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Copa do Mundo pavimenta reeleição de presidente croata

Fluente em oito línguas e ex-embaixadora nos Estados Unidos, Kolinda Grabar Kitarovic sempre tentou construir a imagem de uma pessoa do povo

A Copa do Mundo já terminou, mas a imagem da sorridente e encharcada presidente croata cumprimentando cada um dos jogadores após a vitória francesa ainda deve perdurar como uma das mais marcantes do ano —e angariar pontos de popularidade para ela dentro da Croácia.

Vestida com a camiseta quadriculada de sua seleção, Kolinda Grabar Kitarovic roubou a cena na cerimônia da final, se destacando mais que o presidente russo Vladimir Putin e o presidente “vencedor”, o francês Emmanuel Macron. Acabou como o tópico mais falado na internet brasileira um dia depois do término do torneio, segundo o Google Trends.

De acordo com uma empresa de monitoramento digital baseada em Zagreb, a Mediatoolkit, Kitarovic teve 25% mais foco nas notícias sobre a final do que qualquer outro jogador em campo, inclusive o vencedor do Bola de Ouro, Luka Modric.

As decisões de Kolinda de pagar por suas viagens à Rússia (sempre na classe econômica), assistir aos jogos na arquibancada comum, vestir a camisa da seleção apesar do código de vestimenta da área VIP e ter descontado os dias que esteve fora de seu salário deram certo: mais de 80% das histórias na internet sobre a presidente eram positivas, diz a Mediatoolkit.

“Ela é relativamente bem quista pelo público mais à direita na Croácia”, disse Žarko Puhovski, professor aposentado de filosofia política na Universidade de Zagreb. “Mas, nos últimos meses, sua popularidade foi prejudicada em decorrência de algumas declarações que foram consideradas liberais. Agora, com o triunfo futebolístico, ela ganhou muita popularidade”, afirmou em entrevista por e-mail a EXAME.

Kitarovic foi eleita em 2015 por uma margem bastante apertada: 50,4% dos votos, contra 49,6% para o candidato à reeleição Ivo Josipovic. Seu partido, o conservador União Democrática Croata (HDZ, na sigla em croata), já esteve envolvido em escândalos de corrupção que levaram, em 2014, à condenação a nove anos de prisão de Ivo Sanader, primeiro-ministro do país entre 2003 e 2009.

Entra em cena Kitarovic, filiada ao HDZ desde 1993. Com então 46 anos, fluente em oito línguas (inclusive português e espanhol), estudos em Viena, Washington e Harvard, e um currículo que inclui o posto de embaixadora do país nos Estados Unidos e de secretária-assistente geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), ela contrastava com os dirigentes, muitos militares, associados ao HDZ.

Na campanha à presidência em 2015, a estratégia foi descolar Grabar-Kitarovic do governo anterior da HDZ, condenado por corrupção. “Ela conseguiu criar a imagem de uma política que não era relevante nos processos de decisão do governo anterior”, diz Puhovski.

Isso, somada a uma defesa da necessidade de um líder de estado mais ativo para ajudar a Croácia a superar sua pior crise econômica desde a independência, em 1991, deram certo e ela se elegeu a primeira presidente mulher da história do país.

Em 2015, a Croácia enfrentava seis anos de recessão, desemprego na casa dos 19% e uma dívida pública equivalente a 85% do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje, o desemprego está na casa dos 13%, e o país de 4,2 milhões de habitantes deve crescer 2,6% este ano segundo previsões da Comissão Europeia.

Segundo o site Balkan Insight, o empresário Zdravko Mamic, que já foi presidente do clube de futebol Dinamo Zagreb e está na mira da Justiça por desviar milhões de euros de contratos com jogadores (inclusive as estrelas da seleção nacional Modric e Lovren), nunca escondeu seus vínculos com a HDZ e financiou a campanha eleitoral de Grabar-Kitarovic. Mamic foi acusado de apropriação indevida e evasão fiscal, em 2015, e acabou condenado em junho deste ano a seis anos e meio de prisão. Atualmente, ele é considerado foragido pela Justiça, após ter escapado para a Bósnia-Herzegovina.

Ao tomar posse, Kolinda afirmou que continuaria de onde Franjo Tudjman, primeiro presidente da Croácia (de 1990 a 1999) e até então o único do HDZ a assumir este posto, havia parado. A declaração não pegou muito bem entre a esquerda croata, já que a “era Tudjman” chegou a ser classificada como “corrupta e nacionalista” pela embaixada dos EUA.

No país, quem efetivamente governa é, na verdade, o primeiro-ministro. Os presidentes croatas não têm nem o poder de vetar leis, mas têm alguma influência sobre os rumos do país na política externa e na defesa —mas até a escolha de novos diplomatas é feita com o primeiro-ministro.

Nesse contexto, a eleição de Kolinda em 2015 marcou o início da retomada de poder pelo HDZ. “Sua vitória significou ainda mais poder para a HDZ. Desde a independência da Croácia até hoje, eles estiveram no poder por 21 anos. O principal partido de oposição, o Social Democrata, é muito fraco”, afirmou a EXAME a jornalista croata Snjezana Pavic, que possui uma coluna sobre feminismo no principal jornal do país.

Segundo Pavic, o fato de Kitarovic ser a primeira mulher a alcançar a presidência não significa muito para os croatas. “Ela ganhou como uma candidata da HDZ, não como uma mulher. Sem o partido, ela não é nada, e o HDZ é um partido tradicional, antiquado, no qual as mulheres não têm influência.”

Agora, depois do sucesso na Copa do Mundo, o professor Bozo Skoko, especialista em relações públicas e também da Universidade de Zagreb, acredita que Kitarovic deve receber o apoio do partido para um segundo mandato nas próximas eleições, marcadas para dezembro do ano que vem.

“Ela sempre tentou construir a imagem de uma pessoa do povo”, diz Puhovski. Aparentemente, deu certo.

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