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O rastro do dinheiro: quem fica com a liquidez no universo das PMEs brasileiras

ARTIGO: Estudo mostra quais segmentos conseguem combinar melhores margens, baixo endividamento e menor necessidade de crédito

O rrastro do dinheiro: uma trilha verde atravessa barreiras, desvios e gargalos, saindo do conjunto de PMEs até uma grande zona de concentração (ChatGPT/Reprodução)
O rrastro do dinheiro: uma trilha verde atravessa barreiras, desvios e gargalos, saindo do conjunto de PMEs até uma grande zona de concentração (ChatGPT/Reprodução)
João Kepler

João Kepler

CEO Equity Fund Group e colaborador

Publicado em 27 de setembro de 2026 às 07:00.

Quando olhamos para uma empresa, normalmente começamos pelo faturamento. Quanto vende? Quanto cresceu? Quantos milhões movimenta por ano? Mas faturar muito não significa necessariamente ter dinheiro. Uma empresa pode vender milhões e ainda passar o mês inteiro precisando de capital para financiar estoque, fornecedores, clientes e a própria operação.

Por isso, resolvi seguir outro caminho e procurar o rastro do dinheiro dentro das pequenas e médias empresas brasileiras. Uma análise de 16.753 valuations concluídos na minha plataforma de cálculo automático de valuation permite cruzar receita, EBITDA, margem operacional, dívida e necessidade declarada de crédito para identificar quais negócios apresentam maior equilíbrio financeiro.

E alguns segmentos aparecem com mais força nesse mapa. Considerando o índice de saúde financeira, que combina EBITDA positivo e dívida inferior a 20% da receita anual, entre os segmentos destacados neste levantamento a ordem é: Alimentação e Food Service  (85,6%); Financeiro e Fintech  (79,5%); E-commerce e Marketplace  (79,1%); Serviços B2B  ( 75,6%); Tecnologia e SaaS  (75,1%); e Educação  (74,3%).

Os números gerais ajudam a entender essa diferença. Entre os 14.278 valuations nos quais foi possível calcular a relação entre dívida e receita dos últimos 12 meses, 72,3% apresentavam endividamento inferior a 20% do faturamento anual. Quando combinamos EBITDA positivo com dívida abaixo desse patamar, 71,6% dos 14.157 registros elegíveis atendem às duas condições.

Alimentação e Food Service lidera esse grupo, com índice de saúde financeira de 85,6%, margem EBITDA mediana de 20% e endividamento inferior a 20% da receita anual. Além disso, 33% daqueles que informaram dívida declararam não possuir endividamento. É um resultado interessante porque mostra como negócios que trabalham com giro rápido e recebimento próximo ao momento da venda podem compensar margens menores e a necessidade de manter insumos e estoques.

Financeiro e Fintech aparece em seguida, com índice de saúde financeira de 79,5%, margem EBITDA mediana de 30% e com endividamento inferior a 20% da receita anual. Entre aqueles que informaram dívida, 45,8% declararam dívida zero. Outro dado reforça essa posição, já que 94,5% dos respondentes não indicaram demanda por crédito, capital de giro ou renegociação de dívidas.

E-commerce e Marketplace ocupa a terceira posição, com índice de saúde financeira de 79,1%, margem EBITDA mediana de 25% e 7com endividamento inferior a 20% da receita anual. Entre aqueles que informaram dívida, 34,9% declararam dívida zero. O resultado mostra que mesmo um negócio ligado ao comércio pode apresentar boa saúde financeira quando consegue combinar giro de estoque, escala e velocidade de recebimento.

Os Serviços B2B aparecem com índice de saúde financeira de 75,6%, margem EBITDA mediana de 30% e com endividamento inferior a 20% da receita anual. Entre aqueles que informaram dívida, 29,6% declararam dívida zero. Além disso, 92,3% dos respondentes não manifestaram demanda por crédito, capital de giro ou renegociação.

Em Tecnologia e SaaS, o índice de saúde financeira é de 75,1%, com margem EBITDA mediana de 30% e com endividamento inferior a 20% da receita anual. É também o segmento desse grupo com a maior proporção de dívida zero entre aqueles que informaram o dado, 47,4%. Entre os empresários que responderam sobre suas necessidades financeiras, 92,8% não apontaram demanda por crédito, capital de giro ou renegociação.

Educação fecha o grupo com índice de saúde financeira de 74,3%, margem EBITDA mediana de 30% e com endividamento inferior a 20% da receita anual. Mas muitas dessa atividade está na educação não regulada. Entre aqueles que informaram dívida, 40,8% declararam dívida zero e, entre os respondentes sobre necessidades financeiras, 90,3% não indicaram demanda por crédito, capital de giro ou renegociação.

