O que deu errado com o Figueirense, o clube-empresa falido

Caso do time catarinense que virou empresa em 2017 traz à tona controvérsias no projeto de clube-empresa que vem sendo discutido no Congresso

Em agosto de 2017, a holding de investimentos Elephant assinou com o Figueirense, clube de futebol de Santa Catarina, um contrato que transformaria o futebol do time em uma empresa de sociedade limitada. Deu tudo errado. O contrato era de 20 anos, mas terminou na última sexta-feira 20 com o Figueirense quase deixando de disputar o Campeonato Brasileiro.

A história levantou ressalvas sobre um projeto de lei, a ser apresentado no Congresso, que poderia incentivar os times a virar um “clube-empresa”, como fez o Figueirense. O projeto ainda não foi oficialmente finalizado e vem sendo redigido pelo deputado Pedro Paulo (DEM-RJ), a pedido do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Com a proposta, os times deixariam de ser associações sem fins lucrativos, e passariam a ser tratados pela lei como empresas, pagando mais impostos e, inclusive, estando passíveis de falência. Catorze dos 20 clubes da série A se mostraram interessados no formato, segundo um levantamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo. Seria, na teoria, uma forma de modernizar a gestão dos alquebrados times brasileiros.

Mas o medo passou a ser que clubes que optem pelo modelo corram o risco de “virar o Figueirense”, como afirmou nesta terça-feira 24 o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez. Como qualquer companhia mal gerida, um clube-empresa pode quebrar — quando isso acontece no meio de um campeonato, como mostra o caso do clube catarinense, o caos está montado.

A nova era começou promissora, com o time sendo campeão catarinense em 2018. Mas após dois anos sob o comando da Elephant, a empresa Figueirense Ltda atrasou salários, não pagou comida e transporte para categorias de base e teve jogadores rescindindo contrato por meio da Justiça do Trabalho. O ápice da crise foi quando o elenco se recusou a entrar em campo em partida contra o Cuiabá, no mês passado.

Após o rompimento do contrato, o novo presidente do Figueirense, Chiquinho de Assis, acusa o ex-presidente Claudio Honigman, também presidente da Elephant, de ter sacado dinheiros dos cofres do clube. O executivo é ainda investigado por receber dinheiro de uma consultoria ligada ao doleiro Alberto Youssef e de estar ligado a cartolas como Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que renunciou por acusações de corrupção.

Novamente controlado pela associação, o Figueirense conseguiu reverter junto à CBF o pedido para sair do Brasileirão feito pela Elephant no início desta semana. No fim, o time fica no torneio, mas na lanterna da série B. Há 15 jogos sem vitória, a equipe catarinense voltou a perder na terça-feira 24 para o Bragantino, por 3×0 — na primeira partida sem a Elephant, mais de 12.000 torcedores foram ao estádio Orlando Scarpelli para apoiar o time.

O diabo está nos detalhes

O clube catarinense foi dividido em dois, um braço empresarial para o futebol, no qual a Elephant era dona de 95%, e uma associação sem fins lucrativos para o restante. Fontes próximas às negociações afirmam que o contrato do Figueirense e o acerto entre as partes foi feito sem muitas garantias ao clube, o que originou a má gestão e a irresponsabilidade da Elephant.

A dúvida está em como impedir que isso siga acontecendo com outros clubes que optarem pelo modelo de empresa. A proposta de incentivos para os clubes-empresa no Congresso ainda vem sendo discutida e alterada — o texto está em sua nona versão, segundo afirmou o deputado Pedro Paulo.

O ponto mais polêmico e decisivo é a carga tributária para os novos clube-empresa. Atualmente, como associações sem fins lucrativos, os clubes pagam menos impostos. Se virassem empresas, teriam carga mais alta. “Não faria sentido colocar dois clubes com carga diferente disputando partida um contra o outro”, diz Pedro Daniel, diretor-executivo da consultoria EY e que participa do grupo de trabalho que analisa o futuro projeto de lei em Brasília.

Para convencer os clubes a sair do confortável formato de associação, o governo também ofereceria possibilidades de renegociação de dívidas — juntos, os 20 maiores times do Brasil fecharam 2018 com 6,9 bilhões de reais em dívidas, segundo a consultoria de marketing esportivo Sports Value. Outro ponto do projeto inclui ainda a possibilidade de o clube entrar em recuperação judicial logo após fazer a transição para o modelo empresarial, o que pode ser necessário a algumas equipes no vermelho (a empresas comuns, o período mínimo antes de pedir recuperação é de dois anos de operação).

