China celebra o Ano do Tigre: hora da virada para investir no país?

Depois de meses com o mercado turbulento, ações e títulos na segunda maior economia do mundo ficam mais atraentes em um ano estratégico para o país
Alegoria usada para simbolizar o animal na celebração do Ano do Tigre na China | Foto: Xinzheng/Getty Images (Getty Images/Xinzheng)
Alegoria usada para simbolizar o animal na celebração do Ano do Tigre na China | Foto: Xinzheng/Getty Images (Getty Images/Xinzheng)
Por Da RedaçãoPublicado em 01/02/2022 07:48 | Última atualização em 01/02/2022 09:22Tempo de Leitura: 6 min de leitura

Na simbologia do zodíaco chinês, o tigre representa coragem, força e a capacidade de superar obstáculos. São características desejáveis para o investidor que aposta no gigante asiático e que entram em evidência com o início do Ano Novo chinês, celebrado nesta terça-feira, dia 1º de fevereiro. Será, depois de doze anos, a vez do Ano do Tigre.

Investidores enfrentam tempos difíceis na segunda maior economia do mundo. Em 2021, os principais índices de ações se descolaram dos mercados desenvolvidos e até de parte dos emergentes e fecharam com perdas: o Hang Seng, índice da Bolsa de Hong Kong que reúne muitas das empresas de tecnologia da China, teve queda de cerca de 15%; o MSCI China, que cobre perto de 85% do mercado acionário local, encerrou o ano com queda de 22% em dólares.

O último ano foi pródigo em providenciar obstáculos que reforçaram o ceticismo de quem questiona o investimento em ativos locais e que colocaram à prova aqueles que são entusiastas da temática da China no portfólio.

No segundo caso está o bilionário Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, maior gestora de fundos hedge do mundo, e defensor árduo do mercado chinês.

"É uma parte do mundo que não se pode negligenciar não apenas por causa das oportunidades que oferece mas também porque se perde a agitação se você não está lá", defendeu Dalio em evento recente.

Não são apenas palavras. No fim do ano, Dalio levantou 1,25 bilhão de dólares para um novo fundo dedicado ao investimento no país, o terceiro com esse objetivo, segundo noticiou o The Wall Street Journal.

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O momento atual de perdas seria uma oportunidade rara do chamado "buy the dip", a recomendação para comprar na baixa que ganhou força entre investidores mundo afora e, em especial, de Wall Street nas últimas semanas.

Além disso, a avaliação de parte do mercado e de economistas que acompanham a China mais atentamente é que o governo local vai tomar decisões que reforcem o crescimento neste ano estratégico de 2022.

O ano terá a oportunidade de exibir a força da economia com a Olimpíada de Inverno de Pequim, que começa nesta sexta-feira, dia 4, e, principalmente, a realização do XX Congresso do Partido Comunista, em outubro, que deve pavimentar a condução do presidente Xi Jinping a um terceiro mandato à frente do país.

Sinais concretos da volta da disposição de acelerar o crescimento da segunda maior economia do mundo vieram nas últimas semanas com o aumento da emissão de títulos e o corte em taxas de juros, na contramão global de aperto monetário por causa da inflação persistente em patamares mais elevados. Foi a primeira redução em quase dois anos.

Em janeiro, as perspectivas mais favoráveis parecem ter começado a surtir efeito. O Hang Seng encerrou o mês com leve ganho de 1,73%, enquanto o MSCI China, mais abrangente, registrou perdas de quase 3%, muito abaixo da queda de cerca de 10% nos principais índices acionários de Wall Street, por exemplo.

O MSCI China tem sido negociado a 15x o lucro projetado para 2022, o que evidencia múltiplos atraentes.

"A China entrou em promoção", disse Mary Callahan Erdoes, CEO da J.P. Morgan Asset & Wealth Management, em evento em outubro do ano passado.

Há projeções de ganhos mesmo para quem tem uma visão mais moderada sobre as perspectivas para o mercado acionário local.

"Não achamos que há um caminho claro para que as ações chinesas retomem o padrão de outperformance de longo prazo", disse Jonathan Garner, estrategista-chefe de Ásia & Mercados Emergentes do Morgan Stanley.

Apesar da cautela, ele e o seu time projetam que o MSCI China e o Hang Seng devem subir 10% e 4%, respectivamente, em 2022.

Estrategistas ecoam as palavras de Dalio e apontam uma rara oportunidade de comprar ativos locais, mesmo na forma de ETFs (Exchange Traded Funds), a preços mais atrativos do que em anos recentes.

Para o banco suíço Lombard Odier, uma das oportunidades de investimento na China se encontra na renda fixa.

"A dívida chinesa oferece yield adicional e continua a se beneficiar de forte ingresso de capital global. Adicionalmente, o segmento chinês de high yield pode oferecer um atraente retorno ajustado ao risco", apontam estrategistas do banco em relatório recente.

Ainda assim, estrategistas do Lombard Odier ressaltam que não será um crescimento a qualquer custo, como em um passado recente, e que a estabilidade da economia continua a ser um novo objetivo perseguido pelas autoridades.

Na outra ponta de sentimento sobre a China, o também bilionário investidor Georges Soros alerta que o investimento no país não é sustentável a longo prazo, citando o recente aumento do cerco regulatório a empresas de tecnologia e educação, particularmente, como fatores que causam preocupações crescentes.

A perspectiva iminente de uma deslistagem da DiDi, a gigante de tecnologia e mobilidade urbana, da Bolsa de Nova York é um exemplo entre tantos do aperto das autoridades chinesas.

Mas os desafios vão além do tema regulatório. O surgimento de novos focos de casos de coronavírus, que têm levado a medidas mais severas de restrição à circulação em diferentes cidades, também preocupa em razão dos impactos da pandemia sobre a atividade local.

O mercado de incorporação imobiliária é outro ponto de tensão e preocupação, com sua típica alavancagem elevada: o episódio envolvendo a gigante Evergrande no ano passado, que poderia levar o setor inteiro a uma sucessão de defaults, mostrou que não faltam fragilidades que podem levar a perdas milionárias no mercado local.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou justamente a política de tolerância zero com a covid adotada pelo governo de Pequim e dificuldades no mercado imobiliário como duas razões para rebaixar a projeção de crescimento da China em 2022 de 5,6% para 4,8%, em divulgação na semana passada.

Não faltam, portanto, argumentos para quem deseja investir ou evitar a exposição ao mercado chinês. A decisão vai depender do apetite de cada investidor a oportunidades que estão colocadas, mas que envolvem riscos.