Computadores quânticos: descoberta pode ajudar no desenvolvimento de tecnologias futuras (Getty Images)
Agência de notícias
Publicado em 15 de julho de 2026 às 09h30.
A chegada dos primeiros computadores quânticos operacionais do Brasil transforma uma ameaça ainda distante para o Bitcoin e outras criptomoedas em um problema concreto de planejamento para bancos, exchanges e empresas que custodiam ativos virtuais.
De acordo com um relatório da Taurus, o ponto não é que as novas máquinas brasileiras possam quebrar a criptografia das blockchains, mas que a tecnologia escolhida hoje para guardar as chaves privadas pode determinar a velocidade, ou até a possibilidade, de uma futura migração para a segurança pós-quântica.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou que o Centro Internacional de Computação e Tecnologias Quânticas da Paraíba (CIQuanta) vai abrigar dois computadores quânticos, com capacidades de 20 e 100 qubits. O governo estima investimentos de cerca de R$ 150 milhões na estrutura. Até junho, porém, o MCTI ainda não havia informado uma data para o início da operação das máquinas.
Segundo uma análise publicada em junho pela Taurus, nenhum computador quântico existente consegue hoje quebrar a criptografia usada em aplicações reais. A empresa afirma que as máquinas atuais permanecem muito abaixo da capacidade necessária para executar esse tipo de ataque.
A preocupação está no que vem depois. Um computador quântico suficientemente poderoso, ao executar o algoritmo de Shor, poderia romper a base matemática da criptografia de chave pública que protege assinaturas de transações, conexões TLS e SSH, certificados digitais e outros sistemas críticos.
No caso das criptomoedas, o risco atinge diretamente as assinaturas que autorizam a movimentação dos ativos. O Bitcoin usa ECDSA e Schnorr, enquanto o Ethereum utiliza ECDSA nas transações e assinaturas BLS no mecanismo de consenso. Em um cenário com uma máquina quântica criptograficamente relevante, um invasor poderia, em tese, derivar uma chave privada a partir da chave pública e então tentar assinar uma transação em nome do proprietário.
A chegada da computação quântica ao Brasil coincide com outro movimento. Desde 2 de fevereiro, as novas regras do Banco Central para o mercado de ativos virtuais estão em vigor e criaram, entre outras categorias, as sociedades custodiantes de ativos virtuais, que passam a integrar um ambiente regulado com exigências de governança, segurança, gestão de riscos e segregação patrimonial.
A análise da Taurus coloca no centro desse debate duas das principais arquiteturas usadas na custódia institucional de criptomoedas: os módulos de segurança de hardware, conhecidos como HSMs, e a computação multipartidária, ou MPC.
Os HSMs protegem as chaves criptográficas dentro de um dispositivo físico especializado. Já o MPC distribui o processo de assinatura entre diferentes participantes ou sistemas, de modo que nenhuma parte precise manter sozinha a chave privada completa.
Essa distribuição pode reduzir determinados riscos de comprometimento, mas, segundo a Taurus, não torna uma assinatura resistente a computadores quânticos. Quando uma blockchain exige ECDSA ou EdDSA, por exemplo, o resultado final continua dependendo da mesma criptografia vulnerável, independentemente de a assinatura ter surgido de um HSM ou de um protocolo MPC.
A diferença aparece durante a migração. O relatório sustenta que HSMs de nível institucional já conseguem incorporar diferentes algoritmos pós-quânticos dentro de uma barreira protegida de hardware, dependendo do equipamento e da versão do firmware. Um sistema MPC, por outro lado, precisa de um protocolo distribuído específico para cada nova família de assinaturas.
No caso de algoritmos pós-quânticos baseados em reticulados, como o ML-DSA, a Taurus afirma que o uso de MPC é possível em princípio. No entanto, os protocolos relevantes surgiram apenas entre 2025 e 2026 e ainda não alcançaram ampla validação em ambientes institucionais de produção.
O problema fica mais profundo com assinaturas baseadas em funções hash, como SLH-DSA e SPHINCS+. O relatório aponta uma barreira matemática estrutural para distribuir esse tipo de assinatura por meio de MPC, enquanto arquiteturas baseadas em HSM podem incorporar esses algoritmos.
De acordo com o documento, a Circle selecionou a variante SLH-DSA-SHA2-128s, padronizada pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), para a verificação de smart accounts na blockchain Arc. A Aptos também propôs o mesmo esquema para contas pós-quânticas. Ao mesmo tempo, o Ethereum estuda caminhos que incluem assinaturas baseadas em hash.
Isso cria uma pergunta prática para bancos, exchanges e custodiantes: a arquitetura contratada hoje conseguirá acompanhar os algoritmos que as blockchains eventualmente escolhere
O Banco Central também começou a acompanhar o tema. Em março, Carlos André de Melo Alves, coordenador do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do BC, afirmou que a autarquia estuda tecnologias emergentes, entre elas a computação quântica, com foco principalmente em segurança.
Segundo o representante da autoridade monetária, o BC mantém conversas com outros reguladores para compreender os efeitos dos novos padrões criptográficos. “É um assunto emergente, o Banco Central está estudando”, afirmou.
A instituição já havia participado, em 2022, de um estudo com a Brazil Quantum, a Microsoft e a Fenasbac sobre a viabilidade de algoritmos resistentes a ataques quânticos para elevar a segurança do Pix.
Desse modo, a Taurus recomenda que as instituições não aguardem a chegada de um computador capaz de quebrar a criptografia atual. O plano sugerido começa pelo inventário de todos os sistemas que utilizam criptografia de chave pública e passa pela avaliação de HSMs, protocolos MPC, conexões TLS e SSH, backups, autenticação de administradores, assinaturas de software e integrações com fornecedores.
A empresa também propõe que os custodiantes questionem seus fornecedores sobre quais algoritmos pós-quânticos já recebem suporte, se padrões como ML-KEM, ML-DSA e SLH-DSA funcionam efetivamente em produção, quais versões de firmware são necessárias e quais recursos existem apenas nos planos futuros dos fabricantes.
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