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Depois de ajudar Israel a repelir ataque do Irã, países ocidentais são cobrados pela Ucrânia

Presidente Volodymyr Zelensky deu indireta em discurso no domingo, sugerindo que o Ocidente pode e deve ajudar Kiev a enfrentar a ofensiva russa

Bombeiros tentam apagar incêndio causado por ataque russo em Kharkiv, na Ucrânia (SERGEY BOBOK/AFP Photo)

Bombeiros tentam apagar incêndio causado por ataque russo em Kharkiv, na Ucrânia (SERGEY BOBOK/AFP Photo)

Agência o Globo
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Agência de notícias

Publicado em 15 de abril de 2024 às 14h20.

Última atualização em 15 de abril de 2024 às 14h43.

Horas depois dos mísseis e drones iranianos serem lançados contra Israel, e serem quase totalmente interceptados pelos sistemas de defesa de Israel e por aliados como EUA e Reino Unido, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, expressou apoio ao governo israelense e condenou o ataque.

Em uma publicação no X (antigo Twitter) e em seu discurso diário, ele disse que “mundo inteiro viu que Israel não estava sozinho nesta defesa”, e que “a ameaça no céu também foi destruída pelos aliados”.

Mas nas entrelinhas, o líder ucraniano deixou um recado no ar: para ele, qualquer estratégia de defesa funciona bem quando os aliados empregam todo o potencial disponível.

"E quando a Ucrânia diz aos seus aliados que a unidade proporciona a melhor proteção, eles já conhecem muito bem a eficácia disto. Eles sabem e fornecem. E quando a Ucrânia diz que os aliados não podem fechar os olhos aos mísseis e drones russos, isso significa que devemos agir, e agir com firmeza", afirmou o presidente.

Foram declarações feitas em um dos momentos mais difíceis para a Ucrânia desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. Com os aliados ocidentais cada vez menos propensos a fornecer ajuda, devido a questões econômicas ou impasses políticos (como nos EUA), os arsenais do país estão reduzidos, afetando as capacidades de resistência às ofensivas terrestres e, especialmente, aos ataques aéreos russos.

Na semana passada, uma série de bombardeios usando drones e mísseis, incluindo o hipersônico Kinzhal, destruiu a principal usina de geração de energia que atende a capital, Kiev, e comandantes afirmam que a frente de resistência Leste está se deteriorando a cada dia. Segundo analistas, os russos devem fazer novas ofensivas nas próximas semanas para apresentar “vitórias”, se aproveitando de um momento de aparente fraqueza.

"O céu não é protegido pela retórica, a produção de mísseis e drones para o terror não é limitada pelo pensamento. E o fato de as sanções contra a Rússia ainda serem contornadas, e o fato de nós, na Ucrânia, esperarmos durante meses por um pacote de apoio vital, o fato de ainda estarmos à espera de uma votação no Congresso, mostra que a autoconfiança dos terroristas também vem crescendo há meses", disse Zelensky no domingo, se referindo ao impasse sobre a aprovação de um pacote de ajuda militar de US$ 60 bilhões (R$ 310,72 bilhões) pelo Congresso dos EUA.

O presidente ucraniano usou uma linguagem moderada para expressar uma frustração cada vez mais visível entre os ucranianos, e que motivou comentários pouco diplomáticos nas redes sociais.

“Então interceptar mísseis iranianos sobre a Síria e a Jordânia não é uma ‘provocação’, mas interceptar mísseis que a Rússia manda para a Ucrânia em céus ucranianos — e às vezes da Otan — é [uma provocação]. O Irã, a Síria e a Jordânia estão bem e não reagiram”, disse, no X, a ativista ucraniana Ariana Gic.

Estrategista de conteúdo e autor no site Ukraine Explainers, Stas Olechenko afirma que seu país se sente "abandonado" pelo Ocidente.

"Esta noite, os ucranianos tiveram uma visão clara do que realmente significamos para os EUA. Não somos aliados, nunca fomos. Somos um inconveniente. Uma aberração na sua visão da geopolítica. Um problema que simplesmente não se resolve sozinho. Continuaremos resistindo aconteça o que acontecer, mas isso doeu muito", escreveu no X

O economista Roman Sheremeta, professor na Universidade Case Western Reserve (EUA), sugeriu que falta vontade à Otan para adotar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia.

“Aparentemente, o céu da Ucrânia pode ser fechado, o inimigo é o mesmo. Rússia e Irã são Estados terroristas gêmeos. As forças da Otan têm a capacidade para defender países de fora da Otan”, afirmou no X. “Uma desculpa para os EUA e para a Otan é que derrubar mísseis russos e drones poderia dar início à Terceira Guerra Mundial. Ao contrário, são ações como essas que podem mostrar a ditadores e terroristas que eles podem ser parados.[...] Então parem de dar desculpas e fechem o céu da Ucrânia."

Taras Mishchenko, editor do site Mezha.Media, voltado para o setor de tecnologia, usou uma foto do Coringa, interpretado por Joaquín Phoenix, para ilustrar um comentário sobre o que vê como disparidade de reações.

“Quando você lê explicações sobre por que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha poderiam abater drones kamikaze iranianos lançados contra Israel, mas os poloneses não podem abater um míssil de cruzeiro russo em seu espaço aéreo”, escreveu no X.

Nem só os ucranianos criticaram a falta de um apoio similar ao visto no fim de semana a Israel.

“O ataque noturno dos aiatolás a Israel foi repelido com sucesso graças a uma rápida resposta internacional e à vontade de defender o espaço aéreo. De qualquer forma, é uma pena que não defendamos vigorosamente o espaço aéreo sobre a Ucrânia…”, disse no X o chanceler da República Tcheca, Martin Dvorak.

Ao todo, além de Israel, França, Reino Unido, Estados Unidos e Jordânia participaram da operação para repelir o ataque de mísseis e drones do Irã, atuando sobre os territórios iraquiano e jordaniano, além dos céus israelenses. Ao ser questionado sobre os motivos de uma estratégia similar não ser repetida na Ucrânia pela Otan, que conta com 32 membros, o ministro das Relações Exteriores britânico, David Cameron, foi sucinto.

"Colocar forças da Otan diretamente em conflito com as forças russas, creio que isso levaria a uma escalada perigosa. [Devemos] fazer possível para apoiar a Ucrânia, em termos de dinheiro, diplomacia e, especialmente, armas. Dar as armas para que se defendam, treinar suas tropas, são coisas que com certeza são a coisa a se fazer", disse Cameron, em entrevista à Rádio LBC, de Londres. No mês passado, após uma sugestão feita pelo presidente da França, Emmanuel Macron, de que tropas da aliança militar poderiam ser enviadas à Ucrânia, o líder russo, Vladimir Putin, disse que tal decisão traria a "certeza de uma guerra" entre os dois lados. Acredita-se que a lógica também seja válida para a presença de aeronaves ocidentais nos céus do país.

Para Cameron, usar jatos para abater mísseis e drones “não é a melhor opção”, e que sistemas de defesa, como o Domo de Ferro israelense, são mais eficazes, ao mesmo tempo que defendeu um maior acesso dos ucranianos a equipamentos antimísseis, como o sistema americano Patriot.

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