Mundo

Partido Conservador francês propõe aliança com extrema direita para eleições no Parlamento

Líder d'Os Republicanos afirma que pacto com Reagrupo Nacional ajudaria a 'manter os deputados' frente à baixa projetada nas pesquisas, mas encontra resistência interna

Um manifestante segura um cartaz que diz 'Vergonha! Todos às urnas em 30 de junho' durante uma manifestação contra o partido francês de extrema direita 'Rassemblement National' (RN) em Marselha, sul da França.  (Nicolas TUCAT/AFP)

Um manifestante segura um cartaz que diz 'Vergonha! Todos às urnas em 30 de junho' durante uma manifestação contra o partido francês de extrema direita 'Rassemblement National' (RN) em Marselha, sul da França. (Nicolas TUCAT/AFP)

AFP
AFP

Agência de notícias

Publicado em 11 de junho de 2024 às 15h36.

A cinco dias do fim do prazo para o registro de candidaturas, os conservadores fizeram um aceno à extrema-direita. O presidente d'Os Republicanos (LR, na sigla em francês) instou, nesta terça-feira, uma "aliança" com o Reagrupamento Nacional (RN), que saiu vitorioso das eleições para o Parlamento Europeu no domingo.

Apesar da rejeição de uma parte do LR ao acordo, Éric Ciotti afirmou que a união com o grupo encabeçado por Marine Le Pen permitiria aos Republicanos "manter os deputados" nas eleições antecipadas para o Parlamento, dissolvido pelo presidente Emmanuel Macron após a derrota para a extrema direita. Macron, cuja decisão pegou analistas e líderes políticos de surpresa, afirmou que não renunciará "seja qual for o resultado". Ele adiou para quarta uma entrevista coletiva sobre o pleito.

— Precisamos de uma aliança com o Reagrupamento Nacional, [mas] sem deixarmos de ser nós mesmos — disse Ciotti à emissora TF1.

Os Republicanos são um partido tradicional de direita que governaram no passado sob os presidentes Jacques Chirac (1995-2007), falecido em 2019, e Nicolas Sarkozy (2007-12), condenado por financiamento ilegal de campanha. Ciotti, que já conversou com Le Pen e o líder de extrema direita Jordan Bardella, justificou a aliança proposta com o argumento de que os conservadores partilhavam com o Reagrupamento Nacional uma visão conjunta dos "valores de direita" e de que permitiria manter o número de assentos no Parlamento, ante a queda projetada pelas pesquisas.

O gesto foi saudado por Le Pen, que elogiou a "escolha corajosa" e o sentido de responsabilidade" de Ciotti. À AFP, ela também disse esperar que "um número significativo de dirigentes do LR o siga" na decisão. Se o acordo for selado, será o primeiro no país entre a direita e a extrema-direita e confirmará o fim do tradicional “cordão sanitário” para o RN, herdeiro da Frente Nacional (FN) do veterano Jean-Marie Le Pen e pai de Marine, conhecido por suas declarações racistas.

Internamente, o anúncio de Ciotti encontrou resistência e deixou o partido em polvorosa. O líder d'Os Republicanos no Senado, Bruno Retailleau qualificou a proposta do presidente de Ciotti de "pessoal".

— [Ciotti] mentiu para nós — afirmou Retailleau. — Isso é deslealdade. É uma falha em ser honesto.

O presidente do Senado e figura de peso no LR, Gérard Larcher, e o líder do partido na Assembleia Nacional (Câmara Baixa), Olivier Marleix, pediram sua renúncia. Larcher afirmou que "nunca engoliria" um acordo com o Reagrupamento Nacional. Em entrevista, Ciotti afirmou posteriormente que não renunciará e enfatizou que seu mandato dependia de militantes do partido.

O ministro do Interior, Gérald Darmanin, que deixou LR no passado para se juntar às fileiras de Macron, denunciou Ciotti por ter “desonrado” o seu partido ao assinar o que chamou de “os acordos de Munique”, em referência ao tratado de 1938 entre a Alemanha nazista, a Itália fascista, a França e o Reino Unido, que lhe permitiu anexar a região dos Sudetas da Checoslováquia.

