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Corrupção, orçamento e pandemia: veja destaques do debate entre Lula e Bolsonaro

Lula e Bolsonaro trocaram acusações sobre corrupção e foram questionados sobre como vão garantir que haverá recursos para cumprimento das promessas de campanha

Lula e Bolsonaro: petista lidera pesquisas de intenção de voto. (Lula: Nelson Almeida/Getty Images - Bolsonaro: Clauber Cleber Caetano/PR/Divulgação)

Lula e Bolsonaro: petista lidera pesquisas de intenção de voto. (Lula: Nelson Almeida/Getty Images - Bolsonaro: Clauber Cleber Caetano/PR/Divulgação)

Por Alessandra Azevedo, Gilson Garrett Jr

16 de outubro de 2022, 23h03

Os candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), participaram, neste domingo, 16, do primeiro debate presidencial do segundo turno das eleições, na TV Band. O embate, que começou às 20h e terminou pouco antes das 22h, foi organizado por TV Bandeirantes, UOL, Folha de S. Paulo e TV Cultura.

Lula e Bolsonaro trocaram acusações sobre corrupção e foram questionados sobre como vão garantir que haverá recursos para cumprimento das promessas de campanha. O petista prometeu reajuste do salário mínimo acima da inflação, e o atual presidente disse que todas as medidas serão tomadas com "responsabilidade fiscal".

Uma forma de garantir recursos para os programas de governo, segundo Lula, é pela aprovação de uma reforma tributária que taxe menos os mais pobres. Ele também defendeu a isenção do pagamento do Imposto de Renda para pessoas que recebam até R$ 5 mil por mês.

"Temos certeza que o Congresso vai aprovar uma reforma tributária para que a gente possa taxar menos os mais pobres e os trabalhadores. Propomos isenção até R$ 5 mil no pagamento do Imposto de Renda e cobrar dos mais ricos, que muitas vezes não pagam sobre lucros e dividendos", disse Lula.

O ex-presidente lembrou que Bolsonaro propôs um auxílio de R$ 200 no início da pandemia de covid-19. "Agora, mandou R$ 600 só até 31 de dezembro de 2022, porque não está na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias)", afirmou, em relação ao Auxílio Brasil.

Bolsonaro disse que os R$ 600 serão mantidos. "Vamos manter de forma imediata o Auxílio Brasil. Vai vir de um projeto de lei que já está no Congresso", disse. Além disso, segundo ele, parte do dinheiro de privatizações vai ser usado para pagar juros da dívida e outra parte para novos projetos. "Tudo dentro da responsabilidade fiscal", disse.

Lula afirmou que tentará criar um "Orçamento participativo", caso seja eleito presidente. "Vou tentar confrontar essa história do Orçamento secreto. Vou tentar criar um Orçamento participativo, que foi uma coisa que criamos nos estados brasileiros", prometeu.

A proposta, segundo o ex-presidente, é que o povo possa opinar sobre onde o dinheiro do Orçamento deve ser investido. O objetivo é “diminuir o sequestro que o Centrão fez [do Orçamento] no governo Bolsonaro", afirmou Lula.

Perguntado sobre o assunto, Bolsonaro disse que vetou o Orçamento secreto, mas que o veto depois teria sido derrubado pelos parlamentares. “13 deputados do PT receberam recurso desse tal desse Orçamento secreto”, afirmou.

“Esse orçamento foi criado por Rodrigo Maia, que queria tirar poder de mim. Eu queria que o orçamento tivesse na minha mão", disse Bolsonaro, ao ser questionado sobre o tema. O presidente ressaltou que é a favor da reforma tributária.

Lula perguntou por que Bolsonaro não promoveu aumento real do salário mínimo durante o governo. "São 36 milhões de pessoas que ganham salário mínimo, das quais 22 milhões são aposentados, que estão há quatro anos sem receber aumento real", apontou. "No meu governo, receberam 74% de aumento real, por isso que a economia cresceu", disse.

O ex-presidente afirmou que o país crescia, em média, 4% durante o governo dele. "Sabe quanto está crescendo no seu? Menos que 2%. Quando eu deixei a Presidência, estava crescendo 7%", disse. "Estamos com a economia atrofiada, economia que você fala que está bombando. Só se for no seu orçamento, porque para o povo não aparece esse crescimento na economia."

Pandemia

A pandemia de covid-19 foi um dos assuntos mais comentados pelos candidatos no primeiro bloco do debate. Bolsonaro disse que "foi contra a estratégia de mandar a pessoa para casa até ficar com falta de ar", enquanto Lula o acusou de ter sido negligente na gestão da saúde pública.

O presidente defendeu o direito dos médicos em receitar remédios sem comprovação científica para o tratamento do coronavírus e negou que tenha havido corrupção na negociação para a compra de vacinas.

