Líderes Extraordinários

Jack Dempsey e o que as empresas ainda não entenderam sobre adaptação

Disciplina de capital, governança e execução definem quem atravessa ciclos adversos

Resiliência empresarial: capacidade de adaptação e disciplina de gestão definem a competitividade das empresas.

Resiliência empresarial: capacidade de adaptação e disciplina de gestão definem a competitividade das empresas.

Publicado em 19 de outubro de 2026 às 18h20.

Priorizar nos meus resultados Google

Num ambiente hostil, não vence quem apanha menos; vence quem absorve o choque, recompõe a guarda mais rápido e redefine a luta antes que o adversário imponha o ritmo. É por isso que a frase atribuída ao boxeador Jack Dempsey faz tanto sentido para o mundo empresarial: “um campeão é alguém que se levanta quando não consegue.” Fora do ringue, a tradução é direta. Empresas não são testadas apenas quando crescem. São testadas quando o contexto muda, a estratégia inicial perde tração, o capital encarece e o mercado passa a punir hesitação.

É exatamente esse o ambiente atual.

O Brasil corporativo opera sob alta fricção. Choque geopolítico, pressão inflacionária, custo de capital elevado, fragilidade fiscal e transformação tecnológica acelerada deixaram de ser vetores isolados. Hoje,  se sobrepõem e o resultado é um ambiente em que o custo de errar subiu de forma material — seja na alocação de capital, no desenho de governança ou na velocidade de adaptação.

Um exemplo recente ajuda a tirar essa ideia do campo da metáfora. Em entrevista à Harvard Business Review, Dan Schulman, chamado para liderar o turnaround da Verizon, descreve uma companhia que vinha perdendo participação de mercado, valor de mercado e satisfação do cliente. Seu diagnóstico foi menos tecnológico do que cultural: aversão a risco, hierarquia e resistência à mudança. Para ele, quando a velocidade da mudança fora da empresa supera a velocidade da mudança dentro dela, a companhia começa a ficar para trás. Sua resposta foi admitir os problemas, tomar decisões difíceis, aceitar que alguns riscos falharão e corrigir o curso continuamente. Praticante de artes marciais há 40 anos, Schulman associa liderança sob pressão à capacidade de permanecer calmo e aprender tanto com os bons momentos quanto com os difíceis. É, em linguagem corporativa, a mesma lição de Dempsey: cair faz parte; permanecer no chão é outra escolha.

Nesse cenário, muitas companhias seguem presas a uma lógica antiga. Mantêm estruturas decisórias lentas, dados fragmentados, responsabilidades difusas, incentivos desalinhados e um desenho operacional herdado de outro ciclo econômico. Continuam falando em transformação, mas operam com a mesma arquitetura de sempre.

Esse é o ponto central: o gargalo não está na tecnologia. Está na empresa.

A discussão sobre inteligência artificial evidencia isso com clareza. Há um entusiasmo compreensível com novos modelos, automações e ganhos potenciais de eficiência. Mas a verdade é menos glamourosa. Se a organização decide devagar, executa mal, mede mal e responsabiliza mal, a IA não resolve o problema. Apenas o torna mais rápido e mais visível.

Tecnologia amplifica. Não corrige falhas estruturais de gestão.

É por isso que tantas iniciativas de IA entram nas empresas como vitrine, e não como motor de produtividade. Viram demonstração de modernidade para investidores, conselhos ou mercado, mas não alteram o ciclo decisório, não reduzem atrito operacional e não destravam valor econômico real.

No ringue, potência sem base não sustenta luta. Nos negócios, tecnologia sem redesenho operacional também não.

O que este ambiente exige é menos euforia e mais fundamento. Primeiro, disciplina de capital. Crescimento sem retorno, em um contexto de dinheiro caro, deixou de ser ousadia e passou a ser erro estratégico. Segundo, velocidade seletiva. Não se trata de fazer tudo ao mesmo tempo, mas de fazer com intensidade aquilo que realmente move resultado. Terceiro, governança robusta. Não a governança decorativa, mas aquela que melhora a qualidade da decisão, encurta ambiguidade e aumenta accountability.

Essa discussão não é teórica. Quem já esteve na operação, em concessões complexas, reequilíbrios econômico-financeiros, captação de funding, reestruturação de portfólio, interlocução com regulador, conselho, mercado e poder concedente sabe que resiliência não é atributo abstrato. É capacidade concreta de manter coerência estratégica sob pressão. Sua construção exige método, cadência, clareza decisória e liderança. Levantar a guarda com proteções e hedges, desenhar negócios sinérgicos e estar atualizado.

Por isso, a metáfora de Dempsey funciona tão bem. Campeão não é quem nunca cai. Isso é ficção. Campeão é quem entende rapidamente que a luta mudou, recompõe a guarda e volta para o centro do ringue antes que a contagem termine.

No mundo corporativo, será a mesma coisa. Os vencedores deste ciclo não serão necessariamente as empresas com a melhor narrativa sobre inovação. Serão aquelas capazes de combinar capital disciplinado, adaptação operacional, governança séria e tecnologia aplicada a problema real.

Em um ambiente de negócios mais duro, levantar rápido deixou de ser virtude. Virou competência central.

Acompanhe tudo sobre:Líderes Extraordinários

Mais de Líderes Extraordinários

Nem MBA, nem mindfulness: o próximo hack de liderança é apanhar

O cérebro

Liderança em tempos de “cisnes negros”

Por que investir em IA não garante geração de valor