Porto de Rosário: os embarques agroindustriais pelos portos do país totalizaram 100,2 milhões de toneladas (Mt). Desse volume, os terminais da Grande Rosário responderam por 74,6 milhões de toneladas, alta de 10% em relação a 2024.
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 10h56.
Entidades ligadas ao agronegócio da Argentina aderiram à greve geral convocada contra a reforma trabalhista do presidente Javier Milei, que deve ser votada nesta quinta-feira, 19. A paralisação já afeta as exportações de grãos e derivados, setor responsável por uma parcela significativa das receitas em dólar do país.
Desde quarta-feira, 18, as atividades nos portos foram interrompidas, afetando a atracação e desatracação de navios, o transporte de práticos e os serviços às embarcações, especialmente na região de Rosário — principal polo agroexportador argentino.
No ano passado, os embarques agroindustriais pelos portos do país totalizaram 100,2 milhões de toneladas (Mt). Desse volume, os terminais da Grande Rosário responderam por 74,6 milhões de toneladas, alta de 10% em relação a 2024.
Para Daniel Yofra, secretário-geral da Federação dos Trabalhadores do Complexo Industrial de Oleaginosas (FTCIODyARA), a paralisação é um instrumento legítimo de pressão. “A greve é uma ferramenta fundamental. Nós somos produto de greves”, disse em nota.
O Sindicato Argentino dos Trabalhadores Rurais e Estivadores (UATRE) também declarou apoio ao movimento. A entidade critica mudanças no regime de trabalho agrícola — que possui legislação específica — e a ampliação do período probatório para oito meses.
Segundo o sindicato, a medida “significaria, na prática, cobrir safras inteiras em condições precárias, deixando milhares de famílias sem proteção real”.
A UATRE também se opõe ao fim da responsabilidade solidária entre empregadores e empreiteiros, alegando que a mudança “enfraquece os controles contra o descumprimento e as práticas abusivas”.
Outro ponto de tensão, segundo a entidade, é a retirada de poderes da Comissão Nacional do Trabalho Agrícola (CNTA), considerada pelo sindicato uma “ferramenta fundamental para a definição de salários”.
Em 2024, a receita da Argentina com exportações de grãos e derivados somou US$ 25,09 bilhões, segundo a Câmara da Indústria Oleaginosa da República Argentina (Ciara) e o Centro de Exportadores de Grãos (CEC), alta de 27% em relação a 2023.
A Argentina é um dos principais produtores de commodities agrícolas da América Latina. O país compete com o Brasil nas exportações de soja e carne e lidera as vendas externas de girassol e farelo de soja, coproduto utilizado na ração animal.
O apoio dos trabalhadores rurais à greve contrasta com o respaldo de parte do empresariado do agro ao governo Milei.
Durante a campanha eleitoral de 2023, o presidente sinalizou ao setor que implementaria medidas para impulsionar as exportações e ampliar as divisas dos produtores, em meio à insatisfação com a política cambial do governo anterior, que adotou o chamado “dólar soja”.
Na quarta-feira, a Bunge Ramallo informou que encerrou as atividades às 22h. A Molinos Río de la Plata, em Rosário, suspenderá as operações às 6h de quinta-feira, 19, com previsão de retomada apenas na sexta-feira, 20.
Outros terminais ainda não divulgaram decisões oficiais, mas o setor não descarta novas paralisações que possam afetar o fluxo de caminhões e o carregamento de navios.
Ainda não há estimativas oficiais sobre o impacto das paralisações nas exportações argentinas.
O projeto de reforma promovido pelo governo propõe alterações nos métodos de contratação, no sistema de remuneração e nos regimes de negociação coletiva.
Para Milei, as mudanças são necessárias para reduzir a litigiosidade e estimular o emprego formal. Já os sindicatos afirmam que a proposta representa uma desregulamentação que enfraquece direitos trabalhistas.
A legislação vigente, na maioria da década de 1970, é apontada pelo governo como um entrave à formalização, por supostamente favorecer a informalidade e desestimular novas contratações.
Do outro lado, oposição e centrais sindicais sustentam que as alterações retiram direitos fundamentais e tendem a precarizar as relações de trabalho.
Entre os pontos mais sensíveis está a ampliação da jornada diária para até 12 horas, com um sistema de compensação: o período mais longo em um dia poderia ser compensado por outro mais curto, sem pagamento de horas extras. A jornada semanal máxima permaneceria em 48 horas.
Enquanto parte do agro se posiciona contra a reforma, a Câmara da Indústria Petrolífera e o Centro de Exportadores de Cereais (CIARA-CEC) criticaram a greve dos trabalhadores rurais.
Em nota, classificaram a paralisação como uma reação corporativa ao debate legislativo. “Esta greve demonstra resistência à mudança, priorizando a preservação de estruturas de poder em detrimento da criação de empregos reais”, afirmaram as entidades.
A câmara defende que a reforma busca modernizar o mercado de trabalho e estimular a formalização. “Rejeitar sem debate não é defender direitos: é defender estruturas”, disseram as organizações.