Lula perguntou a Bolsonaro por que "houve tanta demora" para comprar vacinas contra a covid-19 e se o presidente não se sente responsável pelas mortes de brasileiros em decorrência do coronavírus. "O senhor atrasou a vacina, depois teve processo, inclusive, de corrupção denunciado pela CPI", disse.

"No caso da Covaxin, não teve corrupção porque não teve vacina”, disse Bolsonaro. “Eu poderia ter acabado com a CPI da Covid-19 se eu acolhesse uma emenda que liberasse qualquer governador para comprar vacina em qualquer lugar, sem a certificação da Anvisa. Seria a festa, uma roubalheira. E quem pagaria a conta? O governo federal", afirmou o presidente.

"O fato concreto é que a sua negligência fez com que 680 mil pessoas morressem, quando metade poderia ter sido salva. A verdade é que o senhor não cuidou, debochou, riu. Disse que quem tomasse vacina viraria jacaré. Imitou pessoas morrendo por falta de oxigênio em Manaus", apontou Lula. "Você não quis entender o sofrimento do povo."

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Indicações ao Supremo

Em uma pergunta sobre as indicações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro disse que a proposta de aumentar o número de membros da Corte não é sua e que deputados do PT apoiaram a ideia no passado. Segundo ele, se reeleito, ele poderá indicar mais dois ministros, além dos dois que ele já indicou, e assim teria um "equilíbrio". "Com sete do PT e quatro que eu indiquei", disse.

Lula disse ser contra a ampliação no número de ministros, assunto levantado por Bolsonaro durante a campanha. O ex-presidente lembrou que isso ocorreu no tempo da ditadura militar. "Não é prudente, não é democrático um presidente da República querer ter os ministros da Suprema Corte como amigos", disse.

Os ministros do STF, segundo Lula, "têm que ter currículo, têm que ter história, têm que ter biografia e têm que fazer o que precisa ser feito". Ele afirmou que "tentar mexer na Suprema Corte para colocar amigo, companheiro, partidário é um atraso e um retrocesso que a República brasileira já conhece muito bem, e eu sou contra".

Lula ponderou que "a gente pode discutir, no futuro, se tiver uma nova Constituinte, quem sabe ter mandato ou não, limitação maior". "Mas a Suprema Corte tem que ser escolhida por competência, currículo, e não amizade", reforçou.

Economia

Com o tema de infraestrutura, Bolsonaro citou o ex-ministro do seu governo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Tarcísio é candidato ao governo de São Paulo e está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.

"Se você tivesse ministros do nível do Tarcísio, muitas obras teriam sido feitas. O senhor não fez nada pelo Brasil", disse Bolsonaro. Lula mencionou que o ex-ministro trabalhou no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O ex-presidente Lula afirmou que privatizar a Petrobras "é uma loucura". "Esse país, hoje, só refina 80% da gasolina que usa. A gente refinava 100%, tudo que consumia. Esse país parou de refinar", afirmou. Lula lembrou que a BR foi privatizada com o argumento de que havia monopólio e que a gasolina ficaria mais barata.

"Vendeu-se a BR, e hoje temos 392 empresas importando gasolina dos Estados Unidos sem pagar imposto e com preço dolarizado. Na verdade, o preço não tem que ser dolarizado, porque a gente faz exploração em real, paga salário em real", disse Lula. "Acho que privatizar [a Petrobras] não é solução para nada."

Em uma troca de acusações sobre corrupção, Bolsonaro afirmou que quando Lula era presidente, o petista entregou cargos de diretoria da Petrobras para aliados políticos em troca de votações no Congresso. Também citou outros casos de corrupção. "Por que a Venezuela tem metrô e Belo Horizonte não tem? Você tem muito a falar sobre corrupção. Não culpe os procuradores e juízes da Lava Jato", disse.

Lula aproveitou o debate para desmentir Bolsonaro em relação à transposição do rio São Francisco, que o presidente alega ser obra do atual governo. Segundo Lula, foi o governo petista que fez 88% da transposição.

"Se tem um mentiroso aqui, esse mentiroso chama-se Jair Messias Bolsonaro. Todo mundo sabe que quem fez a transposição do rio São Francisco foi esse que vos fala", disse o ex-presidente, que chamou Bolsonaro de “cara de pau”.

“Ele fez 3,5%. Da mesma forma que fala que fez ferrovia. Tudo feito pelo governo do PT, mais de 80% das obras feitas. Ele vai lá e termina", disse Lula. O petista lembrou que, quando assumiu a Presidência, inaugurou uma ponte, mas reconheceu que a obra foi iniciada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Lula também prometeu criar um ministério para os povos originários, caso seja eleito. Segundo ele, os povos indígenas indicarão o ministro da nova pasta, que tratará de assuntos como a preservação da Amazônia. "Os indígenas vão indicar um ministério neste país", garantiu.

