Número de vacinados nos EUA vem caindo, e não por falta de vacinas

Pesquisa mostra que metade dos americanos que ainda não se vacinaram não pretende fazê-lo. Fatia é maior entre eleitores republicanos

À medida em que avança, a massiva operação de vacinação nos EUA pode passar a ter mais doses do que interessados. O motivo é a força do movimento antivacina, que começa a preocupar autoridades em meio a quedas consistentes no número de vacinados por dia.

Os Estados Unidos aplicaram até domingo, 25, 229 milhões de doses de vacina contra a covid-19, segundo os dados oficiais do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). É o equivalente a 42% da população vacinada com a primeira dose e quase 30% com a segunda.

Mais de 80% dos idosos acima de 60 anos também já se vacinaram.

É o país do mundo com mais doses aplicadas, e a vacinação já foi aberta a adultos jovens, acima de 18 anos.

Mas estima-se que cerca de 120 milhões de pessoas nos EUA ainda não tomaram nenhuma dose. E esse número pode não seguir caindo na velocidade desejada pelo governo.

Nova pesquisa do jornal Washington Post com a emissora ABC mostrou que mais da metade dos americanos que ainda não se vacinaram não pretendem tomar sua dose. Dos respondentes não vacinados, só 41% disseram que pretendem se imunizar, e 56% disseram que não. Os outros 3% não responderam.

O número de vacinados por dia nas últimas duas semanas chegou a apresentar queda de mais de 20% e até 30% se comparado aos picos.

Os EUA foram de mais de 3 milhões de doses aplicadas por dia na primeira metade de abril (segundo a média móvel em sete dias do CDC) para perto das 2 milhões de doses na última semana. Há fatores logísticos em um país da dimensão americana, com amplo contingente de pessoas ainda a se vacinar, potenciais problemas para agendar a vacinação online e cada estado tendo regras próprias.

Mas a queda consistente no número de vacinados diários pode ser um sinal de alerta. Segundo o Washington Post, a tendência em Washington D.C é que o grupo dos ainda não vacinados (e sobretudo dos que não pretendem se vacinar) comece a ser alvo de campanhas mais assíduas do governo nas próximas semanas.

Um desafio particular é com a vacina da Johnson & Johnson, cuja aplicação a FDA, reguladora americana, paralisou temporariamente neste mês em meio à investigação de casos de trombose extremamente raros. Como mostrou a EXAME, o risco de trombose relacionado ao imunizante é menor do que o associado a anticoncepcionais orais ou cigarro.

Na sexta-feira, 23, a FDA liberou novamente a vacina, e disse que os riscos são muito pequenos e os benefícios, muito grandes, uma vez que ainda há mais de 700 pessoas morrendo por dia nos EUA.

Mas o episódio foi suficiente para que a confiança no imunizante caísse amplamente: dos não vacinados, só três em cada quatro dizem que tomariam a dose da J&J -- a vacina só exige uma dose, e, por isso, é vista como grande esperança do mundo para acelerar a imunização.

A rejeição à vacinação é maior entre eleitores do Partido Republicano, do ex-presidente Donald Trump. E cresce sobretudo entre os mais jovens, que imaginam precisar menos da vacina: entre os republicanos acima de 64 anos, só 20% não quer se vacinar, segundo a pesquisa do Post; mas entre 40 e 64, são 40%, e entre 18 e 39 anos, 55%.

Entre os democratas abaixo de 40 anos, a taxa dos que não pretendem se vacinar é de 14%.

Esse será um problema comum na imunização em massa que a covid exige. Uma vez que se esgotam os grupos prioritários e se chega a determinado patamar de vacinados, os cidadãos restantes podem ter maior resistência à imunização. E o contingente de pessoas que não deseja se vacinar, caso seja muito grande, atrapalhará todo o esforço de vacinação de um país.

Em Israel, primeiro país a vacinar em massa a população, o premiê Benjamin Netanyahu chegou a atuar em uma campanha de televisão desmentindo notícias falsas sobre as vacinas.

A nova preocupação em Israel é convencer o restante da população que ainda não se vacinou a fazê-lo. O país vacinou até agora cerca de 60% das pessoas com a primeira dose e 55% com a segunda. Especialistas apontam que o cenário realmente ideal é ter mais de 80% de vacinados.

A vacinação em massa, por ora, tem mostrado suas vantagens: já foi capaz de fazer o governo liberar a circulação de pessoas sem máscara em território israelense, e o país começa a ter novamente aglomerações e eventos. As mortes em Israel também caíram de mais de 60 diárias no começo do ano para menos de cinco óbitos por dia na média móvel.

Nos EUA, com um arsenal de vacinas adquiridas (são usadas até agora as doses das americanas Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson), o país rapidamente se tornou o com maior número de vacinados no mundo. A vacinação foi um dos motivos que levaram a média móvel de mortes no país a cair mais de 70% desde janeiro, mesmo com novas variantes.

O plano do presidente americano, Joe Biden, era ter 200 milhões de doses aplicadas antes de seus 100 dias de mandato, meta que foi concluída com sucesso.

Até agora, os números estadunidenses são ainda mais surpreendentes se levado em conta o tamanho da população, de mais de 330 milhões de habitantes (muito acima da de outros países símbolo da vacinação, como Reino Unido, com menos de 70 milhões de habitantes, e Israel, com 9 milhões).

No Brasil, uma boa notícia contra o negacionismo da vacina vem de Serrana, cidade no interior de São Paulo escolhida pelo Instituto Butantan para ser totalmente vacinada e testar a eficácia da Coronavac. Em Serrana, onde a todos os adultos foi oferecida a possibilidade de se vacinar, 98% dos elegíveis optaram por tomar suas doses. Por lá, enquanto o resto do Brasil vive o pico da pandemia, o número de casos e mortes está em queda há um mês.

Enquanto o resto do mundo mal consegue vacinar seus grupos prioritários, o desafio do convencimento é menor. Mas, quando os países (inclusive o Brasil) chegarem a fatias mais amplas da vacinação, será preciso trabalhar duro para que a população deixe o negacionismo de lado.

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