Críticos ao projeto afirmam que a pressa com que o texto vem sendo debatido no Congresso é uma tentativa do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de salvar o Botafogo, seu clube do coração e o time mais endividado do Brasil, com 730,6 milhões de reais em dívidas no ano passado. No Botafogo carioca, um estudo encomendado para o clube pelos irmãos João e Walter Moreira Salles junto à consultoria Ernst & Young também ajuda a avançar as discussões para transformar o futebol do alvinegro em empresa ainda neste ano.

No estado vizinho, em São Paulo, outro Botafogo, o da cidade de Ribeirão Preto (SP), é visto como um caso de sucesso no modelo clube-empresa. Um total de 40% das ações do clube foram compradas em 2018 pela empresa de investimento Trexx Holding, encabeçada pelo ex-diretor de futebol do São Paulo, Adalberto Baptista. A empresa aplicou 8 milhões de reais no time, que é gerido por um conselho e subiu da série C para a série B no ano passado. O Botafogo-SP é uma Sociedade Anônima, e planeja abrir capital na bolsa.

Outro time que virou empresa foi o Bragantino (SP), também do interior de São Paulo, que, ao contrário do Botafogo-SP, é administrada em sociedade limitada pela fabricante de bebidas Red Bull — que tem também outros times pelo mundo, como o New York Red Bull (EUA) e o Leipzig (ALE).

Estão entre os clubes grandes interessados no modelo o Athletico Paranaense e o São Paulo. “Por ora, clubes menores tendem a fazer a transição primeiro, porque têm menos a perder. Os grandes vão observar e esperar o que acontece”, diz Daniel, da EY.

Clubes brasileiros já podem trocar o modelo de associação civil por empresa com fins lucrativos desde 1993, quando foi instituída a Lei Zico. A Lei Pelé (ou Lei Geral do Desporto), de 1988, também traz essa possibilidade. O que muda no novo projeto do Congresso são os eventuais incentivos aos clubes para que isso aconteça. A Constituição de 1988 aponta ainda que as entidades esportivas têm autonomia financeira, de modo que uma lei que não alterasse a Constituição não poderia obrigar os clubes a mudar de formato.

Quem paga a conta?

Do ponto de vista do Estado, ter clubes virando empresas faria, na teoria, o governo arrecadar mais impostos. Além disso, ao se tornarem Sociedades Limitadas ou Sociedades Anônimas (que podem até mesmo abrir capital na bolsa), aos clubes-empresa seriam exigidas regras mais rígidas de transparência e fiscalização de gastos, alguns com conselhos fiscais e de administração. Defensores do modelo afirmam que, seguindo essas regras, clubes também teriam mais facilidade em atrair investimentos e emprestar dinheiro de bancos.

Na prática, como visto com o Figueirense, corre-se um risco de que o investidor abandone a operação, deixando as dívidas — incluindo as tributárias — sem dono. No caso do Figueirense, por exemplo, a responsabilidade pelo pagamento de dívidas dos últimos dois anos é da Elephant ou do que sobrou do clube? As discussões, por ora, ainda não deixam muito claro quem vai pagar a conta — ou se vai.

“Para um clube empresa, tem de deixar o coração de lado. A Fiorentina, na Itália, faliu e depois voltou para a série D”, diz o advogado Eduardo Carlezzo, sócio do escritório Carlezzo Advogados e especialista em direito de clubes de futebol.

Carlezzo afirma que é preciso que o contrato entre o clube e o controlador seja bem feito, de modo que quem decidir comprar uma parcela do time coloque dinheiro e melhore a gestão. “Mas, de fato, nada garante que o time não vá ter uma crise financeira. É o risco que se corre.”

A falta dessa garantia e da confiança de que os potenciais investidores não serão aventureiros de passagem deixa os torcedores ressabiados. Amir Somoggi, sócio da Sports Value, também defende o formato de clube-empresa, mas em um modelo em que a Associação continue sendo dona do clube e tenha apenas sócios minoritários. O modelo é similar ao que é praticado na Alemanha e diferente da proposta do Congresso, onde um investidor poderia tornar-se controlador do clube-empresa.

Em clubes como o Bayern de Munique, o time também virou uma empresa, mas com o clube ainda controlando 51% do patrimônio e empresas como Adidas, Allianz e Audi como minoritárias e com cadeiras no conselho de administração. “O Itaú ou a Nike, por exemplo, não vão querer comprar o Corinthians ou o São Paulo, mas poderiam ter uma cadeira no conselho, ajudar a melhorar a administração e, depois, ganhar com lucros e dividendos”, diz Somoggi. “É diferente de pegar o clube e vender o controle para um investidor árabe, como o projeto do Congresso quer fazer.”

Casos de investidores passando a mandar em clubes — ainda que não como controladores — já ocorreram no Brasil, a maioria nos anos 1990 ou 2000. Um dos mais recentes foi a parceria do Corinthians com o fundo de investimentos Media Sports Investment (MSI), que deu ao fundo o controle do departamento de futebol. A gestão MSI levou o time paulista ao título brasileiro de 2005, mas também à segunda divisão dois anos depois, já com a parceria desfeita.

