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Disparada dos juros impulsiona a venda de consórcios; veja se vale a pena

Com a Selic perto de 12%, boa parte dos brasileiros deixou te der acesso ao crédito para a aquisição de moradia, carro e serviços. O consórcio surge como alternativa, mas é importante observar as condições e custos

 (michaeljung/Thinkstock)

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Bianca Alvarenga

Publicado em 24 de março de 2022, 06h04.

Última atualização em 24 de março de 2022, 09h56.

A disparada da taxa Selic deixou boa parte dos brasileiros mais distante de sonhos como a casa própria ou o carro na garagem. Com os juros básicos chegando a 11,75%, os bancos também reajustaram as taxas das linhas de crédito, o que aumentou o custo de aquisição de bens e serviços.

No caso do crédito imobiliário, por exemplo, os juros médios dos contratos saltaram de 6,7% em maio de 2021 para 9,4% em janeiro de 2022. As taxas para o financiamento de veículos foram de 18,5% em setembro de 2020 para 27% no começo de 2022 – os dados são do Banco Central.

Além de mais caros, os financiamentos tornaram-se mais inacessíveis, dado que os rendimentos da população não acompanhou a disparada dos juros. Ou seja: quem ainda pode contratar uma linha de crédito está pagando mais caro, mas muita gente não consegue sequer pleitear esses financiamentos, pois não se enquadra mais nos critérios de renda.

O cenário à frente é desafiador. Segundo estimativas dos economistas, a taxa Selic pode saltar para a casa dos 13% até o final do ano, o que deve pressionar ainda mais o custo do crédito. Mas para o setor de consórcios, essa não é, necessariamente, uma má notícia. A venda de novas cotas cresceu 15% em 2021, avanço já, em partes, influenciado pela virada nos juros.

“Em 2022, poderemos repetir o bom desempenho alcançado em 2021. Importante lembrar que, apesar das projeções para 2022 indicarem recuo nos índices inflacionários, ainda assim teremos patamares relativamente altos de inflação, o que mantém o consumidor mais cauteloso ao adquirir bens e serviços", afirmou Paulo Roberto Rossi, presidente executivo da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC).

O número total de novas adesões chegou a 3,4 milhões em 2021. Veja abaixo o histórico do setor:

Consórcio ou financiamento?

Embora tenham a mesma finalidade (a aquisição de bens e serviços), os consórcios e as linhas tradicionais de financiamento são produtos financeiros completamente diferentes. A primeira diferença é quanto ao prazo: o crédito serve para uma aquisição imediata, enquanto o consórcio, em geral, atende a propósitos de maior prazo.

A comodidade do dinheiro disponível imediatamente tem um custo: os juros. Já no caso do consórcio, os acréscimos se dão em razão da taxa de administração e dos reajustes inflacionários. Os consórcios de imóveis, por exemplo, têm as parcelas e o valor da carta ajustados pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC). Já os consórcios de veículos são ajustados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A questão é que a inflação disparou nos últimos meses e gerou uma pressão adicional para o pagamento das parcelas de consórcios. Apesar de não sofrerem incidência direta dos juros, os contratos do segmento estão sujeitos a reajustes de até dois dígitos, em razão da alta dos preços – não é por acaso a preocupação do presidente da ABAC sobre a inflação em 2022.

Veja abaixo o desempenho dos principais índices de inflação que corrigem as parcelas dos consórcios:

"O consórcio tem mais de 50 anos de história aqui, e funciona com base no conceito simples de arrecadação coletiva de recursos para adquirir um bem ou serviço. É uma ferramenta de crédito que está se aprimorando e que sobreviveu a diversas crises", ponderou Rodrigo Salim, diretor executivo da Wiz, distribuidora de consórcios e outros produtos financeiros.

O fato de o setor ter navegado bem durante momentos turbulentos tem a ver justamente com o histórico de juros altos no Brasil. Ciclos, como o atual, acabam "empurrando" parte das famílias brasileiras para os consórcios, inclusive para a aquisição de produtos e serviços de menor valor.

Ainda de acordo com dados da ABAC, o número de participantes de consórcios para aquisição de serviços aumentou 22% em 2021. Os consórcios de eletroeletrônicos, eletrodomésticos e bens duráveis cresceram ainda mais, chegando a uma captação de clientes 51% maior do que em 2020.

Em volume total, os segmentos mais tradicionais, como automóveis, motos e imóveis ainda são os que angariam mais participantes, mas o crescimento das categorias de produtos e serviços de menor valor são um indício do afunilamento do mercado de crédito tradicional.

Motor de vendas

O crescimento do número de adesões aos consórcios é comemorada não só pelas empresas que comercializam os produtos, mas também pela indústria de bens e serviços ofertados.

Ainda de acordo com os dados da ABAC, uma em cada duas motos vendidas em 2021 foi para um consorciado, e entre os veículos leves, a proporção foi de um a cada três. Nos imóveis, a participação do setor é menor, de cerca de 10%.

Apesar disso, a alta dos juros deve ampliar essa fatia. Para Márcio Kogut, CEO da empresa de consórcios Mycon, o custo deve ser o grande impulsionador da demanda.

"Nossa expectativa é de dobrar as vendas para este ano, pelo menos. A alta da Selic com certeza vai interferir no nosso negócio, mas de uma maneira positiva: enquanto os financiamentos ficam cada vez mais caros, o consórcio segue com sua taxa fixa, o que fortalece ainda mais o nosso produto", afirmou o executivo.