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Ex-diretor da PRF preso: polícia encontrou provas de direcionamento de blitze

Vasques foi detido preventivamente (sem prazo determinado) em Florianópolis, nesta quarta, 9, por ordem do ministro Alexandre de Moraes

Além de Silvinei Vasques, outros aliados de Bolsonaro têm sido alvo de medidas judiciais (Alan Santos/PR/Flickr)

Além de Silvinei Vasques, outros aliados de Bolsonaro têm sido alvo de medidas judiciais (Alan Santos/PR/Flickr)

Estadão Conteúdo
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Agência de notícias

Publicado em 10 de agosto de 2023 às 08h30.

Com a prisão de Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Supremo Tribunal Federal (STF) apertou o cerco contra colaboradores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Vasques foi detido preventivamente (sem prazo determinado) em Florianópolis, nesta quarta, 9, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, como parte da Operação Constituição Cidadã. Ele é suspeito de usar a máquina pública para tentar interferir nos resultados da eleição do ano passado.

Investigações da Polícia Federal apuram se, sob orientação do ex-diretor, a PRF concentrou fiscalização em regiões que votaram majoritariamente no então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 30 de outubro, data do segundo turno das eleições. Segundo as apurações, o objetivo seria impedir que eleitores dessas regiões chegassem às urnas.

Além de Silvinei Vasques, outros aliados de Bolsonaro têm sido alvo de medidas judiciais. O ex-ajudante de ordens do ex-presidente, tenente-coronel Mauro Cid, está preso desde 3 de maio no Batalhão de Polícia do Exército, suspeito de falsificar cartões de vacina de covid-19, além de documentos da própria família de Bolsonaro. Anderson Torres, ex-ministro da Justiça do ex-presidente e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, está em liberdade provisória - usando tornozeleira eletrônica - sob suspeita de conivência com a invasão e depredação das sedes dos três Poderes em 8 de janeiro.

Imagens

A descoberta de três imagens guardadas no celular da delegada de Polícia Federal Marília Alencar, diretora de inteligência do Ministério da Justiça na gestão Torres, foi decisiva para a decretação da prisão de Silvinei Vasques. As fotos foram tiradas no dia 17 de outubro de 2022, 13 dias antes do segundo turno.

A primeira delas mostra uma folha de papel com um painel de inteligência intitulado "Concentração maior ou igual a 75% - Lula". Em seguida, é disposta uma lista de municípios: Crato (CE), Paulo Afonso (BA), Iguatu (CE), Parintins (AM) Candeias (BA), Serra Talhada (PE), Quixeramobim (CE), Canindé (CE), Casa Nova (BA), Araripina (PE), Santo Amaro (BA), Pesqueira (PE), Ouricuri (PE), Barreirinhas (MA), Icó (CE), Cajazeiras (PB) e Euclides da Cunha (BA).

Segundo a Polícia Federal, no mesmo dia em que a foto foi tirada a delegada Marília Alencar teria uma reunião com o então ministro Anderson Torres, às 11h. A imagem foi capturada às 11h23, o que levou os investigadores a concluírem que há "fortes indícios de que esta fotografia tenha sido realizada para esta reunião".

As outras duas imagens, tiradas antes, mostram listas de municípios de Goiás e de Minas Gerais. Na foto que trata de Minas - considerado, à época do pleito, como Estado decisivo para a realização do segundo turno - aparecem duas colunas: uma com o total de votos do Estado e outra com o título "Bolsonaro".

Os investigadores da Operação Constituição Cidadã também abasteceram o pedido de prisão de Silvinei Vasques com diálogos extraídos do celular do policial rodoviário federal Adiel Pereira Alcântara, ex-coordenador de análise de inteligência da PRF. Ele prestou depoimento à PF em dezembro de 2022. Os investigadores, no entanto, viram contradições na versão dada pelo agente rodoviário. Assim, apreenderam seu celular para confrontar a narrativa.

A conversa que mais chamou atenção da PF ocorreu em 29 de outubro, às vésperas do segundo turno, entre Adiel e um outro policial rodoviário federal, Paulo César Botti Alves Júnior, subordinado a ele. Segundo a PF, Adiel critica a conduta de Silvinei, diz que ele teria falado "muita merda" nas reuniões de gestão - na troca de mensagens, ele usa a expressão "policiamento direcionado" para descrever o que o então diretor-geral falava em um dos encontros. Para os investigadores o diálogo corrobora indícios de ações policiais visando dificultar ou impedir eleitores de votar.

O ex-diretor da PRF se aposentou em dezembro do ano passado, aos 47 anos e no apagar das luzes do governo Jair Bolsonaro - já em meio a investigações sobre sua atuação. No dia do segundo turno, ele usou sua conta pessoal no Instagram para pedir voto no então presidente. Silvinei publicou nos stories uma foto da bandeira do Brasil e escreveu: "Vote 22, Bolsonaro presidente".

PGR contra

A Procuradoria-Geral da República (PGR) foi contra a prisão de Silvinei. De acordo com o despacho do ministro, assinado no dia 23 de julho, o órgão apoiou somente a busca e apreensão e a quebra de sigilo do ex-chefe da PRF.

Silvinei prestou depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do 8 de Janeiro no dia 20 de junho. Na ocasião, disse que não usou o cargo para benefício eleitoral de Bolsonaro. "Não seria eu que mudaria o resultado da eleição", disse, à época. Também afirmou ser vítima de "perseguição" e alvo da "maior injustiça da história". 

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