Em sua tentativa de ser mais verde, a China tem um problema: o carvão

O carvão garantiu o espetacular crescimento industrial da China, mas também o título de maior poluidor do mundo nas últimas décadas

O líder da China, Xi Jinping, promove a visão edificante do crescimento com cada vez menos poluição causada por gases de efeito estufa, mas transformar esse plano em ação já se mostra controverso. O grande problema é o carvão.

As ambições de Xi para salvar o clima são a base de um plano para a ascensão do país na pós-pandemia que foi endossado semanas atrás pela legislatura controlada pelo Partido Comunista da China.

A ideia é conduzir o país em direção a dois compromissos assumidos por Xi no ano passado. Segundo ele, as emissões chinesas de dióxido de carbono atingiriam seu pico antes de 2030, e a China chegaria à neutralidade líquida de carbono antes de 2060, o que significa que não emitiria uma quantidade maior de gases de efeito estufa do que a que retira da atmosfera por métodos como engenharia ou plantio de florestas.

Mas agora o debate se acirra sobre quão agressivamente o país deve cortar o uso de carvão, que garantiu seu crescimento industrial e o título de maior poluidor mundial nas últimas décadas.

Cientistas climáticos e conselheiros políticos chineses querem limites mais rígidos de emissões, com praticamente nenhum novo projeto de geração de energia a carvão, e preveem um boom na geração solar e eólica. Províncias poderosas, empresas estatais e grupos industriais dizem que a China ainda precisará usar grandes quantidades de carvão por muitos anos.

"Certamente, há uma tensão. De um lado, há a sensação de que o carvão impulsiona a economia e você não quer desistir disso. Do outro, o carvão é o maior alvo da ação climática, particularmente no curto prazo", afirmou Leon Clarke, professor da Universidade de Maryland e coautor de um estudo recente sobre as opções chinesas para reduzir as emissões.

As pressões ambientais vividas pela China ficaram evidentes em meados de março, quando uma espessa fumaça pairou sobre Pequim, refletindo o aumento da poluição industrial.

O atrito envolvendo os combustíveis fósseis existe há anos na China, e a questão está longe de ser exclusiva do país. No entanto, suas escolhas iminentes têm consequências imensas para os níveis de gases de efeito estufa e as negociações internacionais.

As emissões anuais de dióxido de carbono do país perfazem 28 por cento do total global, aproximadamente o mesmo que os três maiores emissores combinados: Estados Unidos, União Europeia e Índia. As emissões acumuladas dos Estados Unidos e de outras economias ricas em toda a era industrial, no entanto, permanecem muito maiores que as da China.

Representantes da indústria do carvão presentes na sessão legislativa nacional em Pequim argumentaram que o país precisa continuar queimando carvão, mas em usinas mais limpas e eficientes.

A Associação Nacional do Carvão da China divulgou um relatório em março propondo aumentos modestos em seu uso para os próximos cinco anos, atingindo 4,2 bilhões de toneladas métricas até 2025, e também disse que o país deveria criar de três a cinco empresas de carvão de classe mundial, globalmente competitivas. "A grande importância do carvão em nosso sistema nacional de energia e seu papel como lastro não vão mudar", afirmou a associação em um documento anterior contendo sua posição sobre as perspectivas da indústria nos próximos cinco anos.

Os governos provinciais propuseram recentemente a abertura de novas minas e usinas de carvão, ao mesmo tempo que prometem que os projetos limitarão as emissões. Em resposta ao apelo de redução do uso de carbono, a província de Shanxi, uma das maiores áreas produtoras do minério da China, anunciou planos para 40 minas "verdes e eficientes".

As autoridades chinesas nessas áreas também se preocupam com a perda de empregos e investimentos e com as tensões sociais resultantes. Alegam que a China ainda precisa de carvão para fornecer uma base robusta de energia para complementar fontes solares, eólicas e hidrelétricas, mais propensas à flutuação no fornecimento. E muitas empresas de energia que apoiam essas visões são estatais com fácil acesso a líderes políticos.

