Negócios

Eletrobrás estuda 30 projetos em 16 países

Foco da estatal é na América Latina, com 23 empreendimentos estimados em 5,5 bilhões de dólares

Itaipu: a hidrelétrica que tem participação nacional e paraguaia é um dos grandes projetos da Eletrobrás (.)

Itaipu: a hidrelétrica que tem participação nacional e paraguaia é um dos grandes projetos da Eletrobrás (.)

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Da Redação

Publicado em 10 de outubro de 2010 às 04h11.

São Paulo - Maior empresa da América Latina do setor de energia, a Eletrobrás dá seus primeiros passos para a internacionalização. A estatal fechou, em março, o primeiro contrato internacional com o Uruguai para a construção de uma linha de transmissão de energia de 500 quilômetros orçada em 270 milhões de dólares, com início de operações previsto para 2013. Mas isso é apenas o começo.

A internacionalização da estatal começou a ser traçada em 2008, quando uma mudança na lei 11.651 permitiu que a empresa expandisse seus negócios além das fronteiras brasileiras. Desde então, a companhia já avaliou 100 projetos em 36 países. Hoje esse número caiu para 30 projetos em 16 países, com foco principal na América Latina, onde há 23 projetos em estudo (confira os principais projetos na América Latina). "Queremos negócios de maior rentabilidade, que tragam valor aos nossos acionistas", disse ao site EXAME Sinval Gama, diretor de operações no exterior da Eletrobrás.

Essa expansão fez a estatal figurar pela primeira vez no ranking das empresas brasileiras mais internacionalizadas, elaborado pela Fundação Dom Cabral. Na época da divulgação do estudo, em junho, ela aparecia na 40ª posição, resultado dos funcionários que trabalhavam no exterior. Hoje são cinco no Uruguai, Peru, Nicarágua, Panamá e Argentina. "É um encaminhamento natural para estratégia de expansão de negócios de qualquer companhia", afirma Sherban Leonardo Cretoiu, gerente do projeto de internacionalização da Fundação Dom Cabral. "O foco na América Latina é sempre melhor por se tratar de uma região com proximidade geográfica e cultural. Há também muitas outras empresas brasileiras por lá."

Como bancar as obras
De todos os projetos da Eletrobrás, em construção há apenas a linha de transmissão no Uruguai, mas os empreendimentos em estudo somam cerca de 5,5 bilhões de dólares -- as cifras podem ser maiores, já que alguns projetos ainda não tiveram seu valor estimado. Para erguer obras de grande porte em outros países, é claro, pesados investimentos são necessários. A situação da Eletrobrás é mais tranquila hoje em dia. No primeiro trimestre do ano, a empresa registrou lucro líquido de 519,8 milhões de reais, um avanço de 413% sobre os 101,3 milhões de reais apurados no mesmo período do ano passado.

O resultado financeiro da estatal foi positivo em 348,1 milhões de reais ante perda de 359 milhões de reais um ano antes. A companhia informou ter registrado receita líquida de variação cambial de 214,54 milhões de reais no primeiro trimestre do ano, revertendo o resultado negativo de 125,46 milhões um ano antes. "A desvalorização do real em relação ao dólar americano e o fato de a Eletrobrás deter relevante parcela de seus recebíveis indexados a moedas estrangeiras, principalmente ao dólar americano, produziram efeito positivo no resultado da companhia no primeiro trimestre de 2010", afirmou a Eletrobrás em comunicado.

Segundo a companhia, o resultado foi influenciado por perdas referentes ao reconhecimento do efeito da inflação americana, medida pelos índices de produção industrial e de preços aos consumidor, que incidem sobre a comercialização da energia da Itaipu Binacional e que impactaram de forma negativa o resultado do trimestre em 581 milhões de reais. A companhia informou também que suas receitas operacionais atingiram 4,124 milhões de reais entre janeiro e março, queda de 32,2% sobre igual intervalo do ano passado.


Apesar da boa saúde financeira da empresa, o que possibilita tamanha variedade de empreendimentos são os chamados project finance -- investimentos apoiados em receitas futuras da obra que garantem o pagamento do crédito dos bancos e a remuneração dos investidores. Obras públicas de infraestrutura são o principal foco dessa forma de financiamento, baseado na receita futura que determinado empreendimento poderá gerar, atraindo assim mais investidores. Como tais projetos têm alto risco, eles exigem que os investidores contratem seguro. Além disso, a companhia se beneficia dos empréstimos feitos com o BNDES.

