Pop

‘Os Simpsons’ fazem Apu voltar a falar após quase uma década

Apu e Manjula retornam com novos dubladores, e produção prevê mais participações do comerciante na série

Apu volta a falar em ‘Os Simpsons’ após quase uma década de silêncio

Apu volta a falar em ‘Os Simpsons’ após quase uma década de silêncio

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 17h10.

Última atualização em 20 de outubro de 2026 às 17h16.

Priorizar nos meus resultados Google
Tudo sobreSéries
Saiba mais

O comerciante Apu voltou a ter falas em “Os Simpsons” no episódio de Halloween exibido no domingo, 18. O retorno do dono do Kwik-E-Mart ocorre após quase uma década sem diálogos e traz uma mudança no elenco: ele e a esposa, Manjula, passam a ser interpretados por atores americanos de origem indiana.

Sunil Malhotra, que atua com dublagem, assume a voz de Apu. Janina Gavankar, da série “The Morning Show”, interpreta Manjula. Os dois personagens participam de uma das histórias de “A Casa da Árvore dos Horrores”, conjunto de episódios especiais que apresenta tramas independentes da narrativa habitual da animação.

Em uma publicação conjunta no Instagram, os atores descreveram a volta do personagem como um retorno para casa.

A mudança retoma uma discussão sobre representatividade que ganhou espaço em 2017, com o lançamento do documentário “The Problem With Apu”, ou “O problema com Apu”, em tradução livre. No filme, o comediante Hari Kondabolu aborda os estereótipos associados ao personagem e seus efeitos sobre pessoas de origem sul-asiática nos Estados Unidos.

Por que Apu ficou sem falas em “Os Simpsons”?

Fã de "Os Simpsons", Kondabolu reuniu no documentário depoimentos de artistas como Kal Penn, Utkarsh Ambudkar e Hasan Minhaj. Entre as experiências relatadas estavam episódios de intimidação e o uso do nome “Apu” como insulto.

A discussão também envolvia a escolha de Hank Azaria, um ator branco, para interpretar um imigrante indiano com sotaque carregado.

Segundo Bhoomi Thakore, professora assistente de sociologia da Universidade de Connecticut, Apu reunia características que restringiam sua identidade à condição de estrangeiro: o trabalho em uma loja de conveniência, o sotaque e a pouca identificação com a sociedade americana.

A pesquisadora observa que, quando o personagem estreou, em 1990, ele era uma das únicas referências de representação indiana conhecidas por grande parte do público.

Após a repercussão do documentário, Apu perdeu espaço na série. Sem diálogos, passou a aparecer principalmente ao fundo das cenas.

A primeira resposta da animação à controvérsia veio em um episódio de 2018. Nele, Lisa questionava o que fazer quando algo antes considerado inofensivo passava a ser visto como politicamente incorreto. A cena terminava com a imagem de uma fotografia de Apu e recebeu críticas por não enfrentar as questões levantadas pelo filme.

Em 2020, Azaria confirmou ao jornal The New York Times que deixaria o papel. O ator, que continuou no elenco de outras vozes da série, afirmou que já não considerava adequado interpretar o personagem.

Naquele mesmo ano, em meio às manifestações contra o racismo, a produção anunciou que atores brancos deixariam de dublar personagens de outras origens raciais. Carl Carlson e o médico Julius Hibbert, ambos negros, passaram a ser interpretados por atores negros.

Produção prevê novas participações de Apu

Kondabolu afirmou que nunca defendeu a retirada do personagem. Na segunda-feira, 19, elogiou a contratação de Malhotra e Gavankar e a solução adotada pelos produtores.

Em declaração enviada por e-mail à Associated Press, o comediante disse manter o orgulho pelo debate sobre raça e representação iniciado por seu documentário. Também manifestou a expectativa de que o retorno encerre as mensagens de ódio que recebeu ao longo dos últimos anos.

Ele informou que não participou de conversas com a produção sobre a volta de Apu e acrescentou que os responsáveis pela série não tinham obrigação de consultá-lo.

O produtor executivo Matt Selman afirmou, em comunicado, que a equipe buscou uma forma de recuperar o personagem que permitisse seu desenvolvimento dentro do estilo de “Os Simpsons”. Segundo ele, a intenção é apresentar novas participações de Apu.

Personagem também desperta identificação entre sul-asiáticos

As críticas à representação de Apu não resumem a relação do público sul-asiático com o personagem. Para o escritor e produtor Amar Shah, o comerciante também remete à história de sua família.

Em 2018, Shah publicou nas redes sociais e em um artigo no jornal The Washington Post relatos sobre essa identificação. Filho de um indiano que administrava uma loja de conveniência na Flórida, ele reconhecia em Apu aspectos do trabalho do pai e de sua própria infância.

Shah afirma compreender as críticas de outras pessoas de origem sul-asiática, mas considera que seus filhos também poderiam encontrar no personagem referências à família.

Após assistir ao novo episódio, o escritor disse perceber diferenças na voz e na entonação, sem considerar que a interpretação de Malhotra tenha alterado a identidade de Apu. Para ele, a substituição poderia ter ocorrido antes.

Retorno ocorre em meio a relatos de discriminação

A volta do personagem acontece em um período de registros de hostilidade contra pessoas de origem indiana e sul-asiática nos Estados Unidos. A organização Stop AAPI Hate e outros grupos de pesquisa identificaram crescimento de insultos racistas e ameaças na internet nos últimos anos.

Entre os episódios citados está uma publicação de Bo French, candidato republicano à Comissão Ferroviária do Texas. Ele compartilhou uma fotografia de estudantes sul-asiáticos da Universidade do Texas durante uma partida de futebol americano e classificou o grupo como “um problema”.

Na semana anterior à exibição do episódio, um homem foi acusado de planejar um ataque a tiros contra um templo hindu nos arredores de Chicago.

Shah relaciona esse contexto à importância da abordagem adotada pela série. Segundo ele, americanos de origem indiana e sul-asiática têm enfrentado questionamentos sobre seu pertencimento ao país, seu patriotismo e até sua participação em atividades como o futebol americano universitário.

O cenário de representação na televisão, mas, mudou desde a estreia de Apu. Shilpa Davé, professora associada de estudos de mídia da Universidade da Virgínia, observa que o personagem surgiu quando havia poucas presenças recorrentes de sul-asiáticos nas produções.

Hoje, séries como “Bridgerton” e “Eu Nunca...” apresentam outras experiências e identidades. Essa ampliação também aparece na projeção de nomes como a atriz e produtora Mindy Kaling e, na política, de Zohran Mamdani e Kamala Harris.

Acompanhe tudo sobre:CuriosidadesFoxSériesSéries americanas

Mais de Pop

BTS no Brasil: entenda as polêmicas às vésperas da chegada do grupo de K-pop no país

Em livro, Eric Dane expõe vício em drogas e bastidores de ‘Grey’s Anatomy’: 'Meu período sombrio'

Liam Gallagher revela novo álbum do Oasis em resposta a fã no X

BTS: o que significa 'Arirang', nome do álbum e da nova turnê do grupo coreano?