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Startup mira R$ 35 milhões ao transformar a carga mental das mulheres em produto

Criada por Aline Santiago, a Liv for Her reúne tarefas, finanças, alimentação e bem-estar em uma única plataforma e mira 30 mil usuárias e receita recorrente anual de R$ 35 milhões em 24 meses

Aline Santiago, fundadora e CEO da Liv for Her: “A ideia é centralizar tudo em uma experiência só e facilitar a rotina da mulher.” (Divulgação)

Aline Santiago, fundadora e CEO da Liv for Her: “A ideia é centralizar tudo em uma experiência só e facilitar a rotina da mulher.” (Divulgação)

Bianca Camatta
Bianca Camatta

Freelancer em Negócios

Publicado em 29 de setembro de 2026 às 09h01.

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Mulheres de 14 anos ou mais dedicam cerca de 21,3 horas da semana a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somado a isso, elas ainda conciliam trabalho e outras demandas da vida pessoal.

Aline Santiago se identificava com essa sobrecarga de funções, que, segundo ela, resultava em desgaste emocional. “A gente se desgasta muito e isso não é saudável”, diz. Pensando em uma dificuldade pessoal que poderia ser compartilhada com outras mulheres, ela decidiu apostar na criação de um aplicativo: o Liv for Her.

A ideia é reunir, em uma única plataforma, diferentes frentes da vida da mulher, do trabalho ao ciclo menstrual e às atividades físicas. A empresa foi lançada há dois meses e, em 24 meses de operação, a expectativa é chegar a uma receita recorrente anual de R$ 35 milhões, com foco em mulheres empreendedoras e na redução da sobrecarga da dupla jornada.

Da inteligência artificial à rotina

Aline trabalhava com desenvolvimento de inteligência artificial, vendendo soluções para grandes empresas. Foi ao observar os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia aos clientes que imaginou como a IA também poderia fazer parte de sua vida pessoal.

“Eu percebi que, se a IA consegue resolver trabalhos repetitivos, ela também poderia fazer isso na minha vida. Minha rotina é muito puxada, e eu pensei: vou ganhar tempo”, afirma.

A partir dessa percepção, começou a desenhar a plataforma. Desde o início, pensou em como a ferramenta poderia ser personalizada para diferentes rotinas. A plataforma considera que cada usuária tem uma combinação própria de responsabilidades, que pode envolver trabalho, filhos, pets, família e tarefas domésticas.

Com base nas informações fornecidas, a IA organiza as demandas em diferentes categorias e cria cartões específicos para cada tipo de atividade. Assim, uma tarefa profissional é direcionada ao espaço de trabalho, enquanto uma demanda relacionada aos filhos ou aos pets é classificada automaticamente na respectiva categoria.

A interação com a plataforma pode ser feita por texto ou voz, em uma dinâmica semelhante a uma conversa. Em vez de abrir diferentes abas ou aplicativos para consultar informações, a usuária pode perguntar diretamente à IA sobre a própria rotina, como compromissos, tarefas ou pagamentos. A proposta é que a tecnologia funcione como uma espécie de assistente pessoal, capaz de recuperar as informações já registradas e responder de acordo com o contexto de cada usuária.

A plataforma também reúne ferramentas para outras áreas da rotina. Na despensa, por exemplo, a usuária pode fotografar uma nota fiscal, e a IA identifica os alimentos comprados e atualiza o estoque. Os valores gastos, por sua vez, são direcionados para a área de finanças.

Há ainda funções relacionadas ao bem-estar e à saúde, como o registro de refeições a partir de fotos dos pratos, com acompanhamento de macronutrientes, além do monitoramento do ciclo menstrual e de sintomas, como crises de enxaqueca.

“A vida da mulher é muito fragmentada, com um aplicativo para cada necessidade. A ideia da Liv for Her é justamente centralizar tudo em uma única experiência e facilitar a rotina”, diz.

A startup foi concebida como uma plataforma que pode ganhar novas funcionalidades conforme surgem demandas das usuárias. Durante os testes, por exemplo, uma usuária sugeriu uma ferramenta para acompanhar crises de enxaqueca. A equipe incorporou a demanda ao produto, criando um recurso dentro da área de wellness para registrar os episódios e manter um histórico que pode ser levado às consultas médicas.

A proposta é que a própria interação com as usuárias ajude a orientar a evolução da plataforma. Dessa forma, novas necessidades identificadas ao longo do uso podem se transformar em funcionalidades.

Foram cerca de seis meses de desenvolvimento entre o desenho da plataforma, definição do escopo, validação, testes e integrações para o lançamento da versão web. Em outubro, a empresa pretende disponibilizar também a versão em aplicativo, mantendo o acesso pela web.

Da estreia internacional à expansão

A Liv for Her foi lançada oficialmente há cerca de dois meses, durante uma feira de tecnologia em Las Vegas, nos Estados Unidos. O evento também serviu como uma primeira oportunidade para apresentar a plataforma a potenciais parceiros e testar o interesse pelo produto no mercado internacional. Na sequência, a empresa começou a operar no Brasil, onde concentra, neste primeiro momento, os esforços de aquisição de usuárias e divulgação.

A estratégia de comunicação parte do próprio problema que deu origem à plataforma: a sobrecarga de tarefas e a carga mental das mulheres. Em vez de comunicar apenas as funcionalidades da ferramenta, a empresa busca explicar como a inteligência artificial pode ser aplicada à rotina, com conteúdos voltados principalmente para mulheres empreendedoras.

A fundadora também participa da construção desse posicionamento, contando a própria experiência e discutindo como a tecnologia pode ajudar a organizar diferentes áreas da vida. A estratégia inclui ainda a participação em eventos de tecnologia e a expansão da comunicação para outros mercados, inicialmente Portugal e Espanha.

O primeiro mercado fora do Brasil será Portugal, onde os fundadores têm cidadania e uma rede de contatos, seguido pela Espanha. Na sequência, a empresa pretende avançar para a comunidade latina nos Estados Unidos. Para viabilizar a estratégia, a plataforma já conta com versões em português, inglês e espanhol e, segundo Aline, está estruturada para atender às regras de proteção de dados dos diferentes mercados. A empresa também pretende adaptar a comunicação e buscar parceiros locais em cada país.

Por lidar com informações que podem incluir dados financeiros e relacionados à saúde, a proteção das informações também faz parte da estratégia da empresa. Segundo Aline, a Liv for Her segue as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no Brasil e está estruturada para atender às regras de proteção de dados dos mercados internacionais em que pretende atuar.

A empresa afirma ainda que não pretende vender os dados das usuárias nem utilizá-los para ações de marketing. As usuárias podem exportar informações, como dados financeiros e de saúde, caso deixem a plataforma.

Em busca das primeiras 30 mil usuárias

O público-alvo da plataforma são as mulheres empreendedoras, que acumulam diferentes responsabilidades profissionais e pessoais. A escolha permite à empresa concentrar sua comunicação em um grupo específico e definir metas de crescimento.

Segundo dados do Sebrae, o Brasil tem 10,4 milhões de mulheres empreendedoras. A partir desse universo, a Liv for Her estima que entre 5 milhões e 6 milhões estejam dentro da faixa etária e do perfil de usuária buscado pela plataforma.

A empresa pretende conquistar 30 mil dessas mulheres nos próximos 24 meses. Considerando a mensalidade de R$ 97, esse volume levaria a uma receita recorrente anual próxima de R$ 35 milhões.

“O desafio agora é transformar esse mercado potencial em usuárias e mostrar que a inteligência artificial pode, de fato, facilitar a rotina e reduzir a carga mental.”

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