nominal da história do estado para a Câmara dos Deputados.

O contraste com Jair Renan Bolsonaro chama a atenção. Mesmo concorrendo pelo PL, com o número 2222 e utilizando na urna o nome Jair Bolsonaro, o filho mais novo do ex-presidente recebeu 131.555 votos. Júlia conquistou mais de quatro vezes sua votação.

Em apenas quatro anos, a parlamentar quintuplicou sua votação. Sua postura pública parece seguir uma lógica: posições claras, gostem ou não. Seu estilo de fazer política provoca críticas intensas entre opositores nas redes sociais. O resultado das urnas, porém, mostra que as controvérsias não impediram a ampliação expressiva de sua base eleitoral.

Júlia não é uma dissidente do bolsonarismo. Sua trajetória está ligada à defesa de pautas conservadoras e do próprio ex-presidente. Mas a votação demonstra que lideranças identificadas com esse movimento já começam a acumular capital eleitoral próprio, independentemente do sobrenome Bolsonaro.

A deputada também impulsionou a eleição do marido, Guilherme Colombo (PL), que conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa com 76.041 votos. O casal fez campanha com o slogan: “voto casado”.

O movimento também aparece na disputa pelo Senado. Carol De Toni (PL) recebeu 2,69 milhões de votos, contra 2,04 milhões de Carlos Bolsonaro, uma diferença de 653.078 votos. Ambos foram eleitos, mas Carol, com trajetória política construída em Santa Catarina, alcançou uma votação maior que a do filho do ex-presidente, que transferiu seu domicílio eleitoral do Rio de Janeiro para disputar o mandato.

A força dessas lideranças também se reflete no tamanho do PL catarinense. O partido reelegeu Jorginho Mello no primeiro turno e conquistou sete das 16 cadeiras na Câmara dos Deputados e 16 das 40 vagas na Assembleia Legislativa. A partir de 2027, terá ainda os três senadores do estado: Jorge Seif, Carol De Toni e Carlos Bolsonaro.

No cenário nacional, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), revelou ter aconselhado Flávio a permanecer no Brasil e defendeu o respeito ao resultado das urnas. Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, criticou a carta em que o senador contestou a derrota presidencial sem apresentar provas de fraude.

Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, também afirmou não haver provas para sustentar as acusações. Até o pastor Silas Malafaia, aliado histórico da família Bolsonaro, classificou o documento como “ridículo, feio e infantil”, embora tenha defendido a saída do senador do Brasil.

São manifestações de naturezas distintas, que não significam necessariamente um rompimento com o bolsonarismo. O que começa a aparecer é uma possível autonomia política em relação à família Bolsonaro, sem abandono das pautas conservadoras que sustentam essas lideranças.

A conferir a partir de janeiro se Carlos Bolsonaro, no Senado, e Jair Renan, na Câmara dos Deputados, serão capazes de preservar em Santa Catarina a força política e eleitoral do sobrenome Bolsonaro.

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