Ao ser questionado sobre quantas universidades fez durante o seu governo, Bolsonaro fugiu do tema e focou a fala em moradores do Nordeste, região onde o ex-presidente venceu no primeiro turno, com larga vantagem. "Quero falar com pessoal do Nordeste. Quando era o Bolsa Família, o valor era 140 reais. Nós triplicamos esse valor", afirmou.

Crime organizado e liberdade

Bolsonaro afirmou que Lula tem apoio de criminosos e de presidiários. O presidente questionou o adversário sobre a transferência de Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, e chefe de uma das maiores facções criminosas do país.

Segundo o presidente, a transferência do criminoso de um presídio estadual, em um regime mais brando, para uma unidade federal, em que as regras são mais restritas, só ocorreu no seu governo.

Bolsonaro citou o ex-ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro. Falou que essa transferência só foi possível graças a ele. Moro, que foi eleito senador pelo Paraná pelo União Brasil, aconselhou Bolsonaro durante o debate nos estúdios da Band.

"Quem cuida de crime organizado não sou eu. Quem tem relação com miliciano, ele [Bolsonaro] sabe que não sou eu. Ele sabe quem tem. É quem matou a Marielle, no Rio de Janeiro", disse Lula, depois de ser questionado sobre o apoio que teria recebido de presidiários.

"O dado concreto é o seguinte: você está falando com o cara que fez cinco presídios de segurança máxima neste país. Quantas você fez? Nenhuma. A mentira aqui não é minha", disse Lula. O ex-presidente afirmou que é "o único candidato que tem coragem de entrar em uma favela sem colete de segurança".

Segundo Lula, "os grandes bandidos estão é no lugar dos ricos", não dos pobres. "Os pobres são trabalhadores", afirmou. "Vou voltar, e não foram os presos que votaram em mim, foi o povo brasileiro. Com 6 milhões a mais do que você, com toda a gastança que você fez", acrescentou.

Educação

Lula afirmou que, se eleito, fará uma reunião na primeira semana de janeiro com governadores e com prefeitos das capitais para discutir como recuperar os alunos que estão atrasados devido à pandemia de covid-19. "Ficaram mais analfabetos do que eram, porque não tiveram sequer auxílio de um computador, de internet, para poder estudar", disse.

"O governo federal vai compartilhar com os governadores e com prefeitos a responsabilidade de recuperar essas aulas, para que esses meninos possam aprender mais. Vamos ter que fazer um verdadeiro mutirão", disse Lula. "É triste, mas é verdade: os pobres aprenderam menos, os negros aprenderam menos, porque os ricos têm internet, fizeram aulas, e os pobres ficaram sem aulas", acrescentou.

Em relação à educação, Bolsonaro disse que agora as crianças levam menos tempo para serem alfabetizadas. "O nosso ministro da Educação tem um aplicativo chamado GraphoGame para quem tem um telefone celular e a garotada fica ali", disse.

"No passado, no tempo do Lula, as crianças levavam três anos para serem alfabetizadas e, agora, levam a seis meses. A gente não promete o que vai fazer, a gente mostra o que fez. E vamos começar o FIES técnico", afirmou Bolsonaro sobre propostas para educação.

Nas considerações finais, Bolsonaro disse que quer "um país livre, que seja respeitada liberdade de expressão, que possa trabalhar e ter certeza que seu filho não vai ser ensinado a ideologia de gênero".

"Não quero que as crianças frequentem o mesmo banheiro, não queremos a liberação das drogas. Somos cristãos. Não ao aborto, não ao MST invadindo terra. Pelo direito de legitima defesa. Esse é o país que nós queremos", discursou Bolsonaro.

Já Lula destacou, na última fala, que a lei da liberdade religiosa foi aprovada durante o governo petista, em 2003. "Quem defende a democracia e a liberdade sou eu, muito mais do que ele [Bolsonaro], que é um pequeno ditadorzinho que quer ocupar a Suprema Corte", afirmou.

"Quero governar esse país democraticamente, como já governei duas vezes", disse Lula. "Tem 33 milhões de pessoas passando fome. As pessoas estão na fila do osso. Quando falo do churrasco, é porque nós vamos consertar esse país e vamos voltar, no fim de semana, a comer um churrasquinho e tomar cerveja. Ele [Bolsonaro] fica doido porque pensa que só ele pode", concluiu.

Quando será o 2º turno das Eleições 2022?

Para os cargos de presidente e de governador, quando nenhum dos candidatos atinge 50% mais um dos votos válidos, a eleição vai para o segundo turno. Em 2022, a segunda etapa de votação é no dia 30 de outubro. Diferentemente de outros anos, para esta eleição, o fuso horário para a votação é um só em todo o país, o de Brasília, das 8h às 17h.

Veja as datas dos debates para presidente no 2º turno

Estão previstos até o fim da campanha mais dois debates para presidente no segundo turno:

  • 21 de outubro (sexta-feira) – CNN, Veja, SBT, O Estado de S. Paulo, Nova Brasil FM e Terra
  • 28 de outubro (sexta-feira) – Globo

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