Como a Microsoft abandonou a guerra dos consoles para focar em assinaturas

Conhecida pelo Xbox, a Microsoft está diversificando e fugindo dos hardwares em prol de atingir milhões de novos gamers

Em meados de 2014, Satya Nadella, que acabara de se tornar o executivo-chefe da Microsoft, reuniu os chefes da divisão de games da empresa em seu escritório em Redmond, no estado de Washington.

Os executivos queriam que ele fizesse um cheque de US$ 2,5 bilhões para comprar a Mojang, empresa sueca que produzia um jogo em blocos e pixelizado chamado Minecraft. Nadella perguntou por que a Microsoft, que estava sendo consistentemente superada no negócio de consoles pela Sony, deveria continuar investindo em videogames. Como, segundo ele, isso se encaixava em sua visão de uma empresa amigável que atraía mais consumidores?

Então, Phil Spencer, o novo chefe do Xbox, contou a Nadella sobre o vasto mundo do Minecraft, no qual milhões de pessoas podiam se socializar e os adolescentes eram encorajados a aprender matemática e habilidades científicas. Um acordo seria o primeiro passo de "uma visão bastante ousada" para centrar o negócio de games da Microsoft em um público mais amplo, e não apenas em jogadores de console, segundo Spencer.

Nadella concordou e a compra foi feita. O que se seguiu, de acordo com entrevistas com mais de 20 executivos da Microsoft, desenvolvedores de jogos, analistas do setor e gamers, foi uma mudança que durou anos. Em vez de competir principalmente com a rival Sony para vender mais consoles, a Microsoft comprou outros 15 estúdios de games e investiu em novas tecnologias, como um serviço de assinatura no estilo Netflix e uma ferramenta móvel conhecida como "cloud gaming" (jogos na nuvem).

Agora, o negócio de videogames da Microsoft parece muito diferente. A empresa ainda é conhecida pelo Xbox, cuja nova versão foi lançada em novembro. Mesmo assim, diversificou-se além do hardware para fornecer uma nova gama de serviços. "Sua estratégia divergiu significativamente da abordagem tradicional de console", disse Piers Harding-Rolls, pesquisador de jogos da empresa de análise Ampere Analysis.

Com as mudanças, a Microsoft aposta que o futuro dos games será um mundo pós-hardware, em que, de acordo com executivos e analistas, as pessoas podem não querer gastar centenas de dólares em um console. Eles afirmaram que, no fim, as pessoas podem não estar mais ligadas a dispositivos específicos para jogar, e em vez disso vão se preocupar mais com software e serviços.

Os consoles Xbox ainda geram muita receita – em janeiro, a Microsoft anunciou pela primeira vez US$ 5 bilhões em receita trimestral de jogos, reforçados pelo lançamento da Série X do Xbox –, mas a empresa parou de divulgar suas vendas de consoles em 2014. A maior parte da receita desse segmento vem de conteúdo e serviços, e não das vendas do console, informou Tim Stuart, diretor financeiro da Xbox.

Seu setor de games ainda enfrenta obstáculos, incluindo acabar com a percepção entre os jogadores de que a empresa não se incomoda com eles de fato. Esse ponto negativo decorreu de uma falha de mensagem em 2013, quando a Microsoft apresentou seu novo console Xbox One como um dispositivo de entretenimento que as pessoas poderiam usar para ouvir música e ver filmes. Em resposta, os jogadores se revoltaram.

Mesmo assim, analistas estimaram que o Xbox One vendeu cerca de 50 milhões de unidades, mas foi superado em muito pelo PlayStation 4 da Sony, que também foi introduzido em 2013 e vendeu 116 milhões de unidades. "Deixamos de perceber o que os gamers queriam", observou Stuart.

Depois da reação, a Microsoft mudou de marcha. Nadella tinha acabado de assumir e queria que a empresa mudasse do foco em software para o de serviços de computação em nuvem e assinatura.

Spencer garantiu que a evolução da divisão de games espelhava esses objetivos, e convenceu Nadella a comprar a Mojang em setembro de 2014 – a primeira aquisição do novo executivo-chefe. "O videogame é muito mais central para a Microsoft hoje do que jamais foi em nossa história", garantiu Nadella recentemente.

Em 2017, a Microsoft lançou o Xbox Game Pass. Por US$ 10 ou US$ 15 por mês, os assinantes podiam jogar um conjunto específico de jogos enquanto permanecessem no serviço. Isso acabou com o modelo tradicional, no qual as pessoas pagavam US$ 60 por jogos como Call of Duty e os possuíam para sempre.

Mike Blank, vice-presidente sênior da Electronic Arts, que colocou seus jogos, como as franquias Madden NFL e Fifa, no Game Pass em 2020, disse que inicialmente houve certa "insegurança" em torno dos serviços de assinatura. No entanto, de acordo com ele, a empresa está feliz com os resultados e "os jogadores respondem favoravelmente".

A Microsoft também gastou muito em desenvolvimento de jogos para expandir as ofertas do Game Pass, comprando estúdios, incluindo uma aquisição de US$ 7,5 bilhões da ZeniMax Media em setembro, e adicionando centenas de games ao serviço. Este ano, considerou também comprar o aplicativo de mensagens Discord, que os gamers usam para conversar enquanto jogam.

A diversificação continuou no fim de 2019, quando a empresa lançou um serviço de jogos na nuvem, no qual os programas ficam hospedados nos servidores de uma empresa e são transmitidos para os dispositivos. O serviço, o Xbox Cloud Gaming, ou xCloud, significa que as pessoas não precisam instalar jogos ou possuir um hardware caro.

A ideia de um serviço de games na nuvem surgiu para Spencer no início daquele ano, quando estava em um ônibus em Nairóbi, no Quênia, e conectado ao Wi-Fi. Ele descobriu que poderia baixar um jogo do data center da Microsoft em Londres para seu celular. "Era literalmente o mesmo jogo que eu tinha salvado em Redmond, Washington. Isso realmente mostra como é possível transformar os games em algo verdadeiramente global."

Recentemente, a Microsoft revelou que estava trabalhando com fabricantes de televisores para colocar seus jogos nas próprias TVs, sem a necessidade de um Xbox. Além disso, acrescentou que em breve traria o streaming na nuvem para o console também.

Por enquanto, os jogos na nuvem ainda apresentam jogabilidade falha e exigem uma forte conexão com a internet. O Xbox Cloud Gaming ainda está em teste, e a Apple, que exige aplicativos separados para cada um como parte de seu processo de revisão dos programas, barrou o aplicativo dos iPhones por incluir vários games.

Ao mesmo tempo, o Xbox continua atrás do PlayStation da Sony. Em abril, a Sony divulgou ter vendido 7,8 milhões de novos PlayStation 5 entre novembro e março, enquanto analistas estimaram que a Microsoft havia vendido por volta de quatro milhões de novos Xbox no mesmo período.

Como a Microsoft se afastou da guerra dos consoles, o tom de Spencer também foi suavizado. Em uma entrevista ao "The New York Times" em 2014, ele sinalizou que não recuaria. "Estou nessa para ganhar", afirmou.

Em uma entrevista em maio, assumiu uma abordagem diferente. "Não olhamos para a Nintendo e a Sony pensando que têm de perder para que ganhemos."

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