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O que esperar das eleições legislativas nos EUA — e por que importam para o mundo

Partido Republicano é favorito para conquistar maioria em eleições legislativas nos EUA, um desafio para o restante do governo Biden

Biden: presidente americano tem derrota praticamente certa na Câmara e risco alto no Senado (Alex Wong/Getty Images)

Biden: presidente americano tem derrota praticamente certa na Câmara e risco alto no Senado (Alex Wong/Getty Images)

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Carolina Riveira

Publicado em 8 de novembro de 2022, 00h30.

Eleitores nos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira, 8 de novembro, para as chamadas midterms, eleições de meio de mandato. No pleito, toda a Câmara e um terço do Senado se renovam.

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Neste ano, as pesquisas mostram que o Partido Republicano é favorito para obter a maioria das cadeiras nas duas casas. O resultado, se confirmado, configura uma derrota para o Partido Democrata, do atual presidente, Joe Biden, e que hoje possui maioria estreita.

É comum que o presidente no cargo perca cadeiras nas midterms: o partido no poder historicamente perde em média 26 cadeiras na Câmara e quatro no Senado, segundo levantamento do banco UBS. Mas uma derrota democrata muito ampla pode dificultar ainda mais a vida do governo Biden até 2024 e impactar o próximo pleito presidencial.

Veja abaixo os principais destaques sobre as midterms americanas, e por que podem definir pontos-chave nos EUA e no resto do mundo.

O que são as midterms americanas

São eleitos nas eleições de meio de mandato nos EUA:

  • Todas as 435 cadeiras na Câmara;
  • Cerca de um terço das cadeiras no Senado, que tem 100 vagas. Neste ano, serão 34 senadores eleitos.

As midterms são assim chamadas porque ocorrem quase na metade do mandato do presidente dos EUA. Joe Biden, por exemplo, foi eleito em novembro de 2020 e tomou posse em 2021.

Biden, Kamala Harris e Nancy Pelosi (presidente da Câmara), no início do mandato em 2021: popularidade dos democratas em baixa (Michael Reynolds/Pool/Reuters)

As eleições de meio de mandato não são as únicas legislativas, no entanto. Os Estados Unidos escolhem deputados e parte dos senadores a cada dois anos (e não a cada quatro, como no Brasil). Na mesma eleição de 2020 em que Biden foi eleito, os americanos já votaram para deputados e para o restante do Senado.

Em alguns estados, também há eleição para governador nas midterms, além de outras votações locais. Neste ano, 39 estados ou territórios americanos elegerão seus governos. A eleição já começou mesmo antes desta terça-feira, com votos antecipados e envio de cédulas pelo correio, o que é permitido no país.

Como estão as pesquisas nos EUA

O Partido Republicano, do ex-presidente Donald Trump e tido como mais à direita no espectro americano, é o favorito para conquistar maioria na Câmara. Já a disputa no Senado está mais apertada.

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O agregador de pesquisas do site FiveThirtyEight, referência em estatísticas sobre as eleições americanas, estimou na véspera da eleição na segunda-feira, 7, as seguintes projeções:

  • A probabilidade de os republicanos ganharem maioria na Câmara era de 84%;
  • No Senado, a probabilidade era de 58%.

Na média das projeções:

  • Na Câmara, seriam cerca de 230 republicanos e 205 democratas;
  • Hoje, são 213 republicanos e maioria de 222 democratas;
  • No Senado, seriam 58 republicanos e 42 democratas;
  • Hoje, são 50 republicanos e 50 democratas.

O Partido Democrata de Joe Biden hoje tem maioria na Câmara e margem de somente um voto no Senado, uma vez que a vice-presidente do país, neste caso, a democrata Kamala Harris, também tem direito a voto para além dos 100 senadores.

O fantasma da inflação para Biden

A inflação é um dos principais focos do eleitorado na eleição deste ano. O CPI, principal índice inflacionário americano, bateu 8,2% em setembro, em queda frente aos mais de 9% que atingiu em meses anteriores, mas ainda em um dos maiores patamares em 40 anos. Itens como combustíveis subiram mais de 20% em um ano.