'Lugar do presidente é claro'

A dissolução do Parlamento por Macron, que antecipou as eleições previstas até então para 2027, primeiro e segundo turno, respectivamente, suscitou dúvidas quanto a estratégia desenhada pelo presidente. Análises mais frias apontam para um cálculo em que Macron vislumbra uma derrota contida e calculada, menos acachapante, enquanto outras, mais otimistas, apontam para a aposta de uma vitória ampla e a consequente ampliação do seu grupo político na Assembleia Nacional, em que já detém o maior número de cadeiras de um único partido.

Há também a mais pessimista, na qual alguns acreditam que Macron será, sim, derrotado, mas que a ideia seria oferecer ao eleitorado um vislumbre até 2027, ano em que ocorrerão as eleições para presidente, do que seria um governo liderado pela extrema direita. O presidente, já reeleito em 2002, não poderá concorrer novamente ao cargo.

De qualquer forma, nesses cálculos, os fatores não alteram o produto: Macron anunciou que não renunciará, independente do resultado nas urnas.

— As instituições são claras e o lugar do presidente também, seja qual for o resultado — disse à revista Figaro Magazine ao ser questionado sobre o risco do Reagrupamento Nacional pedir sua renúncia após as eleições.

Nesse cenário, o presidente corre o risco de dividir o poder com um governo de outra tendência política, em uma "coabitação". Macron adiou uma entrevista coletiva marcada nesta terça-feira para quarta com o objetivo de expor o que considera ser o "rumo" para a França e aparecer como a opção moderada contra as "forças extremistas", indicou uma fonte próxima do presidente.

O presidente, que chegou ao poder em 2017 com um discurso de centro, atraiu os descontentes com a tradicional alternância de poder entre socialistas e conservadores. Desde então, Macron tenta estabelecer distância dos "extremos" que seriam representados, em sua opinião, pelo RN — que obteve 31,37% dos votos nas eleições europeias, muito à frente da coalizão governista (14,60%) — e França Insubmissa (LFI, na sigla em francês), a esquerda radical.

Apesar da queda de popularidade do presidente de centro, cujos mandatos são marcados por fortes protestos sociais como os dos "coletes amarelos" contra um imposto sobre combustíveis ou contra a reforma previdenciária, o partido governista tenta resgatar o seu espírito inicial.

No domingo, o chanceler Stéphane Séjourné já tinha anunciado que não apresentaria candidatos nos círculos eleitorais dos deputados cessantes do “campo republicano” e que estes se “empenhariam em um projeto claro” com o partido no poder, numa mensagem velada aos socialistas e conservadores.

Frente popular

Enquanto algumas alianças são costuradas para vencer a coalização de centro de Macron, outros partidos finalizam acordos para tentar travar o avanço da extrema direita no país. Após várias horas de negociações, socialistas, comunistas, ecologistas e a LFI concordaram na segunda-feira em apresentar "candidaturas únicas" nas eleições previstas para 30 de junho e 7 de julho, apesar da mudança de equilíbrio após as eleições europeias, com os socialistas à frente do França Insubmissa.

A esquerda, reunida então no bloco Nupes (Nova União Popular Ecológica e Social) após as eleições presidencial e legislativas de 2022, havia rompido por divergências entre a ala social-democrata e a ala radical. "Pedimos a constituição de uma nova frente popular que reúna, de forma inédita, todas as forças de esquerda humanistas, sindicais, associativas e cidadãs", afirma um comunicado conjunto publicado após a reunião em Paris.

Centenas de jovens permaneceram do lado de fora do local da reunião para pressionar por um acordo. O jornal de esquerda Libération defendeu a criação de uma "Frente Popular", com um apelo à "responsabilidade histórica" da esquerda para "impedir a chegada da extrema direita ao poder".

O resultado das eleições europeias provocou alerta na França, com o risco de avanço da extrema direita, e também na Europa: Paris é um ator fundamental na União Europeia e no apoio à Ucrânia contra a invasão da Rússia de Vladimir Putin.

Acompanhe tudo sobre:Emmanuel MacronFrança

Mais de Mundo

Dólar blue bate recorde na Argentina e chega a 1.300 pesos

Quem é Hunter Biden? Filho do presidente dos EUA foi condenado por porte ilegal de arma

Filho de Biden é condenado por porte ilegal de arma

Eleições europeias fortaleceram Von der Leyen, mas tarefa ainda não está concluída

Mais na Exame