"Os governos locais veem o poder do carvão como uma garantia energética robusta. Não dá para descartar o carvão tão cedo", observou Lu Zhonglou, empresário chinês que vendeu suas minas há alguns anos e ainda monitora a indústria.

Porém os defensores da transição verde da China, incluindo conselheiros do governo, argumentam que abandonar rapidamente os combustíveis fósseis e atualizar a indústria pesada beneficiará o crescimento, a inovação, a saúde e o meio ambiente. Alguns dizem que o país é capaz de aumentar as fontes eólicas e solares e atingir o pico de carbono muito antes de 2030, o que reduziria os custos e os obstáculos tecnológicos para alcançar a neutralidade.

"Muitas das maiores dificuldades estão sendo deixadas para depois de 2030. A contradição central entre a expansão da economia de chaminé e a promoção do crescimento verde parece um impasse", disse Lauri Myllyvirta, que monitora as políticas climáticas e energéticas chinesas como analista-chefe do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo em Helsinque.

O novo plano chinês poderia dar uma base aos diferentes campos no debate sobre o carbono. O projeto promete crescimento verde e expansão de energia hidrelétrica, solar e eólica, além da construção de usinas nucleares. Até 2025, as fontes de combustível não fóssil fornecerão um quinto da energia do país.

No entanto, o plano pareceu também animar os defensores do carvão e decepcionar grupos ambientalistas e especialistas em política climática. Não há menção a um teto absoluto das emissões anuais de dióxido de carbono, mas sim uma indicação de que as usinas a carvão continuariam a ser construídas.

Um pacto internacional para limitar o aquecimento global neste século para menos de dois graus Celsius, ou para 1,5 grau Celsius se possível, não é viável sem esforços mais urgentes da China e das outras grandes potências para alcançar a neutralidade de carbono por volta de meados deste século.

"Quanto maior o atraso, mais difícil é atingir essas metas da metade do século. É matemática", comentou Kelly Sims Gallagher, professora da Escola Fletcher da Universidade Tufts, que estuda as políticas climáticas da China. O plano chinês, segundo ela, não vai garantir novo ânimo às negociações climáticas globais.

Xi fez uma aposta política nessas questões. Promoveu a China e a si mesmo como guardiões de uma "civilização ecológica", fazendo da limpeza do ar, da água e do solo chineses as bases de um apelo público. Quando no ano passado anunciou a promessa de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, pediu também uma "recuperação verde" da pandemia da Covid-19.

Porém a recuperação pós-Covid da China está longe de ser perfeita. Depois que as emissões diminuíram nos primeiros meses do ano passado, quando o surto estava em seu auge no país, elas voltaram a subir, pois os gastos com infraestrutura e indústria levantaram a economia e aumentaram o uso de carvão. A aprovação de novas usinas de carvão aumentou nos últimos anos, e mais estão sendo planejadas.

No fim, as emissões de gases de efeito estufa da China aumentaram 1,7 por cento em 2020 em relação ao ano anterior, a única grande economia a apresentar um aumento nesse período, de acordo com a empresa de pesquisa econômica Rhodium Group.

Para se afastar do carvão, a China deve enfrentar os custos do fechamento de minas e usinas, incluindo as necessidades de milhões de mineradores e outros trabalhadores potencialmente desempregados. Muitas regiões dependentes do carvão e seus trabalhadores parecem despreparados para uma possível mudança.

"Nunca pensei no fechamento da mina de carvão, nunca pensei em sair", disse ao telefone Gui Lianjun, mineiro de 39 anos em Shenmu, cidade carvoeira no noroeste da China. Ele pareceu descontente quando perguntado sobre a ligação entre o carvão e o aquecimento global. "O governo fechou uma mina por causa do aquecimento global? Não acho que isso seja possível. Nunca ouvi falar desse motivo."

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