Wizard: não temos tempo para disputar quem faz mais pelo Brasil

Empresário está confiante de que aprovações para compra de imunizantes pelo setor privado irá acelerar retomada da economia. Para ele, momento é de união entre setor privado e público para resolução de problemas urgentes

Para Carlos Wizard, empresário por trás das redes Taco Bell, KFC e Pizza Hut no país e da loja de produtos naturais Mundo Verde, a responsabilidade social das empresas não acaba quando a ação do setor público deve começar. O exemplo mais nítido disso está na força-tarefa de Wizard junto a Luciano Hang, da Havan, para pleitear mudanças na legislação que permite a compra de vacinas contra a covid-19 pelo setor privado.

Na última segunda-feira, o Tribunal Regional Federal da 3ª região expediu uma autorização liminar que autoriza o Sindicato de Comerciantes da região paulista de Campinas e Valinhos a comprar pelo menos 500 mil doses de vacinas para a imunização de trabalhadores do setor e seus familiares.

Wizard, que tem forte atuação na cidade de Campinas com pelo menos 12 unidades das quatro redes alimentares, vê a decisão como um sinal verde para a iniciativa privada. “Para nós, essas decisões regionais também são favoráveis e positivas”, disse.

No último mês, Wizard e Hang se ofereceram para entregar até 10 milhões de doses ao SUS, em um esforço para acelerar a vacinação em massa e receber aprovação para compra de vacinas pelo setor privado. Segundo o empresário, nesta terça-feira, 6, as empresas brasileiras receberam o aval do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para a aquisição de vacinas diretamente de laboratórios, válida a partir do momento em que houver mudança na legislação. Até o momento, a negociação é feita apenas entre fornecedores e governos.

O abaixo-assinado criado por Wizard e Havan que pleiteia alterações na legislação sobre a compra de vacinas já conta com 300 assinaturas, e deve ser votado no Congresso na próxima quarta-feira, 7. A relatora do projeto é a deputada federal Celina Leão, do Partido Progressistas do Distrito Federal. Se receberem o aval legal, diz Wizard, ele e Hang distribuirão as 10 milhões de doses em até 30 dias.

A iniciativa dos empresários tem sido duramente criticada por especialistas que afirmam que a compra privada vai atrapalhar o calendário de aplicações do SUS e atrasar a imunidade de rebanho da população, sobretudo em contexto de escassez de doses.

Wizard também quer que a legislação seja alterada para começar a vacinar seus mais de 50.000 funcionários imediatamente e abrir as portas dos comércios, fechadas devido ao bloqueio. Para o empresário, a pandemia deixará um legado de colaboração entre empresas e órgãos públicos na solução de problemas urgentes. “Estamos perdendo uma guerra. Por isso, empresários ativistas estão dando sua parcela de contribuição", diz. "Momento não é de disputa, mas de somar esfoços e capacidades".

Segundo ele, outras empresas, especialmente do setor de varejo, também mostraram interesse em fazer parte do grupo e adquirir doses tão breve possível. Em entrevista à EXAME, Wizard afirmou que a participação do setor privado na agenda da saúde pública é urgente e dispensa disputas por liderança.

Com as movimentações judiciárias recentes, qual é o status atual da campanha de empresas interessadas em comprar vacinas contra a covid?
Devo dizer que o cenário é otimista quando vemos essas movimentações do Judiciário de pleitear e reivindicar a participação da iniciativa privada na aquisição, distribuição e aplicação das vacinas. Como empresários, podemos contribuir muito ao SUS e ao PNI. Com a divulgação de um calendário de 78 milhões de pessoas do grupos prioritários, o ritmo é lento. Enquanto isso, temos até 3.000 mortes por dia. Queremos antecipar isso.

Até o final de março, vocês não haviam tido nenhuma resposta do governo sobre a oferta para compra de 10 milhões de doses. Como está isso hoje?
Meu diálogo com a deputada Celina Leão é ativo, e esperamos que outros parlamentares se tornem sensíveis à causa, deixando de lado qualquer posicionamento ideológico e político, pensando apenas em salvar vidas.

A decisão em Campinas afeta diretamente seus negócios?
Temos muitas unidades comerciais em Campinas. De antemão, esse é um sinal de que poderia imunizar os funcionários e abrir as portas das lojas novamente.

O otimismo sobre o posicionamento do Judiciário na aprovação que favorecem a compra privada de vacinas se replica para os resultados dos negócios? É possível ser otimista, mesmo diante do contexto econômico atual?
Lamentavelmente não. Nossas lojas estão fechadas e isso implica que não temos faturamento, mas continuamos a ter despesas, como aluguel e fornecedores. Muitas empresas já foram à falência. Nossa expectativa é que a vacina seja liberada o mais rápido possível para que nossa vida retorne ao normal.

Se aprovada a compra, há algum laboratório ou fornecedor a ser priorizado?
Temos conversas com Ásia, Europa e América do Norte. Mas somente na hora de negociar é que saberemos com quem fechar negócio.

Como será a organização estrutural e logística para vacinar mais de 50.000 funcionários e familiares, se aprovada a nova lei?
Trabalhamos em conjunto com a Associação Brasileira das Redes Farmácias [Abrafarma] e o presidente Sérgio Barreto. A aplicação das doses seriam feitas nas farmácias. Outro ponto importante é o armazenamento, e também precisamos da especialidade deles para isso.

Eu e Luciano Hang lideramos um consórcio com mais de 100 empresários, cada um com um número diferente de colaboradores. São várias empresas unidas nesse propósito, sempre com essa organização.

Mesmo com mudanças regulatórias, conseguir 10 milhões de doses para o Brasil parece uma tarefa difícil. O senhor também enxerga que haverá fatores complicadores mesmo depois do aval da Justiça?
Em partes. O mundo todo está mesmo em busca de vacinas, mas existe também um número imenso de fornecedores e fabricantes querendo antecipar entregas. Nos Estados Unidos, em breve estarão vacinados todos os grupos necessários, o que significa que podem sobrar vacinas — e o Brasil é um destino natural para ela. Se tivermos o aval legal, em 30 dias seremos capazes de entregar 10 milhões de doses no Brasil.

Na pandemia, a contribuição do setor privado em questões públicas foi notável. Essa colaboração entre diferentes níveis deve continuar?
O legado da pandemia é a solidariedade. Vimos que pode ser afetado aquele com menos recursos ou do mais alto nível social. Todos com o mesmo nível de igualdade. E essa percepção e solidariedade deve permanecer.

Algumas empresas, apesar de engajadas, limitam sua contribuição social até onde começa a atuação do setor público. Na sua visão, qual é o limite da responsabilidade social?
O momento agora não é disputa ou de medir forças. Pelo contrário, é de somar forças empenho e capacidade para combater a crise sanitária. O que não podemos perder de vista, é que esse empenho tem o intuito de salvar vidas. Não temos tempo de disputar quem faz mais pelo Brasil. Embora que alguns empresários limitem sua visão sobre sua parcela de contribuição, está cada vez mais notável quais são as empresas comprometidas com a sociedade brasileira como um todo.

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