Protesto em Bruxelas: agro europeu protesta contra acordo UE-Mercosul na Bélgica (OLIVIER MATTHYS/EFE)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 11h05.
Última atualização em 6 de janeiro de 2026 às 11h06.
A Comissão Europeia prepara um pacote financeiro para tentar destravar o acordo entre União Europeia e Mercosul, informou o site Politico nesta terça-feira, 6, citando cinco fontes com conhecimento direto das negociações.
O objetivo é tentar convencer os países que ainda resistem à tratativa, como a França e a Polônia. Segundo a publicação, embora o conteúdo final ainda não esteja definido, a expectativa é de que o documento traga garantias financeiras direcionadas aos agricultores europeus — principal ponto de impasse para que o acordo avance.
Entre as possíveis concessões, está a inclusão de compensações no próximo orçamento plurianual da UE (2028–2034), para atenuar os efeitos de um corte previsto de 20% na Política Agrícola Comum (PAC), principal mecanismo de subsídios ao setor rural europeu.
O gesto é visto como essencial para reconquistar o apoio da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, que barrou o avanço do acordo na última cúpula da UE, pressionada pelo lobby do agronegócio local. Na segunda-feira, 5, a Bloomberg afirmou que a Itália tinha mudado sua posição e deve assinar o acordo.
Em dezembro de 2025, quando a assinatura do tratado parecia próxima, cerca de 10 mil produtores dos 27 países da União Europeia se reuniram em Bruxelas, na Bélgica, para protestar contra o acordo.
Na ocasião, em resposta às pressões do setor agrícola, o Conselho Europeu anunciou uma série de ajustes nas salvaguardas, em mais uma tentativa de viabilizar o tratado.
As novas salvaguardas estipulam que, caso a importação de um produto específico aumente significativamente ou os preços caiam além do limite considerado aceitável, a União Europeia poderá iniciar uma investigação e revisar a remoção das tarifas ou aplicar outras medidas.
Em casos sensíveis, como as importações de carne bovina fresca, arroz e etanol, a investigação deverá ser concluída em até 21 dias; nos demais casos, o prazo será de quatro meses. Além disso, o limite que aciona as salvaguardas foi elevado de 5% para 8%
Desde 2024, quando as negociações se intensificaram, agricultores europeus — sobretudo da França e da Polônia — têm se mobilizado contra a proposta.
Os críticos argumentam que o setor agrícola do bloco perderá competitividade frente às commodities do Mercosul, especialmente as brasileiras, mais baratas.
Contudo, segundo estimativas da Comissão Europeia, as exportações agroalimentares da UE para o Mercosul devem crescer 50%, impulsionadas pela redução das tarifas sobre produtos como vinho e bebidas (até 35%), chocolate (20%) e azeite (10%).
A votação decisiva está marcada para esta sexta-feira, 9. Pelas regras da União Europeia, o acordo precisa do apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, representando no mínimo 65% da população do bloco.
Nesse cenário, a Itália, terceira maior economia da UE, ocupa uma posição estratégica e pode ser decisiva.
Em paralelo, segundo o Politico, os ministros da Agricultura da UE foram convocados para uma reunião extraordinária em Bruxelas nesta quarta-feira, 7.
O encontro, descrito como uma avaliação do cenário, será conduzido pelos comissários de Comércio, Agricultura e Saúde, além da ministra da Agricultura do Chipre, país que ocupa a presidência rotativa do Conselho da UE.
Caso o acordo seja aprovado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pode viajar já na próxima semana ao Paraguai para a assinatura formal. A previsão é de que o tratado seja assinado na próxima segunda-feira, 12.
Em entrevista ao programa matinal Bonjour, da tevê francesa TF1, Arnaud Rousseau, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA) — principal entidade que representa os produtores rurais da França — afirmou que está preparando uma nova rodada de negociações para tentar barrar a assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosul.
Segundo Rousseau, neste momento, o foco é “encontrar soluções”. “Nesta noite, pediremos ao primeiro-ministro da França que adote uma lei especial para que, até as próximas eleições presidenciais, a agricultura possa se beneficiar de uma série de avanços”, disse.
Ce soir, nous demanderons au Premier ministre que la France adopte une loi spéciale afin que, d’ici la prochaine élection présidentielle, l’agriculture puisse bénéficier d’un certain nombre d’avancées.
« Ce qui compte en ce moment, c’est la vision politique. » —@rousseautrocy,… pic.twitter.com/JOVOOWcY0B
— La FNSEA (@FNSEA) January 6, 2026
Desde o início das negociações, a FNSEA tem sido uma das vozes mais ativas contra a assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul.
Na França, surtos de doenças animais, como a dermatite nodular contagiosa, têm levado ao abate de rebanhos inteiros e alimentado protestos contra as políticas do governo.
Apesar dos esforços das autoridades para conter a crise sanitária, a insatisfação cresce, e representantes do setor ameaçam intensificar as manifestações caso o tratado com o Mercosul avance.
Outro ponto de atrito são as novas exigências ambientais, especialmente as regras mais rígidas sobre o uso de pesticidas.
Produtores argumentam que as medidas reduzem a competitividade da agricultura europeia, já que produtos de países terceiros, como os do Mercosul, não seguem os mesmos padrões.