Taxa das blusinhas: Imposto de Importação para compras até US$ 50 foi zerado (Emilija Manevska/Getty Images)
Repórter de finanças
Publicado em 14 de maio de 2026 às 05h00.
Os números são alarmantes. No Brasil, havia 82,8 milhões de endividados em março, segundo dados da Serasa. O maior vilão é o cartão de crédito, seguido pelas contas básicas. No meio desse cenário, qualquer estímulo ao consumo pode gerar uma turbulência e tornar esse contexto ainda mais desafiador.
Um desses estímulos pode estar mais próximo do que se imagina: a retirada da “taxa das blusinhas”. O que aconteceu foi que, até o momento, compras internacionais de até US$ 50 (R$ 245) estavam sujeitas ao Imposto de Importação de 20%. A partir desta quarta-feira, 13, entrou em vigor o decreto assinado pelo presidente Lula que retira o tributo.
Ou seja, comprar em lojas como Shein, AliExpress e Shoppe agora fica “mais barato”, já que há a isenção do tributo — apesar de ainda haver a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Tal movimento pode gerar uma falsa sensação de ganho e colaborar para aumentar o endividamento da população.
“Preços baixos estimulam compras por impulso e aumentam o volume de gastos. Em um país com altos índices de inadimplência, esse consumo sem planejamento desequilibra as contas domésticas rapidamente”, explica Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas.
Ao parecer “barato demais”, o consumidor tende a comprar com mais frequência e em quantidades maiores do que realmente necessita.
Esse efeito também reduz a reflexão no momento da compra, já que os critérios de necessidade acabam sendo flexibilizados. Em vez de se perguntar “Eu quero ou preciso disso?”, prevalece a sensação de urgência de aproveitar a oferta porque “está barato demais para deixar passar”.
“São mecanismos ligados aos comportamentos de escassez, recompensa imediata, ‘dopamina do consumo’ e o medo de ficar de fora. Tudo isso somado faz com que o consumidor fique preso sem perceber na armadilha dos pequenos gastos”, comenta Paula Sauer, economista, planejadora financeira CFP e professora de Economia na ESPM.
Para quem já estava inclinado a comprar, essa isenção vem tal qual uma sensação de “liquidação”. “No meio desse cenário de inadimplência elevada, um estímulo ao consumo pode ser problemático para famílias que já estão com o orçamento apertado e a renda comprometida”, diz Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV.
Ela continua: “Um ponto importante é que a retirada da taxa pode até ter barateado
a compra, mas não aumentou a renda da família. Então se o orçamento já estava comprometido, a melhor alternativa é não comprar, apesar de estar mais barato”
Há mais um problema no combo. Esse produto que está “mais barato” pode continuar sendo caro se a pessoa tiver que entrar num rotativo de cartão de crédito ou num Pix parcelado e não conseguir bancar essa compra.
No caso do rotativo do cartão de crédito, os juros costumam ser muito elevados, o que faz a dívida crescer rapidamente ao longo do tempo. Já o Pix parcelado pode estimular compras por impulso justamente pela sensação de facilidade no pagamento.
Além disso, fatores como descontos para pagamentos via Pix e maior agilidade na entrega reforçam essa percepção de vantagem imediata. O problema é que esses benefícios acabam mascarando os juros envolvidos na operação, pontua Daiane Alves, educadora financeira da Neon.
Muitas vezes, a emoção da compra e a praticidade do pagamento fazem com que o consumidor não perceba o custo real da dívida naquele momento. Os impactos financeiros, porém, aparecem posteriormente, no pagamento das parcelas acrescidas de juros.
Outro efeito das compras “sem atrito”, associado ao conceito de dinheiro invisível, é a redução da percepção de gasto. Como o pagamento ocorre de forma rápida e pouco perceptível, o consumidor tende a refletir menos antes de comprar.
“Se ao efetuar a compra, o consumidor se perguntasse: ‘Se fosse em dinheiro, eu compraria?’, possivelmente isso reduziria a compra por impulso, ver o dinheiro indo embora, faz o consumidor parar para pensar”, aponta Sauer.