Intensificada primeiro pela pandemia e depois pela guerra na Ucrânia, a pressão inflacionária nos EUA gera insatisfação crescente em um país pouco acostumado aos aumentos repentinos.

Supermercado na Califórnia: alta em alimentos e gasolina gera insatisfação no eleitorado (Paul Morris/Bloomberg/Getty Images)

A dez dias da votação, a inflação era prioridade de 46% dos americanos, em alta frente aos 37% um mês antes, de acordo com sondagem do Instituto de Pesquisa da Universidade de Monmouth.

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Apesar do desemprego muito baixo nos EUA (que vive situação de "pleno emprego"), o cenário de inflação fez despencar a popularidade do presidente Joe Biden, que hoje supera 50% de desaprovação na maioria das pesquisas. A aprovação baixa respinga em todo o Partido Democrata, o que deve levar à perda de cadeiras prevista nas midterms.

Debate sobre o aborto também marcou eleição

Em meados do ano, no verão americano, os democratas chegaram a crescer nas pesquisas devido à insatisfação de parte da população com a reversão da decisão Roe vs. Wade, referente ao aborto no país. A decisão da Suprema Corte em 1973 havia estabelecido direito ao aborto legal no início da gravidez. A Suprema Corte, que passou a ser de maioria conservadora na gestão Trump, reverteu esse precedente neste ano, o que abriu caminho para uma série de estados mudarem suas leis e passarem a restringir o aborto ou proibi-lo totalmente.

LEIA TAMBÉM: Suprema Corte põe fim ao Roe vs. Wade, que garantia direito ao aborto nos EUA

Protesto em frente à Suprema Corte nos EUA: decisão sobre direito ao aborto revertida (Drew Angerer/Getty Images)

A restrição ao aborto não era apoiada pelo eleitorado independente nos EUA, e gerou rejeição ao Partido Republicano entre eleitores decisivos. Democratas também fizeram campanha sobre o tema, afirmando que eleitores que prezavam pelas liberdades individuais deveriam votar no partido para proteger tais direitos.

Nos últimos meses, porém, outros pontos de insatisfação com a gestão Biden, sobretudo a inflação, cresceram na lista de preocupações do eleitor e os democratas voltaram a cair nas pesquisas.

Olho em 2024 e o retorno de Trump

Com maioria estreita no Congresso, Biden sofreu para aprovar projetos de campanha, e terminou entregando propostas muito menos ousadas do que as prometidas em frentes como tributação, renda e infraestrutura.

Nos dois anos de Biden, dois temas de política internacional, em especial, também ajudaram a derrubar a popularidade do governo e desviar o foco da política interna, que inicialmente era prioridade. Primeiro, a saída desastrada do Afeganistão em 2021 e, neste ano, a guerra na Ucrânia, na qual os EUA têm se engajado com envio de bilhões de dólares. O apoio à Ucrânia não é necessariamente rejeitado pelo eleitorado americano, mas já há fadiga com a guerra e, sobretudo, insatisfação com a inflação e impactos econômicos.

VEJA TAMBÉM: Congresso aprova novo pacote à Ucrânia; EUA já enviaram US$ 19 bilhões

Agora, com uma maioria republicana, o temor entre os democratas é que o restante do governo Biden fique amplamente prejudicado, com dificuldade em passar qualquer projeto significativo.

Além disso, as eleições de 2022 serão cruciais para entender o papel que o ex-presidente Donald Trump terá na política americana a partir de agora.

Trump, embora derrotado contra Biden em 2020 e tendo surgido como "forasteiro" na política tradicional do Partido Republicano, segue como uma das principais lideranças da legenda. Se colocar contra Trump se tornou impopular entre o eleitorado conservador, e quase não há espaço para uma direita republicana fora do trumpismo.

Donald Trump

Donald Trump: ex-presidente segue como principal nome republicano para 2024 (AFP/AFP)

A depender dos resultados, fortes aliados de Trump podem ser eleitos ou reeleitos na Câmara e no Senado, o que seria uma demonstração ampla de força do ex-presidente e o colocaria de vez no páreo para uma futura eleição presidencial em 2024 (outros candidatos republicanos, como o governador da Flórida Ron DeSantis, correm por fora). Por outro lado, para os democratas, se perderem o Congresso, a saída será apostar em uma melhora na inflação e no cenário externo até 2024, além de foco na oposição a Trump, o que poderia ajudar na eleição de Biden ou de outro nome do partido.