O que esses números revelam é que não existe apenas uma fórmula para ficar com o dinheiro. Alimentação e Food Service consegue se destacar mesmo com margem EBITDA menor, aparentemente favorecida pela baixa alavancagem e pela velocidade do giro. Fintech, Tecnologia, Serviços B2B e Educação combinam margens medianas maiores com endividamento relativamente baixo. E-commerce fica no meio desses dois mundos.

Alguns negócios preservam liquidez pela margem, outros pela recorrência, outros pelo giro e os melhores conseguem combinar mais de uma dessas características.

É claro que não basta pertencer a determinado setor. Uma escola com grandes instalações físicas possui uma dinâmica financeira completamente diferente de uma plataforma de educação digital. Da mesma forma, um restaurante com baixo giro é diferente de uma operação de alimentação que recebe rapidamente e gira o estoque com velocidade. O modelo de negócio pode ser tão importante quanto o segmento.

A comparação com atividades mais intensivas em capital deixa isso evidente. Em Indústria, Agronegócio e Infraestrutura, o EBITDA mediano é maior em valores absolutos, aproximadamente R$ 1,2 milhão, mas a margem EBITDA mediana cai para 22% e 63,8% apresentam endividamento inferior a 20% da receita anual. Apenas 18,3% daqueles que informaram dívida declararam não possuir endividamento.
Isso não significa que indústria seja um negócio pior. Significa que ganhar dinheiro e precisar de dinheiro para ganhar dinheiro são coisas diferentes. Máquinas, instalações, matérias-primas, estoques e prazos de recebimento exigem capital para sustentar o crescimento.

Até o varejo traz uma descoberta interessante. Apesar de ser tradicionalmente associado a estoques e capital de giro, 74,4% apresentam endividamento inferior a 20% da receita anual. A margem EBITDA mediana, porém, é menor, de 20%, e apenas 20,2% daqueles que informaram endividamento declararam dívida zero.

Por trás dessas diferenças existe uma métrica que muitos empresários ainda acompanham pouco, o Ciclo de Conversão de Caixa. Em termos simples, ele mede quanto tempo existe entre colocar dinheiro na operação e conseguir recebê-lo de volta.

Quem compra hoje, mantém estoque, vende amanhã e recebe meses depois precisa financiar esse intervalo. Quem recebe antecipadamente ou rapidamente e paga seus custos posteriormente pode experimentar a situação inversa. Em alguns modelos, o próprio cliente ajuda a financiar a operação.

É por isso que duas empresas que faturam R$ 10 milhões podem ter situações completamente diferentes. Uma pode precisar permanentemente de crédito para sustentar estoque e financiar clientes. Outra pode receber rapidamente, carregar poucos ativos, operar com margem elevada e praticamente nenhuma dívida. O faturamento é igual. A qualidade financeira do negócio não é.

Talvez esse seja o principal rastro deixado pelos dados. Os negócios financeiramente mais equilibrados não são necessariamente aqueles que mais faturam, mas aqueles que conseguem combinar geração de resultado, baixo endividamento e menor necessidade de capital para continuar crescendo.

Por outro lado, aparece um paradoxo importante. Enquanto a nossa base reúne predominantemente empresas com endividamento relativamente controlado, os dados públicos revelam um Brasil empresarial muito mais pressionado. Em julho de 2026, o país atingiu 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes, acumulando R$ 238,6 bilhões em dívidas, segundo a Serasa Experian. Desse total, 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas, que concentravam R$ 206 bilhões em débitos vencidos.

A diferença ajuda a colocar os números em perspectiva. A base do Valuation JK não representa estatisticamente todas as empresas brasileiras. Ela é formada por adesão voluntária e tende a reunir empresários interessados em conhecer o valor do negócio, captar, investir, vender ou melhorar sua gestão.

Portanto, o mais importante não é concluir que as PMEs brasileiras estão pouco endividadas. É perceber a distância entre empresas que ainda conseguem preservar margem, caixa e capacidade de decisão e aquelas que já precisam de crédito simplesmente para continuar funcionando.

Por isso, além de perguntar quanto a empresa vende, o empresário deveria acompanhar permanentemente quanto sobra, quanto dinheiro precisa colocar para continuar crescendo e quanto tempo demora para o dinheiro que saiu voltar para o caixa.

Faturamento mostra o tamanho da operação. EBITDA ajuda a revelar sua eficiência. Valuation procura estimar quanto o negócio vale. Mas é a liquidez que determina a liberdade que o empresário tem para decidir o próximo movimento.

Para quem decide. Por quem decide.

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João Kepler

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Escritor | Educador l Anjo Investidor l CVO Bossa Invest l CEO Equity Fund Group

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