Outras parcerias, com maior ou menor grau de controle, foram ISL com Flamengo e Grêmio, Hicks Muse com Corinthians e Cruzeiro, Banco Excel com América-MG, Botafogo, Corinthians e Vitória e Parmalat com Palmeiras, Paulista de Jundiaí e Juventude. Os acordos levaram os times a montar bons elencos e, em alguns casos, conquistar títulos. Mas a saída ou mesmo falência das empresas investidoras deixaram boa parte desses clubes em situação financeira ruim anos depois.

O modelo europeu

Na Itália, dois exemplos opostos mostram tudo o que pode dar certo e errado no modelo de clube-empresa. A Juventus, de Turim, tem hoje capital aberto na bolsa, o que exige o mais alto grau de governança possível. Com seu bom faturamento, trouxe o português Cristiano Ronaldo e sagrou-se na temporada 2018/2019 campeã italiana pela oitava vez consecutiva.

Contudo, a alguns quilômetros de distância, em Milão, o Milan teve 99% de sua participação comprada do ex-premiê italiano Silvio Berlusconi, dono do time desde a década de 1980. O clube foi adquirido pelo fundo chinês Rossoneri Sport Investment Lux por 740 milhões de euros. Mas, um ano depois, os chineses não conseguiram pagar 32 milhões de euros que devia ao fundo americano Elliott, que acabou ficando com o controle do Milan. O time, outrora um dos mais competitivos da Europa, amarga hoje apenas a 11ª colocação do campeonato italiano.

Exemplos de clube empresa, com diferentes modelos de sociedade, estão por toda a Europa. Um grupo de investidores é dono do Atlético de Madrid, na Espanha (enquanto times como Barcelona e Real Madrid seguem sendo associações). O grupo City Football Group, controlado por um sheik

membro da família real dos Emirados Árabes, despeja caminhões de dinheiro em times até então com pouca tradição, como o Manchester City (ING), e o New York City FC (EUA).

Em 2003, o bilionário russo Roman Abramovich comprou o Chelsea (ING) e o transformou em um dos maiores times da liga inglesa. O grupo Oryx Qatar Sports Investments, do bilionário Nasser Al-Khelaifi, do Qatar, é dono do francês Paris Saint-Germain desde 2011 — e foi responsável pela contratação mais cara da história, a do brasileiro Neymar, por 222 milhões de euros.

“Não dá para pegar histórias bem-sucedidas de clube-empresa no futebol europeu e automaticamente transportar para o Brasil. Não é mudar o modelo de clube que vai automaticamente melhorar a gestão”, diz Somoggi.

Só empresa não combate má gestão

Uma unanimidade entre os especialistas é que os clubes brasileiros, embora sem a amplitude dos europeus (que têm torcedores em todo o mundo), precisam fazer com que suas torcidas se convertam em dinheiro, por meio de ações de marketing, bilheteria, programas de sócio-torcedor e patrocínios. A receita dos clubes brasileiros ainda é altamente dependente de cotas de televisão e venda de jogadores.

Um estudo da Sports Value mostrou que só 1,6% dos 67,7 bilhões de reais que o brasileiro gastou com entretenimento foi direcionado ao futebol. O Corinthians, maior clube do Brasil e segunda maior torcida, faturou no ano apenas 3,89 reais por torcedor, menor receita por pessoa entre os 20 maiores clubes, segundo o estudo. O Flamengo, que tem a maior torcida, também teve o terceiro menor faturamento. No ano passado, a TV representou quase 40% da receita dos 20 maiores times, e os torcedores geraram diretamente apenas 21% da receita.

Um potencial controlador interessado nos clubes brasileiros precisa fazer esse bolo crescer. A saída para aumentar a receita é diferente da aplicada em grandes empresas — já que ganhar títulos não necessariamente traz mais retorno financeiro. A maior premiação brasileira no ano, a Copa do Brasil, pagou ao campeão Athletico Paranaense 67 milhões de reais, ante 33 milhões do Campeonato Brasileiro e 12 milhões de dólares da Libertadores (cerca de 50 milhões de reais).

Ganhar um título, caso não sejam feitas boas ações de marketing e patrocínio, pode gerar menos retorno do que vender a estrela do time. A venda de Neymar para o Barcelona em 2013, sozinha, valeu ao Santos 57 milhões de euros.

Clube existe para ganhar títulos; empresas, para dar retorno financeiro a seus acionistas — mas também para melhorar suas comunidades. Seja como sociedade ou como empresa, os clubes bem-sucedidos serão aqueles que pensem, antes de tudo, em seus torcedores e jogadores. Não é, definitivamente, o caso do Figueirense.

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