Os impactos no mundo (e no Brasil)

Todas as movimentações serão observadas com atenção pelo resto do mundo. Os EUA são a maior economia do globo, com o Congresso comandando um orçamento de quase US$ 6 trilhões e as pautas legislativas e à frente de decisões que vão da guerra na Ucrânia a novos pacotes econômicos.

Apesar disso, o Legislativo tem impacto mais limitado na política externa americana, e o maior efeito das eleições desta semana tende a ser seu reflexo no pleito presidencial de 2024.

"As eleições de meio de mandato serão o primeiro verdadeiro teste decisivo para a relevância contínua de Donald Trump e do trumpismo", escreveu a pesquisadora Leslie Vinjamuri, da Chatham House, baseada em Londre. Ela argumenta também que vencedores nas midterms definirão regras eleitorais locais relevantes para o próximo pleito, um outro impacto na eleição presidencial.

Biden em cúpula da Otan, aliança militar, em junho (foto de arquivo): resultado do Congresso pode impactar política externa indiretamente (Stefan Rousseau - WPA Pool/Getty Images)

Além disso, frentes como novos investimentos no combate às mudanças climáticas ficam mais incertos. Vinjamuri acredita que a polarização americana, caso torne a governança do país impraticável, é um risco global, especialmente na pauta climática. "As brigas internas nos EUA inevitavelmente prejudicariam ainda mais a política ousada necessária", diz.

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O impacto na eleição na disputa presidencial americana de 2024 também afeta as relações que países do mundo podem ter com os EUA, incluindo o Brasil. O presidente eleito Lula (PT) já conversou por telefone com Biden, no que o ex-chanceler Celso Amorim descreveu ao jornal O Globo como “uma bela conversa”. Na agenda do Brasil, há a expectativa de uma relação equilibrada paralelamente com as duas maiores potências, China e EUA, mas um governo Biden enfraquecido (e a possibilidade de uma volta de Trump em 2024) pode se tornar um desafio no radar brasileiro.

Para a União Europeia, que viveu em pé de guerra com Trump de 2016 a 2020, também há sinais incertos sobre um novo governo republicano com comando da ala trumpista.

Nos mercados, a força ou não do governo Biden no restante do mandato será especialmente importante para frentes como o combate à inflação e à crise econômica, preocupações de primeira ordem em 2023. Há também atenção sobre temas como a alta de impostos corporativos, uma promessa de campanha de Biden. Recentemente, Biden também vem propondo uma tributação extra sobre lucros extraordinários de petroleiras, outro ponto no radar das empresas.

Bolsa de Nova York: mercado trabalha com cenário de maioria republicana ou Congresso dividido, mas vê alta de impostos de Biden como mais difícil (Leandro Fonseca/Exame)

Relatório do banco UBS em outubro mostra que o melhor cenário para a maioria dos setores na Bolsa seria um Congresso dividido; há mais incerteza com relação a uma maioria republicana pela indefinição sobre quais alas do partido teriam controle. Em ambos, a expectativa é que Biden tenha dificuldade em aprovar alta de impostos.

"A perda de cadeiras no Congresso é frequentemente uma repressão no poder presidencial e na capacidade de gastar/tributar", escrevem os analistas Keith Parker, Sean Simonds e Alastair Pinder.

Por fim, a eleição também deve vir cercada de polêmicas. Democratas questionam pontos como a redefinição dos distritos feita nos últimos anos, que, segundo críticos, foi tocada por autoridades locais pró-Trump e de forma a favorecer republicanos. Já republicanos questionam, como já havia ocorrido na eleição presidencial, votos enviados pelo correio, e parte mais radical do partido pode negar resultados.

Após a votação, a apuração completa deve se estender até a quarta-feira, 9. Os ânimos seguirão acirrados, com reflexos na Bolsa nos próximos dias.

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