Ferramentas como Pix parcelado, cheque especial e crédito rotativo reforçam essa sensação de facilidade e solução imediata. O problema é que a praticidade pode mascarar os juros envolvidos, transformando uma solução temporária em um endividamento prolongado. Os juros do rotativo, por exemplo, ultrapassam 400% ao ano.
Segundo Sauer, o grande problema das chamadas “brusinhas” é que elas raramente são percebidas pelo consumidor como uma grande dívida. O impacto financeiro aparece de forma fragmentada, em diversas pequenas compras, parcelamentos sucessivos e no uso constante do cartão de crédito.
Como consequência, ocorre uma perda gradual da capacidade de poupança e também da capacidade futura de consumo, o que acaba perpetuando a dependência do crédito.
Sauer destaca ainda que, além dos preços baixos, essas plataformas utilizam mecanismos que estimulam o consumo impulsivo, como gamificação, promoções-relâmpago, sensação de oportunidade única e o chamado “frete grátis”.
“É difícil explicar para alguém que quer comprar que não existe frete grátis”, afirma. Segundo ela, o valor que seria pago separadamente no fim da compra já está embutido no preço do produto. Outro ponto levantado por Sauer é o comportamento de evitar encarar os próprios gastos.
“Normalmente, o sujeito que faz um mundo de pequenas compras, quando recebe a fatura, nem quer olhar em função da culpa que sente”, diz. Na psicologia econômica, esse comportamento é conhecido como “efeito avestruz”, quando a pessoa evita confrontar uma situação financeira desconfortável.
De acordo com Sauer, quando o consumo de baixo valor se torna recorrente, ele passa a corroer silenciosamente o orçamento das famílias. O cenário é ainda mais delicado no Brasil, onde uma parcela significativa da população já utiliza o crédito como extensão da renda.
Para Alves, quando a pessoa começa a usar limite do cartão, cheque especial ou empréstimos para manter despesas do dia a dia, ela cria uma falsa sensação de poder de compra.
“Esse movimento pode virar uma bola de neve quando parcelas e juros passam a comprometer a renda dos meses seguintes, reduzindo a capacidade de pagamento e aumentando o risco de inadimplência, já que o orçamento futuro chega parcialmente comprometido”, diz.
A chamada “taxa das blusinhas” é o nome popular dado ao imposto cobrado sobre compras internacionais feitas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress.
Em 2024, passou a valer a cobrança de 20% de Imposto de Importação para compras de até US$ 50, além do ICMS estadual. Já compras acima desse valor eram tributadas em 60%, também com incidência de ICMS.
Agora, a Medida Provisória (MP) 1.357 do Governo Federal zerou o Imposto de Importação para compras de até US$ 50 — mas essas compras continuam pagando o ICMS, cuja alíquota varia de 17% a 20% conforme o estado.
Para compras acima de US$ 50, o imposto federal foi reduzido de 60% para 30%, além da cobrança de ICMS.
“O consumidor sentirá algum alívio no bolso, mas não voltará ao cenário de compra internacional totalmente desonerada. A mercadoria pode ficar mais barata do que estava, mas continuará sujeita a tributação, câmbio, frete e regras aduaneiras”, pontua Max Kolbe, advogado especialista em Direito do Consumidor.
Para evitar quaisquer dores de cabeça, Tays Cavalcante, também advogada especialista em Direito do Consumidor, orienta que o cliente deve conferir o preço final antes de pagar e guardar comprovantes, prints e nota da compra, especialmente em caso de cobrança indevida, divergência de valores ou falta de informação clara pela plataforma.
“Pelo Código de Defesa do Consumidor, especialmente pelos princípios da transparência, boa-fé objetiva e informação adequada, o preço final deve ser apresentado de forma clara antes da conclusão da compra, incluindo tributos, frete e eventuais encargos”, explica.
Segundo ela, o cliente não pode ser surpreendido com cobrança posterior que não tenha sido devidamente informada no momento da contratação.