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"O Fed errou muito nos últimos anos e precisa mudar de postura", diz Luiz Fernando Figueiredo

Em entrevista do Vozes do Mercado, presidente do conselho de Jive-Mauá e ex-diretor do BC avalia falhas em condução das políticas monetárias no Brasil e Estados Unidos

 (Leandro Fonseca/Exame)

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Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

Repórter de Invest

Publicado em 16 de maio de 2024 às 14h00.

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Poucas figuras do mercado financeiro foram tão elogiadas quanto o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, quando, meses atrás, todos os sinais apontavam para o tão sonhado  (e inesperado) pouso suave da inflação americana. Mas, a recente condução da política monetária tem colocado sua reputação em risco. Isso porque, ainda no ano passado, Powell chegou a sinalizar que haveria espaço para os juros começarem a cair, levando o mercado a apostar em sete cortes para este ano. Só que a inflação e o mercado de trabalho não corresponderam como o esperado e as quedas que eram esperadas para terem início em março, ainda não vieram. Pior: dos sete cortes que o mercado chegou a acreditar no início do ano, espera-se, agora, apenas dois. Luiz Fernando Figueiredo, presidente do conselho da Jive-Mauá, gestora de ativos alternativos com R$ 19 bilhões sob gestão, é um dos que criticam arduamente a recente gestão de Powell.

"Não teve pouso [da inflação americana]. A minha nota para o Fed é ruim, porque ele foi guiando errado o mercado o tempo todo. O Fed ficou por muito tempo com um diagnóstico errado, dizendo que a inflação era um problema de oferta, ignorando que o governo americano colocou muito dinheiro nas mãos das pessoas. Depois, o Fed sinalizou diversas vezes que iria reduzir os juros e teve que abortar. O Fed errou muitas vezes", afirma Luiz Fernando Figueiredo em entrevista ao programa Vozes do Mercado, da Exame Invest.

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Figueiredo, que foi diretor do Banco Central entre 1999 e 2003, avalia que os flertes com as quedas de juros tiveram justamente o efeito oposto, postergando o início dos cortes. "O Fed sobe juros para apertar as condições financeiras e fazer com que a demanda esfrie. Até agora ele não conseguiu fazer isso. Uma das razões são as sinalizações de corte de juros. Isso afrouxa as condições financeiras. O Fed se atrapalhou. O juro já está relativamente alto. Vamos esperar que ele não volte a flertar com queda de juros tão cedo, só porque a inflação teve um leve recuo porque isso é contraproducente." O Fed precisa mudar de comportamento, diz Figueiredo, sem dizer que há espaço para cortes quando não houver convicção.

Apesar das  críticas sobre a atuação do Federal Reserve, Figueiredo vê espaço para pelo menos um corte de juros nos Estados Unidos neste ano. "A política fiscal não está sendo expansionista e a  curva de juros de médio  e longo prazo carrega um pouco de prêmio. Isso ajuda a política monetária porque torna as condições financeiras mais duras", pontua o ex-BC.  Mas para Figueiredo, o desemprego ainda precisa aumentar e as pressões salariais diminuírem antes o Fed começar a cortar juros.

"A inflação corrente é a consequência de uma série de coisas, principalmente de uma demanda mais forte e de um mercado de trabalho aquecido. Se o mercado de trabalho começar a desaquecer, a inflação será menor. Esperava-se que o Fed cortasse os juros em março porque a inflação estava caindo no mundo inteiro. Só que a demanda continuou muito forte. Tem várias coisas nos livros de macroeconomia que as pessoas acham que dá para rasgar, esta não está dando. É como a lei da gravidade."

Divisão no Banco Central e pessimismo com o Brasil

A situação é diferente no Brasil, onde o ciclo de queda de juros está mais próximo do fim. Diante do aumento de incertezas externas, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu o ritmo de corte de juros em decisão dividida na última reunião. A divisão entre os novos diretores do BC, que queriam a manutenção do corte de 0,50 ponto percentual (p.p.), e os indicados pelo antigo governo, que optaram pela redução ritmo, apresenta um risco no cenário.

"Será que, no fim do mandato, esses diretores serão substituídos por outros mais flexíveis, não tão focados no centro da meta de 3% [de IPCA]? Essa decisão gerou a percepção de que podemos estar diante de um novo Banco Central. Isso deve levar ao aumento das expectativas de inflação, que aumentam o custo do Banco Central. Se isso acontecer, a taxa de juros do fim do ciclo terá que ser maior."  Para Figueiredo, que antes previa uma taxa Selic de 8,5% a 9% no fim do ano, acredita que o ciclo de cortes se encerrará com a taxa mais próxima de 10%. 

Mais pessimista com o Brasil, muito em função das recentes políticas fiscais, Figueiredo vê pouco espaço para uma forte recuperação na renda variável. "Infelizmente, não me parece que o Brasil estará melhor que hoje até o fim deste ou do próximo ano. Os sinais que estamos dando são ruins. Mesmo com o juro caindo, os investimentos estão caindo. Como o Brasil está sem um caminho claro, fica difícil estar no radar dos investidores de fora. Os investidores brasileiros, por conta do juro alto, estão confortáveis na renda fixa. Não sou daqueles que acham que o Brasil vai para o buraco. Mas, infelizmente, estamos andando para trás."

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