Na contramão, pequeno investidor é que o mais sai de fundos de renda fixa

Saída do varejo contrasta com captação líquida da indústria superior a R$ 100 bilhões no primeiro quadrimestre
Porquinho quebrado: varejo realiza resgates de fundos de renda fixa, ações e também da poupança (Ulrich Baumgarten/Getty Images)
Porquinho quebrado: varejo realiza resgates de fundos de renda fixa, ações e também da poupança (Ulrich Baumgarten/Getty Images)
Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

Publicado em 10/06/2022 às 07:00.

Última atualização em 10/06/2022 às 07:48.

Ninguém tirou mais dinheiro de fundos de renda fixa do que o pequeno investidor, que resgatou quase R$ 9,8 bilhões no primeiro quadrimestre do ano. Isso é o que mostram os dados mais recentes da Anbima referentes ao acumulado até abril. Uma realidade um pouco diferente do discurso meanstream de que as pessoas todas estão migrando o capital da renda variável para a fixa. 

O movimento contrasta com a captação líquida total de R$ 114 bilhões por fundos de renda fixa nos quatro primeiros meses do ano. O montante quase bate todo volume levantando pela classe de fundos entre 2011 e 2020 e representa mais da metade da captação recorde de 2021, de R$ 226 bilhões.

O grupo denominado varejo tradicional é o mais numeroso, com 118 milhões de contas, e também o mais vulnerável às condições macroeconômicas. Sua reserva média (incluindo poupança e outros tipos de aplicações) é de R$ 13.000. Juntas, as reservas da maior parte dos brasileiros não bate a de 0,1% da população mais rica (private), que tem em média R$ 12 milhões em investimentos e aumentou em R$ 3 bilhões as aplicações em fundos de renda fixa entre janeiro e abril. 

Inflação, dívida e queda de renda

Pedro Rudge, sócio-fundador e COO da Leblon Equities, vê a saída de pequenos investidores em fundos de renda fixa como consequência da maior inflação e endividamento recorde de quase 80% das famílias brasileiras. “Está tudo mais caro. As pessoas estão consumindo as economias para manter certo padrão aquisitivo e pagar dívidas. Uma coisa é dívida com Selic a de 2% ao ano, outra é a 13%”, disse.

A esses dois fatores, Gesner Oliveira, professor da FGV e sócio-diretor da GO Associados, acrescenta a queda da renda média real do país — que caiu, no primeiro trimestre, de R$ 2.789 para R$ 2.548 na comparação anual. Parte do resultado foi corroído pela inflação, que foi de 11,3% no período. 

“A combinação de perda de renda e alta de juros leva ao aumento do endividamento, que restringe a capacidade de poupança das famílias. Uma boa parcela da renda vai para pagamento de dívida e, consequentemente, não sobra muito espaço para fazer aplicações financeiras”, afirmou Oliveira. 

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Sem espaço para riscos

Diante de taxas juros e inflação mais altas, sobrou ainda menos espaço para os riscos do mercado acionário. A participação da pessoa física na bolsa caiu de 19% no ano passado para 16%. Em maio, mês de menor movimentação por investidores individuais no ano, a participação ficou em 14,5%. No auge da euforia de 2020, quando a taxa Selic chegou à mínima histórica de 2% e a deflação ainda era o problema, a participação de pessoas físicas na bolsa foi de 21,5%.

O varejo tradicional e de alta renda resgatou R$ 7,7 bilhões de fundos de ações no primeiro quadrimestre, contra a entrada de R$ 2,2 bilhões no mesmo período do ano passado. Até abril, o patrimônio líquido do varejo investido diretamente em ações acumulou queda de 2% no ano para R$ 197 bilhões. Já a proporção dos investimentos do segmento private em ações cresceu 7% para R$ 452 bilhões. 

Fundos cada vez mais distantes do varejo

Mas é nos fundos em que a discrepância entre grandes e pequenos investidores se mostra ainda mais presente. Os mais ricos têm R$ 945 bilhões geridos por profissionais, mais que o triplo dos R$ 301 bilhões do varejo tradicional e que o dobro dos R$ 463 bilhões do varejo de alta renda, grupo formado por 12,7 milhões de contas e volume médio de reserva de R$ 100.000.

Essa diferença, por sinal, só tem crescido nos últimos anos. Desde 2018, o volume sob gestão do segmento private aumentou em 21%, enquanto do varejo tradicional caiu 5% e o de alta renda, 13%. “A queda da participação do varejo em fundos tem sido brutal, principalmente pelas políticas de focar em grandes investidores”, disse William Eid, coordenador do centro de estudos em finanças da FGV EAESP.

Mas os saques não se restringiram aos mercados de fundos e ações. No ano, a principal reserva de valor de pequenos investidores, a poupança do varejo tradicional, diminuiu em R$ 22 bilhões. O montante cresce para R$ 36 bilhões, considerando as retiradas do varejo de alta renda. 

Parte desse dinheiro tem ido para investimentos diretos em renda fixa. O patrimônio de pequenos investidores em títulos públicos aumentou em R$ 5 bilhões no quadrimestre. Mas é a carteira de crédito privado que mais tem crescido. Quase R$ 32 bilhões foi parar em CDBs e RDBs e R$ 13 bilhões em LCAs, que se tornaram mais acessíveis com a popularização de plataformas para o varejo. 

Essa maior busca também é atribuída por Eid à falta da volatilidade aparente dos papéis, característica dos fundos de renda fixa. "É difícil entender a variação negativa de fundos de renda fixa. No CDB o investidor não percebe [a marcação a mercado], leva até o vencimento e fica tranquilo."

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