Viés político?
Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, é preciso avaliar o momento certo para expandir as fronteiras. "O Brasil tem uma demanda de energia muito grande. Neste momento, o projeto de internacionalização da Eletrobrás tem um viés político para tornar o Brasil mais influente na América Latina, não acredito que vá beneficiar o consumidor", diz ele. "É preciso ter uma coordenação com o projeto interno. Como reverter a energia para o país e quanto isso pode custar?" Para Sinval Gama, da Eletrobrás, a crítica não procede: "Não vamos deixar de fazer um projeto no Brasil para investir no exterior".

Para Adriano, essa coordenação entre os investimentos internos e externos deve ser levada a sério para evitar problemas como a ruptura no fornecimento de gás natural da Bolívia, em 2008, e como a atual renegociação de contrato da usina de Itaipu, que vem gerando dores de cabeça para o governo brasileiro.

A meta da Eletrobrás é ter 10% das receitas vindas do exterior até 2020. Isso reforça que a prioridade da estatal é o mercado interno, com projetos grandiosos como a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que será a terceira maior do mundo. A internacionalização é uma maneira de melhorar as margens da empresa e garantir futuros investimentos. "Vimos que as 10 maiores empresas de energia tiveram melhoria de negócios ao buscar estratégias fora de seus países de origem", afirma Sinval.

A Petrobras, atuante no mercado internacional desde 1972, é um dos exemplos de empresa estatal internacionalizada que a Eletrobrás segue -- e pretende ultrapassá-la. Hoje, a estatal de energia é dona de 38% da capacidade de geração e de mais da metade da rede de linhas de transmissão de energia. O presidente Lula já declarou que pretende transformá-la numa Petrobras do setor elétrico. "Queremos ser maior do que a Petrobras", diz Sinval.


Confira os principais projetos em estudo da Eletrobrás na América Latina:

Uruguai
O que é o projeto: linha de transmissão de energia de 500 quilômetros
Em que fase está: em construção desde janeiro
Valor da obra: 270 milhões de dólares
Parceiro: a estatal UTE
Prazo: 2013

Argentina
O que é o projeto: duas hidrelétricas binacionais com capacidade de 2.000 MW na fronteira
Em que fase está: análise de características do projeto
Valor da obra: não calculado
Parceiro: a estatal Ebisa
Prazo: indefinido

Peru
O que é o projeto: cinco usinas hidrelétricas
Em que fase está: estudos de viabilidade devem ser concluído até o final do ano
Valor da obra: não calculado
Parceiros: Inambari (Eletrobrás, Furnas e OAS), Paquitztapango (Engevix)
Tambo 40 (Andrade Gutierrez), Tambo 60 (Eletrobrás), Mainique (Odebrecht)
Prazo: indefinido

Colômbia
O que é o projeto: uma usina hidrelétrica com capacidade de 2.300 MW
Em que fase está: a empresa espera a decisão do governo colombiano sobre a empresa que terá a concessão. Há 7 companhias: uma colombiana, uma chinesa, uma coreana e quatro brasileiras. A decisão deve ser tomada em agosto
Valor da obra: 3 bilhões de dólares
Parceiro: indefinido
Prazo: 2017

Venezuela
O que é o projeto: construção de uma linha de transmissão de energia de 1.000 km de extensão
Em que fase está: parado
Valor da obra: não calculado
Parceiro: indefinido
Prazo: indefinido

Guiana
O que é o projeto: uma usina hidrelétrica de 1.200 MW para atendimento ao mercado local e exportação de excedente
Em que fase está: estudos de viabilidade
Valor da obra: não calculado
Parceiro: Andrade Gutierrez
Prazo: os primeiros estudos estarão prontos no primeiro semestre de 2011

Costa Rica
O que é o projeto: duas usinas hidrelétricas de 230 MW e 500 MW
Em que fase está: os estudos deverão ser concluídos em 2010
Valor da obra: 900 milhões de dólares
Parceiro: a estatal ICE
Prazo: 2014, caso os estudos sejam aprovados

Nicarágua
O que é o projeto: duas usinas hidrelétricas com capacidade de 250 MW e 500 MW
Em que fase está: a análise da viabilidade técnica e ambiental dos projetos será concluída em setembro
Valor da obra: 700 milhões de dólares
Parceiro: Queiroz Galvão
Prazo: indefinido

El Salvador
O que é o projeto: uma usina hidrelétrica com capacidade de 230 MW
Em que fase está: análise do projeto será concluída em seis meses
Valor da obra: 700 milhões de dólares
Parceiro: a estatal ENE
Prazo: indefinido

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