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Regra nº 1 para a balada em Caracas: nunca após o anoitecer

Durante anos, Caracas se iluminava após o Sol se pôr. Mas agora, por causa de tiroteios e sequestros, os clientes começam a ficar nervosos a partir das 18h

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	Vista de um bairro de Caracas, Venezuela: empresas estão reduzindo os horários e recebendo os clientes mais cedo
 (Juan Barreto/AFP)

Vista de um bairro de Caracas, Venezuela: empresas estão reduzindo os horários e recebendo os clientes mais cedo (Juan Barreto/AFP)

A
Andrew Rosati

Publicado em 12 de junho de 2015 às, 19h59.

Durante anos, em Caracas, como na maioria das cidades, o sol se punha antes dos bares se iluminarem. Isso mudou. Se você passar no La Cita, um pub de estilo espanhol perto do coração do centro, vai encontrar clientes como Freddy Barraiz, um honrado médico de 64 anos, entornando taças de vinho em plena luz do dia.

“Parece uma corrida contra o tempo”, disse Barraiz. “Às 18h00, você começa a ficar nervoso”.

Como quase todos os dias há tiroteios e sequestros nesta cidade antigamente famosa por ter uma vida noturna animada, as multidões em restaurantes e boates ficam esparsas quando a noite cai.

As empresas estão reduzindo os horários e recebendo os clientes mais cedo.

“É o horário de almoço que está nos mantendo”, lamentou o proprietário de La Cita, Javier López.

Sempre houve crime na Venezuela. No entanto, os problemas de longa data em relação ao cumprimento da lei foram exacerbados pelas políticas erráticas do falecido Hugo Chávez, que favoreceu a força militar em detrimento do policiamento tradicional.

Como soldados não têm muito treinamento em controle da delinquência, houve uma explosão de crimes quando a economia implodiu e as tensões políticas vieram à tona.

“O Estado implementou uma receita perfeita para gerar o caos”, disse Verónica Zubillaga, socióloga da Universidade Simón Bolívar, em Caracas.

A dependência das forças armadas, disse ela, minou a polícia e levou infratores calejados para prisões lotadas, que acabam sendo escolas de criminalidade.

É comum ver patrulhas de membros da Guarda Nacional fortemente armados pela cidade.

Embora o governo, que agora é comandado pelo sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, não tenha publicado estatísticas abrangentes sobre o crime em mais de 10 anos, estima-se que os assassinatos tenham quadruplicado nos últimos 16 anos, de acordo com o Observatório Venezuelano da Violência (OVV), uma organização sem fins lucrativos.

Toque de recolher autoimposto

O aumento da taxa de criminalidade – que agora é uma das mais altas do mundo – não está afetando apenas os farristas que ficam até tarde no centro da cidade, lugar frequentado pela classe trabalhadora e onde o La Cita está localizado, mas também nas regiões mais ricas que ficam no leste de Caracas.

Um estudo conjunto publicado neste ano por três universidades de Caracas identificou que esses temores já extrapolaram os limites da capital e afetam muitas pessoas.

De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Qualidade de Vida de 2014, que entrevistou quase 1.500 famílias, 62 por cento dos participantes disseram que tinham diminuído recentemente suas atividades de lazer por causa do medo da insegurança. Além disso, 43 por cento disseram ter reduzido o trabalho ou os estudos.

Um número cada vez maior de empresas e instituições está aderindo a um toque de recolher autoimposto: a Universidade Central da Venezuela, uma das maiores do país, mudou o horário de várias de suas aulas noturnas para que elas terminem antes das 20h00.

As pessoas que precisam dirigir à noite saem em caravanas.

Quem está na casa de um amigo ou parente depois que escurece prefere passar a noite lá a voltar para casa.

“As pessoas se sentem completamente indefesas”, disse Roberto Briceño-León, diretor do OVV, que elaborou a pesquisa. “Elas sentem que não existe a possibilidade de estarem protegidas – que foram abandonadas aos bárbaros”.

Medo de sequestro

O OVV detalhou quase 25.000 assassinatos no ano passado, cerca de 82 mortes violentas a cada 100.000 habitantes, o que confere à Venezuela a segunda taxa de homicídios mais alta do mundo, depois de Honduras.

No entanto, os venezuelanos não estão saindo de casa mais por medo de serem sequestrados do que pelo temor a acabar em meio a um fogo cruzado, diz Briceño-León.

Alguns lugares estão resistindo. Ainda é possível escutar sons de salsa e reggaeton pelas ruas de Las Mercedes, um barulhento bairro de boates em Caracas.

Mas muitas discotecas fecharam as portas, disse Marco Santos, 32, DJ e promoter de shows que trabalha no bar La Quinta.

E, embora os três andares do La Quinta continuem lotando nas noites de sexta-feira, pelo menos por enquanto, talvez isso não dure muito. No mês passado, o bar começou a oferecer uma opção de matinê.

“Há dez anos, isso era inconcebível”, disse Santos.

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