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Jeff Bezos X Elon Musk: sim, temos um campeão!

Como a velocidade de aprendizado venceu o planejamento na corrida espacial privada

SpaceX: modelo de inovação de Elon Musk combina integração vertical, testes rápidos e aprendizado com falhas. (Pexels)

SpaceX: modelo de inovação de Elon Musk combina integração vertical, testes rápidos e aprendizado com falhas. (Pexels)

Jorge Dib
Jorge Dib

Colunista

Publicado em 3 de novembro de 2026 às 17h03.

Última atualização em 3 de novembro de 2026 às 17h04.

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Ok, o título é proposital para chamar sua atenção. Mas esse artigo é sobre um modelo de inovação amplamente superior a todos os outros que transformou Elon Musk no óbvio vencedor da corrida espacial. Em pouco mais de dois meses a SpaceX lança mais foguetes ao espaço do que todos os outros competidores somados em um ano. Todos. Públicos, privados, europeus, russos, japoneses e chineses. Durante um ano inteiro.

A corrida espacial do setor privado usou duas abordagens de inovação antagônicas suportadas por dois dos maiores empreendedores do século, com recursos amplos à disposição. Jeff Bezos fundou a Blue Origin com o objetivo de tornar as viagens espaciais mais seguras, previsíveis, baratas e frequentes. Para isso ele optou por um modelo de inovação tradicional usado por todas as empresas do setor aeroespacial, baseado em análise exaustiva antes de construir. Planejamento cuidadoso antes da execução para evitar fracassos.

Cada parte do projeto é pensado e planejado para minimizar as consequências de um insucesso. Os engenheiros testam as peças, os materiais e o desempenho em computadores poderosos e laboratórios de testes. Apenas após todo o processo parecer completamente seguro ele é executado. São anos de planejamento, desenho, testes e execução.

A abordagem usada por Elon Musk é baseada em três pilares que se reforçam e que contrariam frontalmente o anterior.

O primeiro é amplamente conhecido no Vale do Silício como First Principles Thinking, que basicamente é ir à raiz do problema e pensar se há uma maneira melhor de desenhar e construir aquela peça, produto ou solução. Musk descobriu que os materiais usados na construção de um foguete representavam apenas 2% do custo total. Onde estavam os outros 98%? Na margem dos fornecedores, na customização que os clientes pediam e que não permitia escala de produção, e no desperdício de jogar tudo fora a cada lançamento. Nada era reutilizado.

O segundo pilar é a Integração Vertical, que não é um valor em si, mas a única maneira de se apropriar dos 98% de custos que Musk via como absurdo. Ele inclusive construiu o Índice Idiota a partir daí. Obtemos o resultado dividindo o custo final do produto pelo custo da matéria prima contida no produto. Qualquer coisa acima de 10:1 é um candidato a sofrer uma disrupção por alguém que use a abordagem de Musk.

A integração Vertical permite desenvolver todos os processos internamente, se apropriando da margem do fornecedor. Também é a única forma de acelerar o feed back loop (retroalimentação de informações) que permite aprender com cada erro rapidamente, buscando soluções inovadoras através da proximidade das equipes que trabalham em várias partes do foguete. O desenvolvimento tradicional de um foguete envolve desenhar o projeto e solicitar o desenvolvimento de cada parte para empresas especializadas que tem seus prazos e problemas internos, e que não interagem com os demais fornecedores.

A empresa só pode testar se o projeto funciona depois de ter tudo em casa. Obviamente que nenhum planejamento é perfeito e muitas vezes só se descobre que um conjunto não funciona depois de montado e testado. A modificação de uma parte, por um fornecedor, atrasa todo o cronograma, às vezes em anos. Na SpaceX existe um processo que se chama attack the tip of the spear, traduzindo de forma livre, atacar apenas o problema que está segurando o desenvolvimento de todo o resto. Eles param tudo e focam apenas nisso. A solução é implementada e as lições são aprendidas por todos.

O terceiro pilar é a cultura de Fail Fast, em que se busca descobrir os erros o quanto antes para poder corrigir o mais rapidamente possível. Empresas como o Google e a Meta tem isso enraizado em sua cultura, mas como fazer isso em um veículo que vai levar pessoas ao espaço? Identificando onde o risco permite maior agressividade. Por exemplo, testar propelentes de foguete não coloca ninguém em risco. Logo, os engenheiros da SpaceX desenham a solução e testam muitas vezes. Na cultura da empresa cada explosão de um foguete é um conjunto de informações para a próxima iteração que vai levar a empresa mais próxima da solução ideal. Um teste que deu errado só é ruim se não se aprendeu o suficiente com ele.

A questão não é se o seu foguete é perfeito e voou conforme o desenvolvimento sem percalços no caminho. A questão na cultura da SpaceX é quão rápido você fez iterações que permitiu você chegar mais rapidamente próximo da realidade, nesse caso entendido como um foguete que realmente consiga voar de maneira segura, com o menor custo possível, permitindo a reutilização de partes que não necessitam serem descartadas.

Nada na SpaceX é segredo. A estratégia é conhecida e discutida publicamente pelo próprio Elon Musk. A filosofia de engenharia é explicada em tweets e apresentada em visitas à fábrica. Muitas ideias nem são originais. As 14 Regras de Kelly Johnson, um famoso engenheiro aeroespacial que trabalhou na Lockheed Martin é a base para muito do que é feito na SpaceX. Johnson foi o responsável pelo desenvolvimento do famoso avião SR-71 Blackbird na década de 60, até  hoje o mais rápido da história, e que exigiu soluções inovadoras para voar a uma velocidade Mach 3.2 (3.400 km/h) a 26.000 metros de altitude. Lançado em 1966 e desenvolvido em apenas 4 anos.

Qual é o segredo então? Simples: as pessoas certas na cultura certa. Simples, mas de difícil replicação. Engenheiros que não conseguem conviver com fracassos visíveis não prosperam nesse ambiente. E visível  é um eufemismo. Os fracassos da SpaceX eram  públicos, colocados no YouTube para todos verem. No começo é constrangedor, mas o resultado dessa abordagem todos nós conhecemos, são os famosos “foguetes que dão ré” e pousam em plataformas no meio do oceano.

Quando a NASA precisou de alguém para resgatar os astronautas que ficaram presos na estação espacial por uma falha na espaçonave da Boeing foi à SpaceX que eles recorreram.

Hoje a empresa tem mais de 85% do mercado de carga espacial e sua importância vai muito além disso. É a única organização no mundo capaz de colocar 9.000 satélites em órbita  com eficiência criando uma rede eficiente e barata que cobre todo o planeta com sinal de internet.

A abordagem de inovação da SpaceX é muito rica em lições e em histórias. No meu próximo artigo vou explorar em detalhes os aspectos da cultura que é o seu pilar central, permitindo  que em pouco mais de 20 anos a empresa conquistasse a liderança incontestável.

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