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Quem ganha e quem perde com a incorporação da Smiles pela Gol

"A operação veio do controlador, que irá colocar no bolso uma empresa geradora de caixa", afirma analista

Avião da GOL pintado com logo do programa de fidelidade Smiles (Divulgação/Divulgação)

Avião da GOL pintado com logo do programa de fidelidade Smiles (Divulgação/Divulgação)

Karin Salomão

Karin Salomão

Publicado em 16 de outubro de 2018 às 06h00.

Última atualização em 16 de outubro de 2018 às 06h00.

São Paulo - O anúncio da GOL, de incorporar a Smiles, pegou o mercado de surpresa: desagradou investidores e acionistas minoritários e confundiu analistas. A operação resultará na extinção da empresa de fidelidade, da qual a aérea é acionista controladora, com migração da base acionária da Smiles para a GOL.

O cenário ainda é incerto, já que os detalhes da transação ainda precisam ser acordados. Mas, entre consumidores, viajantes, investidores e empresas envolvidas, ganha a GOL e perdem acionistas minoritários, afirmam analistas ouvidos por EXAME.

Para o consumidor, a operação deve ter pouco ou nenhum impacto, avaliam os analistas. A GOL teria mais poder de decisão sobre os preços das passagens resgatadas pela Smiles e poderia ajustar o valor para ter mais vantagens. Mas Max Oliveira, cofundador e CEO da MaxMilhas, acredita que isso é improvável, uma vez que a estratégia da companhia aérea tem sido valorizar o consumidor com seus produtos, como rede wifi, facilidades pelo aplicativo ou assentos com mais conforto.

De acordo com a companhia, “a reorganização proposta não afetará em absolutamente nada as milhas ou benefícios dos membros da SMILES. Eles continuarão a desfrutar dos mesmos termos e condições, independentemente do resultado da nossa proposta”. “Vale lembrar que a GOL é o maior parceiro comercial da SMILES, já que mais de 90% das milhas resgatadas são utilizadas em passagens aéreas em nossa rede (GOL e parceiros)”, afirmou a empresa por email.

Segundo Tatiana Brandt, analista da corretora Eleven Financial, os acionistas minoritários foram os mais prejudicados com o anúncio. Grande parte do valor era o elevado potencial de geração de caixa e pagamento de dividendos. Agora, com a incorporação da companhia pela GOL, os acionistas deixarão de receber essas vantagens.

"Ao nosso ver, o posicionamento do controlador desconsiderou as boas práticas de governança corporativa, ferindo completamente o interesse dos acionistas minoritários e destruindo o valor da companhia", diz a Eleven em relatório incisivo.

Já a controladora tem muito a ganhar com a operação. As duas empresas operam de forma bastante diferente. A companhia aérea sofre com a instabilidade do câmbio e do preço do combustível, enquanto a empresa de fidelidade opera com maior estabilidade, margens maiores e lucros crescentes.

"Acreditamos que essa operação veio do controlador, que irá colocar no bolso, por um preço barato, uma empresa geradora de caixa", afirmou Brandt.

A necessidade de levantar caixa foi justamente o que motivou as companhias aéreas a dividirem suas empresas de fidelidade, em primeiro lugar. "As aéreas brasileiras separaram seus negócios de fidelidade para gerar caixa, por meio de um IPO", diz Oliveira, doMax Milhas. Agora, fazem o caminho inverso pelos mesmos motivos.

Outra vantagem da incorporação para as empresas é a redução no pagamento de impostos. Por ter lucros altos, a Smiles paga imposto de renda cheio sobre esse valor. Por outro lado, a GOL tem lucros e margens menores, com trimestres de prejuízo. Assim, ao unir as duas operações, o imposto pago deve ser menor.

A reorganização societária depende da aprovação pela Agência Nacional de Aviação Civil e dos acionistas das companhias.

Surpresas e dúvidas

O anúncio da companhia aérea, feito na noite de domingo, ocorre poucas semanas depois que a a TAM Linhas aéreas, subsidiária integral da Latam Airlines decidiu fechar o capital da sua operadora de programa de fidelidade Multiplus.

Apesar disso, analistas ouvidos por EXAME duvidavam que o mesmo poderia acontecer com a Smiles. Ainda que as duas fossem empresas de fidelidade controladas por companhias aéreas, elas operavam com estratégias e resultados diferentes.

A Multiplus já vinha perdendo mercado, principalmente para a concorrente, e reportava resultados negativos. Já a Smiles crescia a passos largos e tinha planos de dobrar de tamanho em cinco anos. Com foco em viagens e parcerias para resgate de milhas em hotéis, aluguel de carro, Uber e passeios, gerava valor para o viajante e para o acionista.

Além da surpresa, analistas e investidores também ficaram apreensivos com a falta de informações sobre a operação. Uma das propostas é a troca de ações da Smiles por papéis da Gol, mas a empresa não divulgou qual seria a proporção nem o valor que seria levado em consideração. "O valor será dado por uma avaliação independente, mas não sabemos se irão considerar o valor de antes do anúncio ou após ele", diz Bruna Pezzin, analista da XP Investimentos.

Os papéis da Smiles chegaram a registrar queda de mais de 34%. Já as ações da Gol operaram em alta de 6,20% na bolsa paulista.

Com tantas incertezas, para Roberto Chade, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Fidelização (Abemf), uma coisa é certa. Não importa quem é acionista controlador das empresas, o mercado de fidelização deve continuar crescendo.

As empresas associadas tiveram aumento de 9,8% no faturamento no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2017. Há cada vez mais espaço para novas companhias no setor, na medida em que chegam novos consumidores e novas empresas parceiras, para acumular ou resgatar os pontos.

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