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Disparada dos fertilizantes faz Trump mirar produção local e abrir espaço para Venezuela

Guerra no Irã eleva custo dos insumos e expõe dependência dos EUA em meio a margens apertadas

Trator colhendo feno no verão: EUA contam com uma indústria nacional relevante de fertilizantes, responsável por suprir cerca de 60% da demanda pelos principais macronutrientes como nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). (Freepik)

Trator colhendo feno no verão: EUA contam com uma indústria nacional relevante de fertilizantes, responsável por suprir cerca de 60% da demanda pelos principais macronutrientes como nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 24 de abril de 2026 às 06h00.

Assim como no Brasil, os preços dos fertilizantes dispararam nos Estados Unidos em meio à guerra no Irã, e uma das estratégias do presidente Donald Trump é aumentar a produção nacional do insumo, além de usar os recursos arrecadados com tarifas para conter a alta.

Desde o início da escalada das tensões no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, os preços dos fertilizantes nitrogenados subiram mais de 30%. No mesmo período, os custos combinados de combustível e fertilizantes avançaram entre 20% e 40%.

A ureia lidera esse movimento: o preço do insumo saltou 47% desde o fim de fevereiro, registrando a maior alta percentual mensal já observada, segundo dados da American Farm Bureau Federation (AFBF), principal entidade agrícola dos EUA.

Na semana passada, a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, afirmou que o governo avalia o uso de fundos para lidar com o problema.

“O USDA identificou alguns fundos para começar a investir e acelerar a distribuição de fertilizantes. Estamos trabalhando nisso, mas não quero prometer demais. Esses preços não vão cair nos próximos dias ou semanas. Pode levar alguns meses para que eles voltem ao normal”, disse Rollins em entrevista à imprensa.

A secretária também destacou medidas recentes, como a isenção de 60 dias concedida pela administração Trump à Lei Jones — que exige que embarcações que transportam mercadorias entre portos dos EUA sejam construídas e operadas por americanos —, além da liberação para ampliar a importação de fertilizantes da Venezuela.

Nesta quinta-feira, 23, em entrevista à Fox Bussiness, Rollins voltou a sinalizar que pretende avançar na produção doméstica dos fertilizantes. Segundo ela, é necessário garantir a 'independência nacional'.

“Não podemos depender do fornecimento estrangeiro de fertilizantes de nações adversárias, como Rússia e China. Precisamos repatriar e fortalecer a produção doméstica para garantir a independência agrícola nacional”, afirmou.

Os Estados Unidos contam com uma indústria nacional relevante de fertilizantes, responsável por suprir cerca de 60% da demanda pelos principais macronutrientes: nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). Ainda assim, o país segue vulnerável a interrupções no fornecimento e a fortes oscilações de preços.

Em 2025, os EUA importaram 95% de suas necessidades de potássio — acima dos 93% registrados em 2021, antes da guerra entre Rússia e Ucrânia. Entre 2021 e 2024, o Canadá respondeu por 79% do potássio utilizado no país, seguido por Rússia (12%) e Israel (3%).

O principal problema é que os agricultores dos EUA, base relevante de apoio ao presidente, já iniciaram a compra de insumos para a próxima safra e demonstram pessimismo em relação à nova temporada.

Uma pesquisa da AFBF mostra que cerca de 70% dos produtores não conseguem adquirir todo o fertilizante necessário para esta safra.

O dado acende um alerta no setor, em meio à alta dos custos de produção provocada pela guerra no Irã e ao cenário de margens apertadas, especialmente para produtores de soja.

A principal dificuldade está no Estreito de Ormuz, região estratégica para o agro mundial e que segue bloqueado pelo Irã, como resposta aos ataques dos EUA e de Israel ao país persa.

Por lá, passam cerca de 30% das remessas globais de fertilizantes, cerca de 20% do gás natural liquefeito e 27% do petróleo comercializado internacionalmente do Golfo Pérsico para mercados em todo o mundo, segundo um levantamento da Universidade de Purdue, em Illinois.

Com o Irã restringindo o tráfego pela hidrovia, os preços nos mercados de energia e fertilizantes dispararam. Na semana passada, o Irã sinalizou que reabriria Ormuz, mas após negociações fracassadas com os EUA, o país persa voltou atrás.

Margens apertadas

A região do Golfo Pérsico é um importante polo de produção de nitrogênio e fosfato, insumos essenciais para o plantio de soja e milho.

Nos últimos três anos (2023-2025), os países do Golfo se consolidaram como o maior exportador regional de ureia e amônia (ambos à base de nitrogênio) e o segundo maior de fertilizantes fosfatados, como o fosfato diamônico (DAP) e o fosfato monoamônico (MAP).

Diante desse cenário, as relações de troca entre grãos e fertilizantes — ou seja, os preços relativos desses insumos — permanecem próximas das máximas históricas desde 2022, especialmente no caso de nitrogênio e fósforo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Mesmo com uma indústria mais desenvolvida que a brasileira, os Estados Unidos também dependem de fontes externas para insumos essenciais, especialmente o potássio.

Essa dependência, segundo estudo da Universidade de Purdue, ainda que em níveis distintos, “deixa a produção agrícola em ambos os países exposta a choques geopolíticos, custos mais elevados e margens de lucro menores para os agricultores”.

Além disso, diferentemente de 2022 — quando a alta dos custos de insumos foi acompanhada por uma forte valorização das commodities —, o cenário atual combina aumento nos preços dos fertilizantes com ganhos mais modestos em culturas como soja e milho.

Rollins afirmou que os custos dos fertilizantes devem recuar com o fim da guerra, mas, até lá, o governo federal atua em conjunto com empresas do setor para mitigar os impactos dos preços.

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