Acordos de venture capital rumam para maior queda em 20 anos

O valor global dos novos acordos de venture capital caiu 42% nos primeiros 11 meses de 2022 na comparação anual, para US$ 286 bilhões, segundo a empresa de pesquisa Preqin

Capitalistas de risco, que aumentaram os gastos na última década, apertam os cintos em meio às crescentes taxas de juros (Divulgação/247wallst.com/Divulgação)

Capitalistas de risco, que aumentaram os gastos na última década, apertam os cintos em meio às crescentes taxas de juros (Divulgação/247wallst.com/Divulgação)

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Bloomberg

8 de dezembro de 2022, 14h06

Investimentos em capital de risco devem registrar o maior declínio em mais de duas décadas neste ano e superar as quedas vistas no estouro da bolha da internet e na crise financeira devido ao aumento dos juros, incertezas macroeconômicas e perdas das bolsas.

O valor global dos novos acordos de venture capital caiu 42% nos primeiros 11 meses de 2022 na comparação anual, para US$ 286 bilhões, segundo a empresa de pesquisa Preqin. É a maior baixa já registrada, pior do que o resultado do início dos anos 2000 e o colapso de 34% após a crise financeira de 2008.

Capitalistas de risco, que aumentaram os gastos na última década, apertam os cintos em meio às crescentes taxas de juros, que colocaram um prêmio sobre o capital e desafiam a mentalidade de crescimento a todo custo da indústria de tecnologia. Houve forte redução da atividade de fusões e aquisições nos dois maiores mercados de venture capital, com quedas no valor agregado dos acordos de 50% na China, e de 45% nos EUA este ano.

“A maré está virando”, disse Evan Thorpe, diretor da SixThirty Ventures, empresa americana que investe globalmente em startups em estágio inicial. “Vemos uma grande queda em relação aos picos do ano passado.”

Vários dos maiores financiadores de startups recuaram após grandes problemas em empresas de seus portfólios. A Sequoia Capital, uma das gigantes do Vale do Silício, mergulhou no mundo cripto este ano com um novo fundo de US$ 600 milhões — mas o tiro saiu pela culatra com a implosão do grupo FTX. A empresa zerou o valor total de seu investimento na FTX, assim como o SoftBank Group e a Tiger Global Management, os dois defensores mais ousados das novas tecnologias nos últimos anos.

Outro fator é a incompatibilidade de expectativas. Empresas de capital de risco não estão dispostas a investir com os altos “valuations” dos anos anteriores após a correção nas bolsas, enquanto muitos fundadores esperam melhores condições.

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“Há uma diferença de preços entre compradores e vendedores”, disse em painel recente Yan Guo, diretor do investidor de alternativas globais LGT Capital Partners, “Muitas empresas privadas ainda mantêm os ‘valuations’ de 2021, enquanto as comparáveis de capital aberto sofreram correção significativa este ano. Como resultado, os compradores exigiriam um desconto maior, mas muitos vendedores não estão prontos para abraçar essa realidade.”

O governo americano tenta frear a inflação crescente por meio de uma série de aumentos nas taxas de juros neste ano, que rapidamente enxugaram o financiamento fácil dos últimos tempos. Startups do mundo todo agora precisam mostrar um caminho claro para a rentabilidade, em muitos casos antes do planejado anteriormente.

“O mercado tem reduzido os riscos em geral”, disse David Chang, sócio-fundador da Mindworks Capital, de Hong Kong. Com o menor interesse em setores voláteis, como plataformas de criptomoedas e empresas de cheque em branco, os parceiros limitados (LP, na sigla em inglês) de empresas de venture capital buscam apostas mais seguras. “A maior parte dos ‘LP’ e o capital estão na lateral e aguardando sinais para qualquer correção.”

O mercado de venture capital na China foi afetado por uma repressão regulatória de vários anos ao setor de tecnologia e duras medidas de lockdown para limitar a propagação da Covid-19. Restrições abruptas de mobilidade dentro e ao redor das grandes cidades prejudicaram a atividade econômica e os negócios em todos os setores do país. A captação de fundos com foco na China recuou 81% este ano, de acordo com a Preqin.

No entanto, os capitalistas de risco tendem a ser otimistas sobre o longo prazo. Essa desaceleração certamente será temporária e pode acabar beneficiando o ecossistema de tecnologia ao introduzir expectativas mais realistas, disse Edith Yeung, sócia da Race Capital.

“O pior momento pode ser o melhor momento para investir em tecnologia”, disse. “Sou otimista em relação às startups tech em estágio inicial e ao avanço da tecnologia.”

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