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5 pontos para entender as discussões da Conferência de Munique 2026

Reunião realizada entre 13 e 15 de fevereiro teve Ucrânia, autonomia militar europeia e tensão com o governo Trump como eixos centrais

Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos: durante discurso na Conferência de Segurança de Munique, onde defendeu limites ao apoio americano e cobrou maior protagonismo europeu na defesa (THOMAS KIENZLE/Getty Images)

Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos: durante discurso na Conferência de Segurança de Munique, onde defendeu limites ao apoio americano e cobrou maior protagonismo europeu na defesa (THOMAS KIENZLE/Getty Images)

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 10h20.

Última atualização em 15 de fevereiro de 2026 às 10h29.

A 62ª Conferência de Segurança de Munique, principal fórum global de debates estratégicos, terminou domingo, 15, com um diagnóstico comum entre líderes ocidentais: a ordem internacional construída após a Segunda Guerra vive um período de instabilidade. Entre discursos sobre rearmamento, críticas à Rússia e recados indiretos aos Estados Unidos, o encontro revelou uma Europa mais preocupada em reduzir dependências e redefinir sua posição no mundo.

Realizado na Alemanha, o evento reuniu chefes de governo, ministros da Defesa e das Relações Exteriores e diplomatas das principais potências. A seguir, cinco pontos para entender o que esteve em jogo em Munique — e por que isso importa também para o Brasil.

1. A fratura entre EUA e Europa virou tema central

Metade do auditório aplaudiu de pé o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, cargo equivalente ao chanceler americano, após ele afirmar que "o destino da Europa nunca será irrelevante" para Washington. O gesto foi interpretado como tentativa de acalmar aliados.

Mas o discurso veio acompanhado de limites claros. Rubio sinalizou que os EUA priorizarão seus próprios interesses estratégicos e não esperarão consenso europeu para agir. O pano de fundo é o retorno de Donald Trump à Casa Branca e sua postura mais transacional em relação à Otan, Organização do Tratado do Atlântico Norte, criada em 1949 para conter a União Soviética.

A aliança militar, que reúne hoje 32 países, vive um momento de teste político mais do que militar. No ano passado, o vice-presidente JD Vance afirmou em Munique que a maior ameaça à Europa vinha "de dentro", não da Rússia, declaração que aprofundou o desconforto transatlântico.

2. Europa fala em "hard power" e autonomia militar

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, adotou tom direto: a Europa precisa estar pronta para lutar para proteger seus valores e seu modo de vida. Ele defendeu que o continente "fique em pé com as próprias pernas
em defesa.

Starmer anunciou o envio de um grupo de ataque naval britânico ao Ártico, região estratégica diante do avanço militar russo. O chamado High North inclui o Círculo Polar Ártico e áreas adjacentes, cada vez mais relevantes por rotas comerciais e reservas energéticas.

O líder britânico também reafirmou o compromisso com o Artigo 5º da Otan, cláusula que determina que um ataque contra um membro é considerado ataque contra todos.

Na mesma linha, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o continente passou por uma "terapia de choque" nas relações com os EUA e precisa assumir maior responsabilidade por sua própria segurança.

3. Guerra da Ucrânia segue como eixo estruturante

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, lembrou que se aproxima o quarto aniversário da invasão russa em larga escala, iniciada em 24 de fevereiro de 2022.

Ele pediu mais sistemas de defesa antimísseis dos EUA e maior pressão econômica sobre o presidente russo, Vladimir Putin. A avaliação compartilhada por líderes europeus é que, mesmo em caso de acordo de paz, Moscou pode usar o período para se rearmar.

O temor de um novo ciclo de agressão russa foi citado como justificativa para ampliar gastos militares no continente.

4. China amplia o tabuleiro e tensiona o debate

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, reforçou a rivalidade estratégica com os EUA e criticou o apoio do Japão a Taiwan, ilha que Pequim considera parte de seu território.

A participação chinesa evidenciou que Munique deixou de ser apenas um fórum euro-atlântico. O encontro tornou-se palco da competição entre as duas maiores potências do mundo, em meio a uma disputa que combina tecnologia, comércio e influência geopolítica.

Para países emergentes, como o Brasil, esse cenário amplia a pressão por equilíbrio diplomático entre Washington e Pequim.

5. Reino Unido sinaliza reaproximação com a União Europeia

Após o Brexit, saída formal do Reino Unido da União Europeia em 2020, Londres manteve distância institucional de Bruxelas. Em Munique, Starmer indicou mudança de tom.

Ele afirmou que o atual modelo de relação "não é suficiente" e defendeu maior alinhamento econômico e cooperação industrial em defesa. Embora tenha descartado retorno ao mercado comum europeu, admitiu que pode haver aproximação setorial.

O argumento central é que crescimento econômico e integração industrial podem sustentar o aumento dos investimentos militares.

A conferência deste ano teve como tema "Under Destruction" ("Sob Destruição"), numa referência à erosão da ordem internacional do pós-guerra. O símbolo escolhido foi um elefante, alusão ao "elefante na sala", expressão usada para descrever o desconforto explícito nas relações entre aliados históricos.

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