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Redação Exame
Publicado em 21 de março de 2026 às 10h00.
Toda grande transformação financeira começa pela infraestrutura. Não pela interface que o usuário vê, nem pelo produto que chega ao mercado, mas pelas camadas profundas que sustentam a circulação de dinheiro, ativos e liquidez. Ao longo da história, quem controlou essas infraestruturas acabou exercendo influência direta sobre o funcionamento da economia.
O que estamos observando agora é o início de uma nova reorganização dessas camadas estruturais. Stablecoins e tokenização não são apenas inovações isoladas dentro do universo blockchain. Elas representam dois componentes de uma mesma mudança: a construção de uma nova infraestrutura financeira digital.
Nesse cenário, a questão central deixa de ser tecnológica e passa a ser institucional. O debate se desloca para uma pergunta essencial: quem controlará as novas camadas de liquidez, liquidação e emissão de valor no sistema financeiro digital?
As stablecoins surgiram como uma solução pragmática dentro do mercado de criptoativos. A proposta inicial era simples: reduzir a volatilidade e permitir transações mais estáveis em ambientes digitais. No entanto, o que começou como uma solução técnica acabou evoluindo para algo muito mais relevante.
Hoje, em diversos ambientes digitais, as stablecoins já operam como infraestrutura de liquidez. Elas permitem transferências internacionais rápidas, liquidação em ambientes digitais e integração direta com aplicações financeiras emergentes. Em muitos contextos, funcionam, na prática, como uma camada monetária paralela.
Esse fenômeno revela algo importante. Quando um ativo digital privado passa a circular amplamente como meio de liquidação e reserva de valor operacional, ele deixa de ser apenas uma inovação tecnológica. Passa a desempenhar uma função monetária. A partir desse momento, o debate inevitavelmente se desloca da tecnologia para a governança.
Se as stablecoins representam a digitalização do dinheiro, a tokenização representa a digitalização dos ativos. A lógica por trás desse movimento é transformar direitos econômicos em registros digitais programáveis que possam circular com maior eficiência.
A tokenização permite fracionamento, transferências mais rápidas e novos modelos de liquidação. Mas seu impacto mais profundo não está apenas nessas características operacionais. O verdadeiro potencial da tokenização está na possibilidade de reorganizar a infraestrutura de registro e circulação de ativos.
Ao registrar ativos em ambientes digitais interoperáveis, abre-se espaço para uma nova arquitetura de mercado, na qual emissão, negociação e liquidação passam a ocorrer de forma muito mais integrada.
Durante décadas, o sistema financeiro foi estruturado sobre duas infraestruturas distintas. De um lado, a monetária, responsável pelos pagamentos e liquidações em dinheiro. De outro, a de ativos, responsável pelo registro e negociação de instrumentos financeiros.
As tecnologias baseadas em blockchain introduzem a possibilidade de aproximar essas duas camadas. Dinheiro e ativos digitais podem coexistir em ambientes interoperáveis, permitindo liquidações mais rápidas e reduzindo a complexidade de múltiplos intermediários.
Essa convergência tem implicações profundas. Quando dinheiro e ativos passam a circular em uma mesma infraestrutura digital, o próprio funcionamento dos mercados financeiros começa a se reorganizar.
Sempre que uma nova infraestrutura emerge, diferentes atores passam a disputar sua construção e governança. No caso do sistema financeiro digital, essa disputa envolve empresas de tecnologia, emissores de stablecoins, instituições financeiras tradicionais e autoridades monetárias.
Cada um desses atores possui interesses distintos. Empresas de tecnologia enxergam novas oportunidades de integração financeira em escala global. Instituições financeiras buscam preservar sua posição dentro do sistema. Bancos centrais procuram garantir estabilidade monetária e controle sobre a política econômica.
No centro dessa disputa está uma questão fundamental: quem controlará os mecanismos de emissão, liquidação e circulação do dinheiro digital.
Historicamente, quem controla essas infraestruturas exerce influência significativa sobre o funcionamento do sistema econômico. No ambiente digital, essa lógica tende a se repetir, ainda que sob novas formas tecnológicas.
A transformação da infraestrutura financeira traz oportunidades claras de eficiência. Liquidações mais rápidas, redução de fricções operacionais e novos modelos de organização de mercados estão entre as possibilidades mais frequentemente mencionadas.
Mas essas oportunidades vêm acompanhadas de desafios igualmente relevantes. Sistemas financeiros operam sob confiança institucional, e a introdução de novas infraestruturas exige mecanismos de governança capazes de equilibrar inovação com estabilidade.
Por isso, reguladores ao redor do mundo têm adotado abordagens progressivas, baseadas em experimentação, projetos piloto e construção gradual de estruturas normativas.
Stablecoins e tokenização não são apenas tendências tecnológicas dentro do universo blockchain. Elas representam os primeiros sinais de uma reorganização mais profunda da infraestrutura financeira global.
Ao longo da história, mudanças estruturais no sistema financeiro raramente ocorreram apenas por avanços tecnológicos. Elas aconteceram quando novas tecnologias passaram a redefinir as instituições que sustentam o sistema.
A transformação em curso aponta exatamente nessa direção. A próxima fase da evolução financeira será definida não apenas pela inovação tecnológica, mas também pela disputa institucional sobre quem controlará as novas infraestruturas que sustentarão o sistema monetário digital.
* André Carneiro é CEO da BBChain.
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