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Dilma deveria priorizar a reforma da Previdência, diz Fishlow

Professor americano que estuda o Brasil há 45 anos afirma que déficit nas aposentadorias explica elevada carga tributária

Fishlow: "É notável a diferença entre os direitos dos aposentados dos setores público e privado" (Reprodução/EXAME TV)

Fishlow: "É notável a diferença entre os direitos dos aposentados dos setores público e privado" (Reprodução/EXAME TV)

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Da Redação

Publicado em 21 de fevereiro de 2011 às 07h51.

São Paulo – O governo Dilma deveria aproveitar a alta popularidade conquistada nas urnas para colocar no topo da lista de prioridades a aprovação de uma reforma da Previdência.

A avaliação é do professor emérito da Universidade Columbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Albert Fishlow, que participou do programa “Momento da Economia”, na Rádio EXAME.

“O déficit da previdência é um problema em vários países, mas no Brasil, a impressão é de que ninguém quer tratar a questão e reconhecer que isso representa um dos maiores desafios do futuro”, diz Fishlow, que estuda o Brasil há 45 anos.

No mês que vem, ele virá a São Paulo para lançar o livro “O Novo Brasil - As Conquistas Políticas, Econômicas, Sociais e Nas Relações Internacionais”, que analisa os 25 anos da Nova República.

Na entrevista (para ouvi-la na íntegra, clique na imagem ao lado), Fishlow fala sobre os principais pontos abordados em sua obra, de Sarney a Lula, e avalia os grandes desafios do governo Dilma.

Leia a seguir alguns trechos da entrevista:

EXAME.com – Qual deve ser a prioridade do governo Dilma?

Albert Fishlow – Eu acho que o mais fácil do ponto de vista político - e que teria impacto imediato - seria aproveitar o início do mandato para aprovar uma reforma previdenciária.

EXAME.com – Por que essa escolha?

Fishlow – Porque isso tem ligação com o problema fiscal do país. O déficit da previdência explica a elevada carga de impostos. É interessante notar que o presidente Cardoso e o presidente Lula fizeram alterações nessa área logo no início do mandato. O déficit da previdência é um problema em vários países, mas no Brasil, a impressão é de que ninguém quer tratar a questão e reconhecer que isso representa um dos maiores desafios do futuro.

EXAME.com – No livro, o sr. destaca os privilégios dos funcionários públicos...

Fishlow – É notável a diferença entre os direitos dos aposentados dos setores público e privado. O inchaço da máquina do governo ao longo do tempo está criando um problema ainda maior.


EXAME.com – O sr. diz que o Brasil destina muitos recursos para saúde, educação e previdência. A questão agora é a qualidade dos gastos?

Fishlow – Exatamente. O Brasil gasta nessas áreas algo comparável com os países ricos, mas os serviços prestados não têm a mesma qualidade.

EXAME.com – O sr. também demonstra preocupação com a falta de mão de obra qualificada...

Fishlow – Felizmente, o crescimento recente da economia está forte e o Brasil vive quase um pleno emprego. Porém, a conseqüência é o aumento de salários sem uma força de trabalho bem qualificada. Isso vai se refletir na falta de produtividade e na ausência de produção de bens sofisticados, como acontece na China e na Índia.

EXAME.com – Por que o Brasil precisa elevar a taxa de investimento em proporção do PIB para pelo menos 25%?

Fishlow – A taxa de investimento na China é de 45% do PIB e na Índia, de quase 40%. Já o Brasil continua com menos de 20%. Sem aumentar isso, não há base para permitir o crescimento sustentado. O Brasil precisa de investimentos para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos e parte disso precisa vir do governo. Para isso, um ajuste fiscal é necessário para que sobrem recursos para infraestrutura e para as áreas sociais . Com déficit fiscal (nominal) - apesar do superávit primário -, o governo é obrigado a manter juros reais elevados, que afetam o câmbio.

EXAME.com – Daí a necessidade de uma poupança interna, principalmente do setor público?

Fishlow – Certamente. No passado, o Brasil sempre financiou os investimentos com poupança externa. Isso cria inegavelmente problemas no futuro, pois aumenta o déficit em conta corrente, o que torna o país dependente do que acontece no mundo.

EXAME.com – Como o sr. avalia o início do governo Dilma?

Fishlow – Eu acho que as primeiras decisões econômicas pelo menos mostram o reconhecimento das necessidades de fazer algo do lado fiscal. No livro, eu tentei mostrar algumas áreas em que a nova administração poderá fazer alterações positivas para o futuro do Brasil. 

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